12 dezembro, 2011

FUI PLAGIADA #2

 


O Plagiador - HC Poesias - não se dignou a responder aos meus comentários nem tão pouco se deu ao dever de me deixar um pedido de desculpas, tendo já apagado alguns dos meus textos do seu blog.


 


Ainda permanecem como sendo seus os seguintes:


 


Queria escrever-te mais uma carta


Esta não é uma história de Amor


A minha feiticeira


 


Os originais, os meus:


 


Post-Scriptum


Esta não é uma história de amor


Uma bruxa diferente


 


Quero agradecer, desde já, a quem me deu apoio e compreende a minha revolta.


Obrigada.


 


 

11 dezembro, 2011

FUI PLAGIADA!

 


 


Hoje, fiquei 'doente'.


 


Encontrei um plagiador que copiou imensas histórias minhas em Agosto de 2011 alterando do seu conteúdo substantivos e adjectivos, tempos verbais, nomes de personagens e títulos.


 


http://hcorreia2003.wordpress.com/2011/08/page/2/


 


http://hcorreia2003.wordpress.com/2011/08/


 


O blog: HC Poesias


 


A cópia de um dos textos:


 


http://www.copyscape.com/?q=http%3A%2F%2Fleonorteixeira2.blogs.sapo.pt%2F&src=front


 


O original, o meu:


 


http://omeusotaoecorderosa.blogs.sapo.pt/29359.html


 


 


O Copyscape só me deu acesso às páginas uma vez, pelo que só consegui a prova da cópia de um dos textos.


Já enviei comentários e mensagens ao plagiador, mas ainda não me respondeu.


Estou sem palavras, tamanha é a minha revolta.


 


Repito o que escrevi aqui e aqui.


 


 

03 dezembro, 2011

O rio que sonho

 


Pedi ao rio das memórias que corresse a meus pés e me deixasse ficar junto às bermas, onde acabam as ausências. E tu vieste até mim.


Trazias contigo retalhos de um lugar onde as palavras ficaram, embebidas nas lagoas do tempo, esquecidas pela demora das angústias.


Vieste, despido de encontros, transbordavas emoções do que não viveste e confessaste-te no silêncio dos atalhos.


Colheste uma flor do meu jardim e enfeitaste os meus cabelos, sentiste o aroma a Primavera que disfarçou o Inverno, ajoelhaste diante de mim e disseste:


'Voltei para ter o teu perdão ou morreria no vazio dos desertos, sem letras e sem sentidos e onde tudo acaba em solidão'.


 


Acordei de um sonho. Estava sentada na berma de um rio que corria a meus pés. Ao longe, um deserto envolvia um lago azul onde palavras repetidas dançavam nas areias.


 


 

28 novembro, 2011

Palavras para uma imagem - Lá fora


(Il Telescópio de René Magritte)


 


Às vezes, oiço vozes para lá da janela do meu quarto. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.


Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio lá fora por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.


Regresso, sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega junto à vidraça, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão, perto do parapeito.


Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua para lá da janela, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.


Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.


Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo a janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.


Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.


 


 


(Texto escrito em Março de 2011, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias


 


 

21 novembro, 2011

Um serão diferente


 


Às vezes, lembro-me de ti. Minto. Não só às vezes, mas muitas vezes, tantas, quase sempre.


Recordo-me, principalmente, daquela noite fria e chuvosa de Novembro em que me levaste a casa da tua mãe. Era tarde, fomos pelo quintal, abriste a porta das traseiras e quando entrei fechei os olhos com força, absorvi o aroma que rastejava pelos móveis e pelas paredes e exclamei num sorriso: cheira à casa da minha mãe.


Encaminhaste-me à sala, acendeste a lareira e foste buscar café e chocolate quente. Sentámo-nos no chão, frente a frente, no meio das almofadas pretas e vermelhas espalhadas sobre um enorme tapete persa e debatemos o mistério da vida e a nossa crença no destino. Por entre velas acesas entrámos no mundo das adivinhas, discutimos existências anteriores e contaste-me as experiências que viveste com o teu baralho de tarô, aquele que acabaste por me oferecer dentro de uma caixinha de cartão reciclado.


Esquecemo-nos dos relógios, falámos horas a fio, mais pareciam confissões de dois adolescentes que mantêm uma cumplicidade extrema e inabalável. Perdemo-nos nas palavras até ao amanhecer e, unidos por gestos de afecto, partilhámos momentos, sentimentos, falámos das nossas perdas e das nossas conquistas, rimos e chorámos juntos enquanto a chuva caía intensa lá fora.


Houve alturas em que parecíamos dois verdadeiros poetas, as palavras saíam-nos em verso e as nossas declarações transformavam-se num autêntico poema. As tuas confissões alojaram-se na minha alma e ergueram-se num eco que, de quando em vez, vai e vem: se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo.


Puseste a tocar uma música suave, defumaste um incenso e convidaste-me para dançar. Rodopiámos um no outro até ao fim da noite numa tranquilidade aconchegante e quase nos perdemos na palavra amar mas venceu a amizade que conseguimos solidificar e, como me disseste, nunca poderíamos ser amantes porque o nosso encontro aconteceu em época incerta. Se tivesse sido um pouco antes ou um tanto depois, teríamos ficado juntos para sempre. Acredito que sim, se acredito.


Encontramo-nos na praia? Acendemos uma fogueira, bebemos café e chocolate quente e voltamos a dançar, pediste-me na despedida, como se o destino nos levasse a outra vida e o nosso adeus fosse um ponto de partida para um novo encontro. Como tu próprio disseste, entre a areia e o mar.



 


(Texto escrito em Janeiro de 2011, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

13 novembro, 2011

Mudar de vida, viver com um sonho


 


Há sonhos que se lembram por breves instantes e há os que ficam para sempre.


Laura recorda-se de um sonho que teve, talvez o mais sombrio de todos os que traz na memória. Ou o mais desejado, porque consegue ser um pouco feliz ao revivê-lo.


Todas as manhãs, bem cedinho, um denso nevoeiro encobria os raios de sol que incidiam, pálidos, sobre uma floresta encantada que guardava uma pequena cabana desabitada, feita de ébano.


Por entre as folhas vermelhas e douradas caídas sob numerosos plátanos e faias que se beijavam Laura percorria os caminhos, os cantos e recantos daquele lugar sedutor. Descalça e envolta num manto branco, parava à porta da cabana e ouvia um choro de criança mas não conseguia entrar. Um corvo cantava por perto, deitava-se num suspiro, e um lobo uivava ao longe pelo dia que acabava de nascer. Tudo lhe parecia misterioso mas mágico.


Presas aos troncos mais robustos baloiçavam cartas de amor, imensas, umas dela outras de Duarte. Um dia, na alvorada, pegou em duas delas, tocou-as numa carícia e leu-as em voz alta a olhar para o céu por entre os ramos. Teve uma sensação etérea, algo surreal, do tão genuínas que eram as palavras que ficaram.


'Ainda hoje me declaro a ti como se fosse morrer amanhã, confesso-me nestas folhas de papel que vou amarrotando a cada linha que encho de letras. Tenho medo que não me oiças se tas disser, por isso escrevo na esperança de que me leias e talvez assim consigas sentir e perceber, finalmente, a razão do meu silêncio. Porque é assim que te amo. Em silêncio. Laura.'


'E é assim que eu te sonho. A passeares pela floresta, descalça e vestida de branco, a correr até à única toca que nos sorri e eu a encolher-me no teu colo para nos escondermos naquele sítio tão pequeno e secreto, tão nosso e demasiado longe da vida real. Sei que ficarás para sempre nesse bosque e é assim que te lembro. Duarte.'


Laura queria permanecer entre a verdade e a mentira, a saudade e a ausência dos momentos como uma boneca de cera, sem alma nem coração. Queria deixar-se estar, inerte, envolta em folhas de papel onde as palavras não cabiam, entre canetas e lápis que não escreviam. Com livros, muitos livros em branco e cartas de amor vazias que se espalhavam pela floresta encantada, onde o sol desmaiava nas manhãs e o nevoeiro angustiava o cair das noites.


Sentiu-se despertar debaixo de um abeto branco, o único no meio do extenso arvoredo. A seus pés, uma lamparina dourada brilhava, começava a ganhar vida e transformou-se. Um feiticeiro surgiu, com rosto de lobo e asas de corvo, sorriu-lhe e disse: 'A minha filha nasceu ontem e eu dei-lhe o teu nome'.


