26 março, 2012

Memórias de Primavera

Lembro-me, lembro-me, oh se me lembro. Saudosamente.


As glicínias enfeitavam a pérgula e coloriam as pedras da calçada no seu reflexo com o sol, as árvores cheiravam a arco-íris e a avenida transformava-se num jardim de aromas doces.


Eu ia buscar a minha bicicleta encarnada e andava em redor dos canteiros onde as flores desabrochavam a sorrir. Nas bermas do rio os namoros despertavam, eu sentava-me na ponte debruçada sobre as águas e, descalça, sentia o refrescar das manhãs pelo chapinhar dos patos. Depois, rebolava pelo relvado onde as plantas trepadeiras se beijavam.


Voltava para casa numa correria, dançava pelos quintais perfumados pela flor de laranjeira e subia às árvores a cantar. Apanhava laranjas e tangerinas, pulava pelos telhados e brincava com os gatos que passavam a vadiar.


Saltava à corda, jogava à macaca e, nos fins de tarde, ia para o sótão construir castelos de lego. À noitinha, inventava sonhos no cintilar das estrelas e escrevinhava pequenos contos de príncipes e princesas sob o roseiral a florir.


E lembro-me, lembro-me nostalgicamente. Da minha mãe me embalar no seu colo a cada luar, acariciar os meus cabelos e contar-me histórias de encantar para eu adormecer. Era tudo tão suave.


Em tempos de feira de Março, levava-me a andar de carrossel com as minhas irmãs e, juntas, comíamos algodão doce por entre as gentes que passeavam numa alegria contagiante. Lembro-me dos rostos, do brilho nos olhares e do rasgo dos sorrisos.


Lembro-me, oh se me lembro de, num dia primaveril, lhe dizer:


- Mãe, não quero crescer.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

9 comentários:

  1. Que bela descrição...gostei muito.
    Nunca queremos crescer, mas há uma criança dentro de nós que nunca cresce.

    beijos infantis ;)

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  2. Sempre bem... muito bem aliás!!
    Já há uns tempos que andavas a dever um texto à casa :D

    Só não consigo idealizar uma bicicleta "encarnada" ou arranjas uma bicicleta vermelha ou "bremelha" :D :D ou sei lá, pronto muda-lhe a cor para uma coisa gira, tipo ... azul :D

    Gosto muito de ler o que escreves
    Abraço grande

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  3. Comovem-me sempre e especialmente as tuas palavras. Hoje, talvez um pouco mais porque tinha muitas saudades deste aconchego :)

    Senti cada momento, cada peripécia como sendo também parte das minhas memórias primaveris :)

    Beijo enorme, querida Leonor...

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  4. Olá, T.
    Que nunca morra a criança que há em nós..
    Obrigada por passares. Fui espreitar o teu blog há algum tempo atrás e gostei bastante mas, na altura, não dava para comentar. Voltarei.

    Beijos infantis pra ti também :)

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  5. E eu que não gosto de ausências, muito menos prolongadas
    Olha, pensei numa bicicleta cor de rosa mas como a minha era mesmo encarnada (ou 'bremelha') e branca.. tás a ver, né?
    Obrigada..

    Abraço enorme :)

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  6. Querida Natacha,
    Sei que tenho andado ausente e estou em falta, mas sabes como é.. não vale a pena justificar, não achas?
    As tuas palavras são sempre doces.. obrigada :)

    Um beijinho grande, grande

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  7. Nada de "em falta"! nem justificações são necessárias, nunca :)

    No outro dia passei por uma frase excelente em que se lia que "saudade é o preço a pagar por se viverem momentos inesquecíveis" :)

    Obrigada por todos eles, minha querida e que te ausentes, porquanto voltes sempre, sim?

    Gosto de ti!

    beijinhos

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  8. Obrigada, querida amiga..
    E gostei da frase.. bem real.
    Também gosto de ti :)

    Beijinho grande

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  9. Uma pequena maravilha. Saudades!!
    Bjinhos

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