 


Laura não voltou a vê-lo.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

31 outubro, 2011

Com poucas linhas

(Palavras para uma imagem de: Pablo Picasso)


 


Às vezes sinto-te chegar, pássaro branco. Trazes no bico uma flor.


Abres a porta do meu mundo e entras nos meus sonhos devagar. Recolhes-me no teu colo e afagas os meus cabelos lentamente com as tuas penas brancas, tocas no meu rosto na mais delicada carícia. E eu, em poucas linhas, pinto-te a carvão.


Em redor de nós, um vento brando que traz consigo um silêncio precioso e profundo. Nada consegue quebrar esta aragem que nos faz levitar.


Apertas-me docemente de encontro ao teu peito cor de neve e macio como lãs, envolves-me nas tuas asas de veludo e dançamos no silêncio que o vento trouxe, é-nos fiel e faz-nos subir até à nuvem mais alta. Enlaçamo-nos por entre gestos de uma ternura quase transcendental.


Respiram-se os nossos sentidos, tocam-se as nossas almas. É tudo tão suave. Pára o tempo, acaba o mundo e permanecemos neste misto de magia e inocência, meu pássaro branco.


Chamas por mim num cântico supremo e eu rendo-me a ti, tal como tu te entregas à sublime liberdade de voar. Passeamos sob um manto azul na amplitude de um intervalo, é como a vibração celestial das pradarias, e vagueamos no brilho das estrelas.


Não consigo já viver sem ti, dormes no meu ombro a cada noite fria, o teu sono é como a aragem quente que sopra nos desertos. Tu, que despes a chuva quando cai e a vestes de sol, aquele que inebria o meu leito e me alimenta.


É uma porta aberta para um sonho que se repete em cada pedaço de linha que traço com o lápis por entre os meus dedos. Uma linha apenas, das poucas que vou delineando até conceber o perfil do teu voo.


Não me fujas, ave branca, meu amparo constante que me eleva na utopia dos dias cinzentos. Leva-me contigo rumo ao arco-íris, transforma-me em pássaro com as linhas com que te desenhei.



 


(História construída a partir de textos escritos anteriormente, agora alterados e adaptados para a Fábrica de Histórias)

22 outubro, 2011

Certezas e Incertezas

 


Laura carregava em si todas as incertezas, trazia consigo tudo o que não sabia. Só o mar lhe dava respostas a todas as perguntas, conseguia saber o porquê na imensidão do azul das águas revoltas, o porquê de todos os nãos que lhe rasgavam as entranhas como punhais.


Debaixo do sol vermelho libertava-se das armadilhas do destino, nas areias brancas era-lhe devolvida a liberdade. Pelas pradarias coloridas sarava as feridas abertas pelos espinhos dos atalhos obscuros que lhe ardiam na pele, nos montes e vales encontrava a saída do labirinto que a aprisionava, onde se perdia e se esquecia de quem era.


Duarte, por sua vez, tinha todas as certezas do mundo. Sabia os quês de todos os porquês, não tinha dúvidas nem receios. Não precisava dos oceanos nem dos campos, via tudo através das cidades por entre as estações das chuvas. Era racional, mas não tinha liberdade. Não se perdia na identidade, mas escondia-se em alguém que não havia.


 


 

15 outubro, 2011

África dos meus sonhos - A minha versão


 'Voa por mim, pássaro do sol.


Voa alto.'


África dos meus sonhos, de Kuki Gallmann


 


Kuki viu Paolo surgir por entre as colinas verdejantes e floridas, descalço como sempre gostara, andando em passos largos pelo chão quente do Quénia. Trazia consigo aquele sorriso rasgado no rosto, prova da felicidade que transportava tão docemente na alma, e o espírito de aventureiro que lhe era profundamente característico. Por cada árvore que passava colhia uma flor, um fruto, um ramo, uma folha, um cheiro de tudo. A sorrir, sempre a sorrir, chegava à fazenda e envolvia Kuki num abraço, rodopiava com ela no seu colo e cantarolava músicas africanas. Todo o seu contentamento era sinal de que cumprira mais uma missão em prol da vida selvagem para além do seu amor a Kuki, eterna companheira de aventuras, que deixara para trás a sua vida em Itália para ficar com ele, sempre fiel e leal, num rancho junto às florestas do Quénia.


Paolo não tinha morrido. Mas, a cada amanhecer, Kuki acordava assustada, de pele molhada e olhar aflito, o corpo trémulo por um sonho perturbador. Via o homem da sua vida adormecido como num sono sem fim, num lugar onde tudo era branco mas sombrio, e não acordava. Mas Paolo estava ali, deitado a seu lado, e o seu respirar era tranquilo, imensamente tranquilo. Kuki chegou a pensar que aquele sonho era significado de um presságio, um mau presságio, mas como poderia ser se, dizem, sonhar com a morte significa vida?


E Paolo vivia, vivia intensamente. Entregava-se de corpo e alma às mais nobres causas, todas as que envolvessem a protecção dos animais do Quénia, filhos de África. Acompanhava-o sempre nessa jornada Emanuele, seu enteado, cujo relacionamento era baseado numa entrega incondicional e desmedida, como pai e filho inseparáveis.


Todos os dias, ao entardecer, passeavam pelas planícies junto às nascentes e Emanuele, ainda criança, saltitava de braços abertos por entre lírios vermelhos selvagens, as suas mãos tentavam tocar as aves que pairavam nos ninhos a chilrear, os seus dedos dançavam como bailarinos ao sabor de um vento cálido. Paolo ficava sentado entre as acácias a observá-lo com um sorriso terno, na mais serena nostalgia. Emanuele parecia voar até aos céus, como o mais fascinante dos pássaros de África, e era tão alto o seu voo.


Emanuele era encantador, mas misterioso. Vivia de um segredo, o maior e mais perigoso de todos e que poderia ser-lhe fatal. A sua sedução por serpentes era incontrolável e, durante as manhãs e inícios de tarde, corria para o seu refúgio onde guardava as cobras que conseguira apanhar até então e cuidava carinhosamente de todas sem excepção, inclusivamente das mais mortíferas. Esta era a maior preocupação de Kuki que, desde que descobrira o esconderijo, temia pela vida do seu filho adolescente. Nos seus sonhos, eternos pesadelos, Emanuele perdia a vida violenta e tragicamente por uma mordedura de uma víbora.


Eram sonhos constantes, sonhos maus, pesadelos que a perseguiam a cada noite solitária, sempre que Paolo e Emanuele se ausentavam para pernoitar em defesa da natureza do Quénia.


- Afinal, estão ambos vivos - sussurrava à bebé Sveva, fruto da sua ligação com Paolo, sempre que a embalava no colo. - Os homens da minha vida só morrem nos meus sonhos porque, a cada despertar, eles estão aqui. Paolo descalço, como sempre, a cantarolar pela terra quente e húmida com um sorriso do tamanho do mundo e Emanuele a voar, na sua inocência e bondade, como um pássaro do sol.


Kuki, na sua tristeza e coragem, acreditou nessa utopia e fez dela a sua vida. Paolo e Emanuelle estavam ali, estariam sempre, para viverem com ela a fantasia da descoberta de toda a beleza de África e do tanto que as suas terras ainda tinham para lhes oferecer e ensinar.


Desde então, em cada fim de tarde, Kuki via um pássaro do Quénia, o mais belo que alguma vez vira, via-o voar devagar debaixo do sol que se punha resplandecente para lá dos rios. Bem perto, uma fogueira ardia nas colinas junto às acácias e os dois desapareciam no horizonte numa suavidade suprema. Paolo era o sol, Emanuele o pássaro.



 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

14 outubro, 2011

O que sinto cá dentro

 


Um dia disseste-me 'eu não quero atrasar a tua vida'. Não atrasaste. A minha vida foi apenas interrompida, como se um ponto e vírgula deixasse o meu tempo inacabado e não permitisse completar o meu parágrafo, mudar de linha.


Não foste tu. Foi algo superior a ti, uma força desconhecida como aquela que criou a natureza e não conseguiu impedir que a mão do homem a destruísse.


 


Comparação exagerada? Talvez, mas é isto que sinto cá dentro.


 


 

11 outubro, 2011

Não percebo, juro que não percebo

 


Depois do reencontro repleto de abraços e lágrimas de saudade, gestos de carinho e confissões de amor num tempo perdido, ele deu-lhe um beijo e disse: Gosto de ti. E ela perguntou: Gostas mesmo? Então, porque é que não lutaste por mim?


Porque gosto das duas, respondeu ele num sorriso embaraçado(?). Ela fixou-o nos olhos durante alguns minutos sem pestanejar, soltou uma gargalhada meio irónica meio incrédula e abriu a porta de casa como que a convidá-lo para sair. E ele saiu.


 


Dá para perceber?


 

01 outubro, 2011

Palavras para uma imagem - A noite estrelada


( A noite estrelada de Vincent van Gogh)


 


- Preciso de subir ao céu e pintar as estrelas - disseste-me num passado que se me depara tão longínquo.


E continuaste a falar com um sorriso soberbamente indecifrável, sentado na tua poltrona gasta pelo tempo, de olhos fechados como que num delírio consciente.


- Preciso de fugir do tumulto das cidades e ficar no silêncio que separa a realidade do infinito. Quero a utopia do intocável, sentir a velocidade dos ventos que vêm com o sol quando se junta à lua e fica a seu lado nas noites. Quero sentar-me nas nuvens que correm devagar e assombram a terra molhada, pelas lágrimas dos deuses que choram a cantar. Quero mudar as cores do firmamento.


Ficaste em silêncio por breves instantes, pareceram-me quase eternos, era um silêncio assustador mas imensamente celestial. Depois, prosseguiste na tua deslumbrante divagação.


- Quero que a lua e as estrelas se tornem amarelas, o amarelo é a cor da alegria, e o céu seja da cor do fogo para aquecer as almas frias que vagueiam na incerteza do destino. Vais buscar o teu violino e tocas aquela música que faz o pincel pular por entre os meus dedos manchados de tinta a óleo e me ajuda, na sua fascinante melodia, a criar este cenário?


Ainda me lembro de me piscares o olho no teu semblante matreiro, misto de inocência e maturidade. Misterioso, tu, tão angustiado com a vida que corria lá fora.


- No canto inferior direito da tela ficará a velha igreja que fez gerar em mim o amor incondicional a esta arte e, ao lado, pintarei a livraria pela qual não me deixei ensinar, do tão pouco que li. Afinal, acabei por ser quem não queria, uma sombra perdida na luz dos caminhos.


Senti o silêncio uma vez mais, era profundo como a saudade e vazio como a morte. Vi uma lágrima cair pelo teu rosto abatido pelo passar das idades mas o teu sorriso retornou invulgar, como sempre, e continuaste na tua fantasia.


- No canto inferior esquerdo desenharei a montanha que desejo subir um dia e, do seu cume, tocar o céu com as minhas duas mãos. Sabes? Quero pintar o sol de azul.


Décadas depois, dou por mim a olhar para a tua noite estrelada e penso em ti, meu adorado Van Gogh, tu que partiste tão cedo e não regressaste. Tu és o sol que guarda as estrelas num céu que parece cair e eclodir com a terra e eu vejo-te dançar nessa noite sem fim.


E pintas, pintas até sempre o fascínio das noites e tudo se torna azul, tão azul, sem cidades nem gentes. Adormecem os dias, as noites despertam com a serenidade das madrugadas pintadas de amarelo e o mundo transforma-se em sonho, no teu sonho.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

24 setembro, 2011

Amor solitário

"Por todo o atelier pairava o aroma intenso das rosas e quando a branda aragem estival corria por entre as árvores do jardim, entrava pela porta a fragrância carregada do lilás, ou ainda o perfume delicado do espinheiro de floração rósea. Estendido no divã de bolsas de seda persas, a fumar, como era seu costume, cigarro após cigarro, Lord Henry Wotton só conseguia vislumbrar do seu canto as flores adocicadas e cor de mel de um laburno, cujos ramos trémulos pareciam mal poder suportar o peso de beleza tão fulgurante."


 


"O retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde


 


(...)


 


Solitário. Sou um solitário. Por onde andas, querida Lauren? Partiste com o vento numa manhã quente de Outubro, desapareceste por entre as searas que estão para lá do jardim e não voltaste. Nesta casa permanece o teu cheiro, aquele que ficava agarrado à minha pele sempre que me abraçavas.


Esperaste por mim tantos anos depois de todas as minhas promessas, agora sou eu quem espera por ti. Perdoa-me, meu amor, por não ter cumprido tudo o que inventámos para nós.


Eras mais velha que eu, mas emanavas juventude. Acho que me apaixonei pela tua força de viver, pela tua inocente rebeldia e alegria contagiantes. Lembro-me do teu sorriso, quebrava qualquer ausência nossa e a tristeza quase insuportável de não poder estar a teu lado tornava-se menor. E tu, Lauren, eras tão imensamente leal.


Para lá da janela, o aroma quente das searas aproxima-se agora de mansinho com a aragem fresca dos fins de tarde e eu pressinto-te chegar. Vejo uma sombra, pareces-me tu, irradias felicidade e vens ao meu encontro. Sempre gostaste de correr pelas searas, sentias o sublime sabor da liberdade. Mas não, não és tu que vejo. É a minha imaginação. Estou velho e cansado e esta espera incessante de ti perturba-me e sinto-me alucinar. Quero arrancar daqui este silêncio sufocante, rasga-me a pele e fere-me a alma. Fazes-me tanta falta.


Acendo mais um cigarro, quero afastar este aroma a flores que invade o atelier e me destrói por dentro por não estares aqui. Rosas, adoravas rosas e, desde há muitos anos, encomendo um ramo vermelho todos os dias na florista e enfeito este lugar que é tão teu. E volto a pintar. Pinto-te a ti, pinto-me a mim, pinto-nos a nós com as cores de um crepúsculo tão nosso, meu amor.


Estranho, deves pensar. Mas, sabes? Resolvi seguir o teu sonho e comecei a pintar. Um dia, acordei a pensar em ti como todos os dias desde que partiste, saí de casa, fui à lojinha de artes que fica no fundo da rua e comprei guaches e aguarelas, pincéis, telas e cavaletes. No lugar da sala criei um atelier, nas paredes estão os quadros que fui pintando ao longo dos tempos. Um dia, se voltares, mostro-te a tela que me ofereceste, incompleta, onde estão desenhados os nossos corpos. Quase consegui terminá-la e está exposta junto à janela que dá para o jardim, perto das tuas searas. Todos os dias olho para ela, admiro-a durante horas a fio como que a imaginar o momento em que, juntos, pintaremos o cenário que lhe falta. 


Pareço um miúdo enamorado como quando me apaixonei por ti naquela tarde, há quarenta e quatro anos atrás. Lembras-te? Éramos tão jovens e eu, muito mais que tu. Será que um dia estarei cá para ver-te chegar? Se esse dia acontecer, deixo-te esta declaração de todo o meu amor por ti e que nunca chegaste a perceber, ou a acreditar. 


E agora, que me resta? Restam-me flores, aromas, sabores e pinceladas. Cada um(a) dele(a)s é um pedaço de ti e da tua juventude que creio ser eterna porque, dizem, não envelheceste. Olho para o meu auto-retrato, vejo um homem jovem e bonito. Será que também eu não envelheci para te receber, em todo o meu fulgor, no teu regresso? Não. É desvario meu, apenas desvario. E assim ficarei, perdido nesta beleza quase transcendental, completamente só e sem ti, Lauren, minha amada Lauren.


 


Teu até sempre.


 


D.



 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

22 setembro, 2011

(Des)encontro de Almas

 


Eu queria falar de almas e de encontros, aqueles que se dão por capricho do destino. Acredito que as almas se cruzam porque têm um passado em comum, vindo de outros tempos, e algo ficou por revelar ou resolver.


Por vezes dou comigo a pensar que alma gémea há só uma mas, sempre que acredito que a encontrei, perco-a de seguida e fico sem saber a razão e questiono-me se seria mesmo aquela, a tal.


Depois de tantos (des)encontros ao longo de uma existência repleta de incertezas, chego a crer que as almas gémeas se encontram no cruzar das vidas. No intervalo, aquele que existe entre a vida e a morte.


Aí sim, nesse lugar, onde o vazio se preenche do que não sei e se transforma num instante impossível de recordar, onde nada existe mas tudo acontece. É o encontro das almas que se dá, num momento imensamente puro, em que dois corações bailam na palma de duas mãos que se desconhecem e se tocam sem saber porquê. Misterioso, mas glorioso. Os corações saltam do peito e entregam-se no mais sublime acto a que não se consegue assistir, apenas se permite imaginar.


Lágrimas rubras soltam-se em forma de nuvem, no mais profundo dos silêncios. Há tanto por descobrir. Quem fui, quem vou ser, onde estive, para onde vou, com quem. É um não sei que se inventa e que se cria, onde sou tudo o que queria ter sido e nunca fui. E volto a perguntar-me porquê. Talvez porque não consegui ou porque o destino não permitiu.


É um turbilhão de emoções, vivido num sono tranquilo mas inconstante, onde as perguntas dão lugar a respostas e as mesmas se duvidam entre si numa encruzilhada interminável.


 


 

17 setembro, 2011

O vazio dos lugares

 


Querido Duarte,


 


O meu amor adormecido despertou, o seu sono inquietou-se, o meu coração afligiu-se ao escutar, à distância, a melodia agridoce da tua voz.


Ausência, senti, uma vez mais como tantas outras nestes últimos quatro anos. Já não sei quem és, pensei, e perguntei-me que foi feito de ti porque não te reconheço. Eu, que esperei por ti todas as horas dos meus dias como se em algum momento fosses voltar. Procurei-te em todos os lugares, imaginei encontrar-te por aí, vi-te surgir nos atalhos.


Sabes? Era a minha ilusão de ver-te chegar a cada instante que me fazia acreditar que irias regressar. Mas tu não estavas. Nem aqui, nem ali, nem perto nem longe, nem em lado nenhum. Simplesmente não estavas.


Eu quis crer que era engano este meu sentimento tão imenso, quase inimaginável, cheguei a acreditar que era mentira este desejo imensurável de querer-te a meu lado, de poder respirar-te, de viver-te. Mas era verdade, era real, tão real que sentia a alma rasgar a cada pensamento de ti. E definitivamente tu não estavas, nunca estiveste. Silêncio, apenas silêncio. Perdi-te no silêncio do (re)encontro; (des)encontro.


Vêm-me à memória lembranças de nós, abraços sentidos e palavras de amor, gestos que não voltaram a repetir-se, jamais se repetirão.


...punhas as mãos na minha cintura, enrolavas-me no teu peito e dizias 'gosto de ti'. Eras tão bonito...


Fui lendo as histórias que retirei do baú de recordações, minhas e tuas, que guardei no tempo que foi nosso. Li e reli, inventei e imaginei, construí e revivi. Foram castelos de sonho que criei, desenhei-os na areia da minha praia mas levou-os o mar, o meu mar azul, em noites de tempestade. Amo-te, dizia baixinho a cada adormecer como se estivesses sempre a meu lado.


Hoje voltei a sentir o pulsar frenético do músculo que me permite respirar, foi intenso o seu disparo que abalou o seu compasso. Tarde, demasiado tarde. Vão, tudo em vão. As horas, os dias, os meses, os anos. A espera.


Quis devorar o mundo, a terra e os céus. Quis aniquilar este amor, esta paixão (sei lá) e renascer das cinzas. Deixei de saber quem sou e onde pertenço, perdi-me na turbulência dos sentidos e fugi de ti, de todos e de mim.


O sonho ruiu, o meu, de mim, de ti, de nós. Desmoronou-se, como um castelo de areia que se desfaz na maré vaza. E eu, em que me transformei? Em sombra, apenas em sombra.


 


Ficou vazio o teu lugar. E o meu.


 


Laura


 


 

05 agosto, 2011

Liberdade, preciso.

 


Sinto o meu pequeno mundo escorregar por entre os meus dedos cansados dos nós da revolta. Aquele mundo à parte deste em que vivemos, adúltero, hipócrita, egoísta, injusto.


Tenho na palma da mão um bilhete de regresso aos dias completos de sorrisos genuínos e abraços sentidos, verdades expostas e mentiras ausentes. Mas não consigo alcançar a força extrema de que necessito, receio não conseguir agarrá-la de mãos bem cerradas para que não me caia aos pés. Tenho medo que se escape deste chão que me aprisiona o corpo e não me deixa abandonar este cenário, mórbido e sombrio.


Sim, quero ir. Libertar-me das amarras que me prendem ao que não quero e me é imposto e me rasga a alma até sangrar.


Quero tirar os pés desta terra empoeirada, esquecer o lado de cá da vida, subir à árvore outonal mais alta do bosque mais longínquo, esperar com ela o desabrochar das folhas e enfeitar de balões coloridos os ramos primaveris. E quero sentar-me num galho, livre de deveres e preconceitos, selvagem e indomável, à espera das promessas a florir que me fizeram ficar.


 


O céu é o limite*. Eu quero uma estrela.


 


 


* Citação de Miguel de Cervantes.


 


 

01 agosto, 2011

Um Verão no 'Inspira-me'

 



 


Mar, sol, areia, iodo.


Mergulhar os pés na areia molhada dos fins de tarde, refrescar a pele sob as ondas vagas da manhã, assistir ao pôr de sol à beira mar. Apanhar as conchas que vêm com as marés, sentar-me no paredão nas madrugadas e admirar o brilho do reflexo das luzes na imensidão das águas que adormecem a cantar. Absorver o iodo que me ajuda a respirar.


Um bom livro.


Folhear as páginas de um livro que me chegue ao coração. Lê-lo avidamente, entregar-me de alma à sua história. 'No teu deserto' de Miguel Sousa Tavares ou o seu 'Não te deixarei morrer, David Crockett' ou ainda 'Coração sem abrigo' de José Jorge Letria.


 


Inspira-te, escolhe uma obra e deleita-te com as palavras de quem escreve.


 


 


Participação para o Especial Verão do Sapo.


 


imagem retirada de: http://fotos.sapo.pt/

19 julho, 2011

O destino das palavras

ametistaleonor


(Foto de minha autoria tirada em Julho de 2010 na praia de São Martinho do Porto)




 


Eu queria esconder as palavras que deixei perdidas no recanto das memórias, guardá-las onde dormem os tesouros, arrecadá-las bem no fundo das marés. Eu queria esconder cada palavra que escrevi, fugir com todas elas no meu colo, enterrá-las num pedaço deste chão, embebê-las na frescura das areias.


Eu queria arrancar todas as letras das histórias e poemas que inventei, escondê-las nos lugares onde ninguém mora, longe da procura de quem lê, longe dos encontros de quem espera, num cantinho bem perto do sol.


Eu queria rasgar cada momento, esmagar as cicatrizes do meu tempo, ajoelhar junto às baías e rezar, pedir ao céu e à terra que me trouxessem a raiz do esquecimento para plantar. Eu queria pintar a minha estrada de arco-íris, apagar o cinzento das veredas, quebrar o gelo e as sombras do vazio. 


Eu queria ser navegante e remar em alto mar, embarcar em silêncio sobre as ondas numa dança esvoaçante e intemporal.


 



20 junho, 2011

Um dia, quando...

 


Um dia, escrevi este texto. Quase três meses depois, transformei-o em poema para participar no concurso V prémio de poesia em rede.


Hoje, está exposto no corredor do meu hospital num cantinho da revista da casa de pessoal do mesmo, da qual sou sócia e colaboradora.


Quero, agora, partilhá-lo convosco.


 


 


Um dia, quando o céu chorar e os anjos caírem
eu quero estar lá, bem perto do infinito
para apanhar uma estrela e guardá-la junto à chave
que encerrou a minha história.
Um dia, quando se calarem todas as vozes do mundo
eu quero estar lá, nos lugares que foram meus
para gritar cada palavra que inventei
para o meu último capítulo.
Um dia, quando pararem todos os relógios
e o tempo ficar suspenso
eu quero estar lá, no vazio das épocas
para suavizar o peso dos anos apressados
e a contagem dos dias mortos.
Um dia, quando se aproximarem do fim todas as coisas
eu quero estar lá, no princípio do mistério de tudo
onde se erguem as derrotas
e das ruínas se elevam vitórias.
Um dia, quando a vida se fundir no silêncio
e a morte se cruzar com o sonho
eu quero estar lá, no meio das sombras que vagueiam
para submergir nas utopias.
Um dia, quando os lobos uivarem
para lá das cidades e um corvo vier
de onde moram os poetas já sem vida
com uma carta escondida na asa assinada por mim
significa que morri.
E nesse dia, quando eu morrer,
não quero lágrimas nem luto.
Quero que as almas que ficarem do que restou da glória
me lancem em mar alto num verso branco
lá, onde segredo nenhum é desvendado
e tudo se transforma em poesia.
E ao longe, bem distante, quero escutar
o cântico de um bando de gaivotas a sobrevoar as dunas
no mais sublime sinal de liberdade.


 


 


3 de Janeiro de 2011

19 junho, 2011

De regresso

 


Depois de quase três meses de ausência, volto com uma necessidade extrema de ler e escrever, escrever muito.


 


Um abraço.


 

29 março, 2011

Palavras para uma imagem - Sentada à janela sob o luar


 


À noite, quando a minha família descansa cá em casa e lá fora as árvores dormem e as flores se escondem do escuro, sento-me no parapeito da janela do meu quarto e fico a ver as nuvens a passar. Dançam como bolas de algodão, pintam o céu de branco com o seu bailar e vão deixando a lua despertar para iluminar as madrugadas. 


É nessas alturas em que peço às estrelas que não parem de brilhar e me deixem ficar assim, ao sabor da aragem que ajuda a esvoaçar os cortinados que aconchegam o meu quarto, para que consiga sonhar. E sonho, sonho que serei sempre criança porque se crescer fico assustada, a perda da inocência aperta-me o coração, põe-me triste e eu não quero chorar.


E penso que quero ficar sempre aqui, sentada nas almofadas mais macias que a minha mãe pôs junto à janela, para admirar docemente o que de mais belo existe nas noites.


Vejo os ramos balançarem devagarinho com o vento que vai soprando brandamente, avisto a luz do rio que corre para lá dos jardins, consigo ouvir ao longe as suas águas correrem de mansinho sobre as pedras junto ao leito. E continuo a escutar os ruídos que invadem a imensidão das sombras numa suavidade extrema. Escuto com carinho os pássaros da noite, vindos dos beirais, que passam por mim a cantar baixinho e me fazem baloiçar. 


A lua vai mudando de tempos a tempos, quando está cheia aclara as noites num esplendor, parece que me pega ao colo e me conforta, e eu falo e rio e choro de alegria. Com ela fecho os olhos e sinto o céu tão perto, quase consigo tocá-lo, e há sempre uma estrela a brilhar só para mim, fiel aos meus segredos de criança. 


Permaneço neste divagar, vagueio descalça por entre as almofadas coloridas e brinco no meu mundo de fantasia e confidências, que se completa com a imponência do que é natural, singelo e tão imensamente leal.


Sinto abrir-se a porta do meu quarto, é a minha mãe que entra para me abraçar e diz-me com doçura a beijar os meus cabelos:


- Filha, queres que te conte uma história para adormeceres?


- Não, mãezinha. Sabes? A lua disse-me que cada estrela que brilha é um sorriso que nasce, é um sinal de esperança que envia a quem olha para o céu todas as noites. Também me disse que não existe beleza maior do que o silêncio das madrugadas, mesmo aquele que é quebrado pelos sons da natureza. Significa que está viva e é imortal, como os anjos que moram no infinito.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)


 


 

24 março, 2011

Primavera (II)

Encontrei-te na outra noite, trazias contigo aquele sorriso de criança e o olhar cândido que me fez prender a ti no mais inesquecível dia de Primavera. Não mudaste, continuas com esse teu ar de miúdo traquina, não consegui resistir a dizer-te que não envelheceste nem um pouco.


Ao olhar através do verde escuro dos teus olhos, vieram-me à lembrança recordações de nós, viajei nas melhores memórias que vivemos, embalei no tempo dos abraços e das mãos que se deram na mais bela história de um amor que não se repete.


Fomos felizes no tempo que foi nosso, arrecadámos para sempre as nossas horas que fizeram parar todos os relógios e nos deixaram ser nós mesmos. Deixámos guardadas na palma da mão as gotas da água cristalina dos rios derramados a nossos pés em fins de tarde primaveris e elas não escorreram por entre os dedos, lembras-te?


Ainda sinto na pele o aroma das marés que descobrimos, as correrias contra a demora nas areias, os passeios da sede de viver que saciámos no nosso deserto que, de ermo, se fez jardim.


Na outra noite revivi e renasci, atravessei o nosso mundo uma vez mais, encontrei-me ao encontrar-te a ti, abracei a árvore que plantámos numa soalheira manhã de fins de Abril e onde ficaram escritos, numa encosta, os nossos nomes. Nenhuma outra estação os abalou, nem os anos, nem o sol e a chuva os apagou, ainda sinto os beijos que nós demos e, no momento em que te lembro, consigo vê-los baloiçar sob os ramos.


Quis repetir o que ficou para trás, abri o baú das nossas vidas e dancei contigo na urgência de te ter, como também tu me quiseste no tempo das nossas madrugadas a florir. E foi tanto o quanto te quis que deixou de haver Verão, Outono e Inverno e escutei por entre lágrimas e sorrisos de saudade, como se fosse sempre Primavera, os solos de guitarra que só tu sabes tocar.


Fui buscar os segredos que ficaram presos à raiz da nossa história, percorri as viagens que fizemos de aventura às costas, passei nas estações de comboio onde parámos de corpos a cheirar a liberdade, sustive-me nos lugares onde ficámos perdidos na nossa essência de amar.


E ondulei na pele do teu rosto, senti os teus lábios nos meus cabelos, a nossa respiração tocou-se por entre a luz e a sombra das noites e fomos nós. Recebi das tuas mãos um cravo branco, reacendeu-se o palpitar dos nossos corações vindo da mais colorida estação, outrora confidente do mais sublime dos romances, e voltei a amar-te como nunca mais amei ninguém.


E eu quis que o tempo fosse todo nosso, quis tanto que parasse ao murmúrio da nossa voz e ao eco do silêncio dos sorrisos que são só meus e teus e quis, avidamente, que o mundo se calasse ao nosso abraço no mais doce amanhecer primaveril.


 


 


(Texto escrito em 13 de Dezembro de 2010, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

21 março, 2011

Tudo e Nada

 


Por ti sinto tudo e o que não sei,


contigo sinto tudo e sinto nada,


sem ti não sinto nada e nada sei,


o tudo e o nada são tudo o que não sei


e o que te sinto...


Sinto-te através da lua,


confidente que me escuta e compreende,


que me ajuda a libertar dos meus fantasmas...


Sinto-te através do ribeiro que corre a meus pés,


me dá água para matar a sede,


aquela que tenho de ti...


Sinto-te através do chão que piso e me faz levitar,


aquele que me deixa o teu cheiro


para te respirar...


Sinto-te através daquilo que não sei,


daquilo que te reconheço e não conheço,


daquilo que te quero e te confesso...


Sinto-te e perco as palavras, fico muda,


olho-te e deixo de ver, fico sem luz,


suspiro-te e perco os meus sentidos...


Respiro-te, vivo-te, é o tudo e o nada,


é o até sempre sentir-te...


Busco-te no teu lugar,


trago-te até aqui, vivo-te por aí...


Guardo-te em cada espaço que te sinto,


num sítio qualquer...


Sonho-te e caminho contigo


de mãos dadas num compasso acertado...


Sento-me contigo na areia,


navego contigo no barco que te inventei,


no cenário de um mar que te criei...


Sinto-te e eternizo-me em ti, em tudo e em nada,


E neste tudo e nada que não sei e que te sinto,


perco-me em ti e perco-te a ti...


 


 


 


(Poema escrito em 16 de Fevereiro de 2009) in Asas Perdidas


 

Dia Mundial da Poesia

 


Eu queria homenagear todos os poetas


Cantar-lhes em verso as mais belas palavras


Fazer dançar as estrofes que ficaram


Nos poemas mais sentidos que nós lemos...


 


 


Parabéns a todos os poetas...! Bem hajam..

16 março, 2011

Voz

 



 


Às vezes, oiço vozes. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.


Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.


Sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão.


Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.


Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.


Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo uma janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.


Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.


 



 


imagem retirada de: http://weheartit.com

28 fevereiro, 2011

Alma Gémea

Desperto de um passado adormecido, sinto na pele um arrepio que se aproxima de mansinho e bate na minha alma docemente. Volto a fechar os olhos, vejo-te a ti e a mim e o nosso mundo ergue-se dos anos perdidos que caíram e renasce.


Vi-te chegar no regresso dos ventos por entre as folhas espalhadas pelo chão, trazidas por um Outono prestes a morrer. Os ramos das árvores tocavam o solo, lembro-me que disseste o quanto gostavas do cheiro a terra molhada e esboçaste um sorriso genuíno, aquele que dá vida ao fim de todas as coisas. Colheste a flor de laranjeira germinada no interior da tulipa vermelha que cultivámos na nossa última Primavera e enfeitaste o meu cabelo no gesto mais ternurento que alguma vez senti.


Vindas de outras estações esvoaçaram borboletas em torno de nós, pousaram nas tuas mãos devagarinho, nas tuas mãos, sim, que tremiam de saudade e foram ao encontro do meu rosto no mais belo resgate de um beijo. Amo-te, disseste, e escreveste essa palavra repetida no tronco da árvore mais robusta do bosque, desenhaste-a na sua raiz de uma forma magistral e sussurraste ao meu ouvido numa respiração suave: Fazemos parte deste bosque e esta é a nossa árvore.


Depois da chuva despontou o sol, era de um rubro tão intenso que mudou a estação e tornou-se Verão. E ali, longe do Inverno agreste que assombrava para lá do nosso bosque, alimentámo-nos dos frutos que brotaram das palavras que declamaste sob os galhos e do silêncio do poema que me ofereceste. Num abraço aquecemo-nos nas flores que desabrocharam fora de tempo, eram mais belas do que as do mês de Março. Acácias e amores-perfeitos, camélias e cravos, crisântemos e dálias, girassóis e orquídeas. Lembras-te?


E assim imortalizámos o nosso amor, transformámo-nos em pássaro, apenas num, levámos nas asas a semente de tudo o que foi nosso, a tulipa vermelha e a sua flor de laranjeira, e voámos em liberdade através dos tempos.


 


 


(Texto escrito em 18 de Dezembro de 2010, agora adaptado para a Fábrica de Histórias)

18 fevereiro, 2011

Post-Scriptum

...


 


Mais ninguém conseguirá preencher o lugar que te pertence. Adoro-te a ti.
Tua até sempre.


 


Laura


 


P.S. Fechei, há algumas horas, o envelope onde ficou guardada esta carta que escrevi em Dezembro de há dois anos. Quis pô-la na caixa de correio mas evitei, talvez porque te reencontrei ontem e senti que não são apenas aquelas as palavras que queria deixar-te. Algo me deteve porque há mais, muito mais, e é tanto o que quero dizer-te que a caneta treme na minha mão, por entre os dedos que nunca ousaram tocar-te diante das multidões.


Queria escrever-te mais uma carta, uma outra que não esta, mas prefiro acrescentar em post-scriptum o que o meu coração dita e como dança a minha alma mas, desta vez, sem falar de corações destroçados, de sentimentos desencontrados. Queria escrever-te uma carta, sim, mas diferente, construída de palavras doces e coloridas, sem mágoas nem lágrimas.


Não quero contos sobre confissões do que senti por ti, dos gritos silenciosos de um amor que durou demasiado tempo, tanto que não sei quanto. Não quero histórias que ficaram entre o partir e o ficar, sem princípio, meio e fim.


Sabes? Gostaria de falar-te de outras coisas. De sonhos, de desejos, de fantasias que foram preenchendo as horas dos meus dias.


Gostaria de falar-te da beleza que ficou por descobrir, dos passeios que ficaram por concretizar, do tanto que tivemos por inventar, das coisas mais simples da vida que deixámos por partilhar.


Queria dizer-te, até, que poderíamos ter alcançado o inatingível. Sabes que através dos sonhos tudo se torna possível? O nosso imaginário consegue chegar até onde a nossa alma nos levar. E tudo se torna tão bonito.


Posso contar-te que, juntos, já caminhámos à beira mar numa praia deserta, contemplámos o por de sol num fim de tarde de verão sentados na areia. Mergulhámos, lado a lado, numa onda branca e conseguimos tocar os mais belos corais no fundo do mar. Depois de admirarmos um mundo de mil cores onde conseguimos absorver o irrespirável, nadámos encostados um ao outro até à superfície dos oceanos. Para lá das águas cristalinas, sentimos o sol de um dia acabado de nascer que encheu de luz o nosso o rosto.


Lembras-te da nossa dança na praia? Aquela que ficou por inventar? Conseguimos ondular os nossos corpos e enlaçámo-nos numa agitação lenta dos sentidos. Em redor de nós, a melodia do mar cruzou-se com o cântico das gaivotas e, antes de partirmos, desenhámos o nosso nome na areia. Sabes? Ainda sinto o sabor a sal que ficou na nossa pele.


Juntos, percorremos estradas limpas e frescas, caminhámos de mãos dadas devagar por entre montes e vales, subimos colinas, saltámos nas pradarias. No final, descansámos abraçados debaixo de uma árvore no bosque secreto que guardou os nossos beijos. Consegues sentir o aroma das flores campestres? Tenho uma guardada nas páginas do livro que escrevi para ti.


Gostaria de falar-te do quanto acreditei que tudo poderia ser possível. Da esperança de ver-te chegar com uma rosa vermelha na mão e um brilho no olhar. Dos teus braços abertos para me levarem até ao mais alto dos rochedos e, de lá, admirar contigo a mais sublime das paisagens. Das semanas a viver-te por completo, dos meses de partilha, dos anos a teu lado com sorrisos.


Queria pegar nas palavras que te escrevi e declamar-tas num poema eterno. Queria recitar-te, num cenário de neve a cair numa noite de Dezembro, o que a minha alma viveu por nós.


Gostaria finalmente de confessar-te neste meu post-scriptum que, ao reencontrar-te, senti confiança. Era isso que queria dizer-te, mas perdi-me na fantasia das palavras e deixei-me levar pelo sonho.


Fica a última parte, a essencial e que pretendo fazer chegar até ti num manifesto impetuoso, pela injustiça angustiante do que nos foi destinado. É a declaração da coragem que sinto emergir do mais fundo do meu ser e me rasga as entranhas. Coragem para gastar a minha voz num grito e exclamar, de coração aberto, que renasceu a minha capacidade de lutar. Lutar, mas desta vez, por mim. Porque agora, mais do que nunca, quero recuperar a minha liberdade. A de ser feliz.


 


Concedes-me esse direito?


 


Laura


 


 


(Texto escrito em 9 de Dezembro de 2009, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

12 fevereiro, 2011

Uma bruxa diferente

Querida bruxinha,


 


Sou uma menina pobre, sem pai nem mãe, e não acredito no pai natal. Cresci com a vizinhança que me adoptou, quando perdi aqueles que me puseram no mundo, mas com a certeza de que um dia alguma arte mágica nos ofereceria dias melhores.


Estou a escrever-te esta carta com um lápis partido e por afiar, num guardanapo de papel amarrotado que encontrei sobre a mesa da cozinha, no meio dos pratos vazios que esperam pelo pão da manhã e dos copos com água do rio para cada saciar de sede.


Posso dizer-te, no entanto, que sou feliz quando brinco com as outras crianças do bairro. Jogamos à apanhada, à cabra-cega e cantamos numa roda viva de mãos dadas. Acredito, também, que neste nosso mundo de carência o amor está sempre presente e a amizade é sentimento que não morre.


Um dia falaram-me de ti. Disseram-me que vives no meio do arvoredo de um bosque onde todos têm medo de entrar, numa casinha feita de canas de madeira com móveis de verga. Contaram-me que tens um caldeirão de barro a um canto da sala e, junto à janela que te inspira nas noites de luar, guardas uma vassoura, um chapéu de bico preto, um baú com poções mágicas e uma abóbora. Sabes? Disseram-me que sabes voar.


Desde então, criei uma fantasia sobre ti e acredito que, depois do bater das doze badaladas no relógio da torre da igreja e quando a aldeia dorme, te entregas aos teus feitiços mais secretos. Depois, pões dentro de um saco de pano molhos de desejos, aqueles que vais conceder, saltas para a tua vassoura até levantares voo, tocas o céu com os dedos a sorrir e espalhas sobre os telhados dos bairros sem abrigo pozinhos de bondade misturada com pedaços de sonhos para realizar.


Queria pedir-te dois desejos. O primeiro, que me tragas um livro, apenas um, sobre histórias de encantar. Pode ser? Gostava tanto de entrar no universo dos contos coloridos, onde há castelos e florestas verde esperança, príncipes que salvam belas adormecidas e em que há sempre um final feliz. O outro desejo, que é demasiado grande, é pedir-te que me leves a ver o mar. Dizem que é azul e imenso e que chora a cantar nas madrugadas. Sei que tem ondas de espuma branca que abraçam a areia num vaivém sem fim. É verdade que o mar tem sabor a sal?


Dizem os mal-aventurados que as bruxas são más e os seus truques perversos mas, desde que ouvi o teu nome pela primeira vez, senti que as tuas artes de feiticeira são para conceder os desejos das crianças que não sabem o valor das coisas belas. Tenho uma amiguinha que partilha deste meu segredo e, tal como eu, acredita em ti.


Preferia chamar-te fada, condiz mais contigo porque falam que, por detrás dessa capa preta e debaixo do chapéu que te disfarçam, está um corpo com pele de seda, branco e frágil, e um rosto formoso como o de uma princesa. Gostava tanto de te conhecer um dia, entrar no teu mundo de magia e saltitar na tua vassoura pelo bosque.


Fada-bruxa, posso pedir-te só mais um desejo? Ensinas-me a voar?


 


Da menina que não acredita no pai natal mas crê em ti, que és uma bruxa diferente.


 


 


(História escrita para a Fábrica de Histórias)

10 fevereiro, 2011

Anjo imortal

 




 


Eu queria escrever sobre ti, tu que és imortal mas não existes e que conheço como ninguém.


Caminhas comigo de mãos dadas, beijas-me o rosto a cada mágoa e guardas-me no colo como um anjo. Tu, que vieste de outros tempos, de outras vidas, saboreaste todos os estados de alma e ressuscitaste com honra em cada era.


És tu quem me dá força para prosseguir pelas colinas, aquelas em que tropeço tantas vezes e me fazem ressurgir com um sorriso.


Tens a cabeça no lugar do coração, não sentes, não sofres, não padeces. A prudência é o teu guia, ages sem qualquer impulso que te arraste para a terra das angústias que se choram, onde se mata a sede no derramar das lágrimas.


Não sabes a razão de uma queda no abismo, esse lugar tenebroso sem saída. Moras na amplitude de um intervalo, é como a vibração celestial das pradarias sem muros nem pontes, sem portas e sem janelas, aquelas que se trancam para sempre.


Não consigo já viver sem ti, dormes no meu ombro a cada noite fria, o teu sono é como a aragem quente que sopra nos desertos. Tu, que despes a chuva quando cai e a vestes de sol, aquele que inebria o meu leito e me alimenta.


Seduzes-me na tua magia suprema, entrego-me a ti como uma cigana se rende à liberdade, saímos para a rua sob um manto branco e descalços vagueamos no silêncio das estrelas.


Não me fujas, que não sei viver sem ti, meu amparo constante que me eleva na utopia dos dias cinzentos. Leva-me contigo rumo ao arco-íris, faz de mim imortal com um beijo teu.


 


 


 


(A imagem aqui apresentada foi encontrada algures no google e sem autor referenciado. Agradeço a quem a criou que, caso a encontre por aqui, me avise para  lhe dar o devido crédito ou, se assim desejar, retirá-la-ei de imediato.)


 


 

03 fevereiro, 2011

Uma página em branco

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(imagem retirada de: google imagens)
 


As notas de música estavam lá, escritas em pautas brancas, mas não se viam. Tudo lhe parecia oco e, ao mesmo tempo, tão cheio de cenários escurecidos pelo fim dos tempos.


As paredes eram de vidro e as prateleiras de cristal onde centenas de livros dormiam, ordenados no pó do esquecimento. A um canto do salão, um piano negro de cauda onde mãos sem dono tocavam para uma plateia de lugares vazios. Sobre as teclas, véus sem corpo faziam soar a música num murmúrio distante como que numa marcha fúnebre e, de pé, vultos sem contornos aplaudiam.


Os rostos não tinham expressão, eram insípidos, os olhos não viam e as bocas não falavam. Apenas gestos indecifráveis, dedos que tocavam os intervalos e passos que quebravam o silêncio, desfolhando páginas e páginas empalidecidas de livros adormecidos, tantos, sem letras nem palavras.


Os vultos iam saindo da sala sem tecto num alinhamento compassado e riam e sorriam em tom débil, de máscara posta, como que num baile carnavalesco.


Os acordes compostos ecoavam tilintantes e, ao fundo do salão, vislumbrava-se uma silhueta, apenas uma, envolta em folhas de papel em branco que iam caindo em marcha pelo chão, soltas pelas asas de um condor que esvoaçava na imensidão de um céu que não havia.


A silhueta procurou por todos os lados algo com que pudesse escrever mas não encontrou, queria deixar na memória dos que restassem tudo a que acabava de assistir. E quis tanto preencher as páginas vazias e construir uma história ou talvez um livro que, subitamente, ao tocar numa das folhas com avidez, sentiu um ardor que lhe rompia os dedos e viu que era tinta permanente.


E assim formou letras, desenhou palavras e não parou de escrever até se lhe ferirem as mãos. E continuou a esculpir cada imagem, cada gesto, cada detalhe, cada momento vivido naquela passagem desconhecida, mas tão soberbamente amena.


O tempo passou e ela ficou sentada no mesmo lugar, junto ao mesmo piano e à plateia de cadeiras vazias, perto dos livros esquecidos e envolvida em páginas sem enredo, onde palavras vãs se misturavam com imagens por decifrar.


E estava só, os vultos não se viam, os véus não existiam, não havia rostos nem mãos. Mas as pautas de música permaneciam sobre as teclas do piano, continuavam sem notas escritas, e os acordes voltaram a tocar soando de uma forma mágica.


Sentiu-se levitar e transportou-se para a esfera aberta que amparava o tecto rasgado do salão e o adornava, entrou na alma mais perdida que encontrou e vagueou até alcançar um ventre em gestação.


Lembra-se que acordou amarrada a um cordão umbilical que acabou por ser quebrado. Lembra-se que chorou como choram os que nascem e, até ao despertar das lágrimas dos que ainda nada sentem, entrou num mundo desigual. Tentou recordar a outra vida, um passado intransponível que ainda lhe pertencia, mas não conseguiu. As imagens surgiam-lhe turvas e obscuras, tudo era vago e sombrio.


Afinal, quem fora ela para além de nada ou de ninguém? Cinza, restos de outras almas, fragmentos de uma vida que ninguém viu acontecer?


Nunca chegou a saber se esteve lá ou se existiu, naquele lugar sinistro e misterioso, apenas lhe veio à memória uma passagem ténue e enigmática. O que mais lhe transparecia era o levitar, aquele que sentiu, como num cenário de feitiços onde o corpo se sustém no espaço e nunca cai.


E tudo não passou de uma página em branco pincelada de negro aveludado, onde marcou as palavras e as imagens que compôs e se apagaram num tempo que nunca chegou a existir, num lugar sem morada assinalada.



 


(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

02 fevereiro, 2011

I'm happy today

Hoje, disseste que me amavas.


Peguei no carro, percorri as ruas da cidade que me viu nascer numa condução serena, parei na avenida com cheiro a lilases e absorvi lentamente o seu perfume. Sentei-me num banco de jardim à beira rio, contemplei os patos que nadavam ao sabor das águas cintilantes pelos raios de um sol matinal e sorri com o encanto do momento.


Eu queria tecer palavras, as mais belas, mas não consegui soltar o meu imaginário que vagueou, frágil, pelo campo de flores por desabrochar. Os castanheiros balançaram nos passeios ao ver-me pular de alegria, acho que sentiram o pulsar desordenado dos meus sentidos e o bater frenético do meu coração.


Descalcei-me, mergulhei os pés na espuma fria que corria nos degraus junto à pérgula, baloicei nas sensações do que te sinto e refresquei a alma, enquanto nenúfares brancos e encarnados dançavam no riacho à mercê da corrente.


Depois, disse-te que esperava por ti.

29 janeiro, 2011

Palavras para uma imagem - Há sempre uma vela que se apaga


 


Ainda hoje gosto de mergulhar nos lençóis onde, naquele fim de tarde, os nossos corpos se enlaçaram. Ainda sinto as tuas mãos percorrerem o meu corpo na mais perfeita carícia, sinto que estás aqui a tocar nos meus cabelos. O teu olhar deixa-me assim, disseste. Perdi-me no murmúrio da tua voz, entreguei o meu corpo ao teu, envolvi-me em ti.


A noite veio de mansinho, lá fora a chuva caía sem perdão, escutámos o seu chorar que escorria pela janela do quarto e nos pedia para entrar. E o vento ria sem parar, soltava gargalhadas que vinham de norte e sul, nem as nuvens o conseguiram deter.


Pediste-me para acender uma vela com aroma a sândalo e âmbar. Eu disse-te que o amarelo é a cor dos sorrisos e peguei numa para atear as nossas almas. O fósforo dançava na minha mão trémula enquanto acendia uma das tantas velas que poisei no chão de faia.


Os lençóis de cetim cheiravam a baunilha, os nossos corpos renderam-se à essência doce que pairava dentro das quatro paredes que iam aquecendo devagar a cada sentido nosso que se revelava, por entre a suavidade da luz que nos rodeava.


O cenário era de um romance singular, sobre a cama bailavam pétalas de rosa, soltámos o que de mais místico havia em nós e na nossa entrega pedimos à vida que acabasse ali, onde mora o princípio do fim.


Tenho medo, disseste. Medo que o mundo pare de girar, medo de nunca mais te ver, de não voltar a tocar a tua pele.
Não tenhas, respondi e segurei o teu rosto com ternura nas minhas duas mãos. Um dia a minha mãe escreveu uma história que se chamava ‘juntos na morte’. Que importa a vida, se não podemos dar as mãos lá fora?


Olhámos para o céu através da vidraça, não havia lua e as estrelas tinham-se escondido nas nuvens mas vimos velas, muitas velas. Estavam por todo o lado, espalhadas pela estrada, nos passeios, nas ruas e nas vielas. Eram todas iguais, tingidas da cor que seca o sol.


Nem a chuva, nem o vento conseguiram apagar o seu ardor, a cidade ficou pincelada de amarelo dourado e as pessoas pararam no esplendor do momento. E tu acabaste por partir, em busca do calor dos atalhos.


Caiu serena a madrugada, senti-te do outro lado da cidade. Tocaram três badaladas no relógio da torre da igreja, acendi um cigarro na chama de uma vela esquecida e escrevi para ti. O vento deixou de soprar nas suas gargalhadas, um cão ladrou ao longe e uma cigarra chorou comigo pelo adeus que não me disseste. O meu imaginário vagueou pela varanda com vista sobre a cidade que dormia tranquila pelo fulgor das velas a arder.


Voltei para o vazio dos lençóis, ficaram com o teu cheiro marcado. Elevei-me num sono encantado onde inventei a fantasia que me embalou num cenário de cetim. Estás aqui, disse a mim mesma como que a chamar por ti, e uma concha formou-se no centro de uma cama por fazer. Fomos nós.
A chuva voltou a chorar em agonia, as suas lágrimas apagaram as velas, quase todas, apenas uma permaneceu resplandecente. Seria presságio de ti, de mim ou seria apenas um sinal teu?


Regressei à varanda envolvida num lençol, pétalas de rosa iam caindo por entre as velas espalhadas pelo chão. O aroma a sândalo e âmbar ficou marcado no quarto onde estivemos, penetrado em tudo o que tocámos. A vista sobre a cidade encandeou-me o rosto, o meu corpo oscilou pela perda do que não sei.


Adormeci na essência do que ficou de ti, mas estremeci ao acordar com a alvorada. Saí para a rua num susto e parei junto a uma vela ainda a arder, a única, de todas as que se formaram num manto cintilante que enfeitou os caminhos durante a noite. Ouvi vozes e aproximei-me das gentes que gemiam de aflição. Disseram-me que tinhas morrido.


Corri desnorteada num lamento até onde a chuva e o vento me levaram, não sei a que lugar, parei e gritei:
Há um Outono a morar na minha alma. Reacendam a vela que se extinguiu, para que volte a Primavera.



 


(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

25 janeiro, 2011

P.S. I miss you

 


Às vezes, lembro-me de ti. Minto. Não só às vezes, mas muitas vezes, tantas, quase sempre.


Lembro, se me lembro. Passavas todas as noites à porta de casa da minha mãe, embrulhado num sobretudo preto que contrastava com a palidez da tua pele e fazia sobressair uns lábios sorridentes do teu rosto meio coberto por uns caracóis negros.


Conhecemo-nos numa daquelas noites frias de Outono, no lugar onde costumávamos ir beber café e lá estavas tu, vestido de preto no teu caminhar sereno como serena era a tua figura. Cruzámo-nos por entre os passos que íamos dando lentamente, o nosso olhar tocou-se com embaraço e sorrimos numa ingenuidade aparente, revelando os nossos nomes um ao outro.


Víamo-nos sempre, casualmente, no mesmo sítio e nas mesmas noites de fim de semana, por volta da mesma hora. Sem encontro marcado, lá estava eu no bar e tu aparecias alegre, sempre alegre, pelo meio das gentes que riam e conversavam descontraidamente.


E surgia o abraço. Era inevitável. Sempre o abraço, o mesmo de todas as vezes, longo e apertado por entre beijos na testa, muitos beijos. Nos teus braços, sentia-me tão pequenina e confortada.


Lembro-me de nos perdermos nas palavras até ao amanhecer, sentados lado a lado nas escadas do beco junto à entrada do bar, unidos por gestos de cumplicidade. Partilhámos momentos, sentimentos, falámos das nossas perdas e das nossas conquistas, rimos e chorámos juntos.


Uma noite, levaste-me a casa da tua mãe. Era tarde, fomos pelo quintal, abriste a porta das traseiras e quando entrei fechei os olhos com força, absorvi o aroma que rastejava pelos móveis e pelas paredes e exclamei num sorriso: cheira à casa da minha mãe.


Sentados na tua sala, frente a frente, debatemos o mistério da vida e a nossa crença no destino. Entrámos no mundo das adivinhas, discutimos  existências anteriores, contaste-me as experiências que viveste com o teu baralho de tarô, aquele que um dia acabaste por me oferecer. Tenho-o guardado no baú das minhas melhores memórias, permanece dentro da caixinha de cartão reciclado. Sabes? A caixinha tem o mesmo cheiro daquela noite em que a trouxeste escondida na mão, atrás das costas, para me dares como prenda de aniversário. E o bilhete, o que me deixaste, permanece de lacre aberto sobre as cartas que um dia foram tuas.


Lembras-te da história dos cigarros no teu cinzeiro e do segredo em seu redor? Nunca poderia contar aqui essa história, é tão nossa que ninguém pode saber, ninguém pode escutar.


Quase nos perdemos na palavra amar mas venceu a amizade que conseguimos solidificar e, como me disseste um dia, nunca poderíamos ser amantes porque o nosso encontro aconteceu em época incerta. Se tivesse sido um pouco antes ou um tanto depois, teríamos ficado juntos para sempre. Acredito que sim, se acredito.


Depois da nossa despedida na festa do vale, em que assistimos ao nascer do sol e dançámos até o sono chegar, não voltámos a ver-nos até hoje. Partiste para a cidade do amor e nunca mais voltaste. Tornámos a falar após alguns anos, depois de termos perdido o contacto por infortúnio do destino.


Mas as nossas conversas à distancia ajudaram-nos a recuperar os anos que ficaram para trás. Esquecemo-nos dos relógios, chegámos a falar horas a fio, mais pareciam confissões de dois adolescentes que mantêm a cumplicidade, extrema e inabalável. Houve alturas em que parecíamos dois verdadeiros poetas, as palavras saíam-nos em verso e as declarações de saudade transformavam-se num autêntico poema. As tuas confissões alojaram-se na minha alma e ergueram-se num eco que, de quando em vez, vai e vem: se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo.
Encontramo-nos na praia?, dizíamos a cada despedida como se o destino nos levasse a outra vida e o nosso adormecer fosse um ponto de partida para um encontro apenas meu e teu. Como tu próprio pediste, entre a areia e o mar.


 


 

20 janeiro, 2011

'Não é o sol que faz a sombra'


 


Silêncio. Quero silêncio, diz a minha mente ensurdecida pelo sopro arrogante do vento que entra, num tumulto, pelas frestas da minha casa quase vazia e sem cor.


Mas o meu silêncio é astuto e intocável, envolve a minha solidão como uma bruma, veste-me de cinza e purifica de uma forma enganadora o meu corpo enegrecido pelas multidões.


E eu quero viver depressa, mas o meu silêncio assusta-me. É oco como o sossego que me acolhe, melancólico como a inércia dos meus gestos, funesto como os meus fantasmas mais recônditos, vago como a minha apatia pelos amanheceres no asfalto.


Eu quero silêncio, sim, mas tenho medo. Medo da sombra deste silêncio sedutor que atraiçoa as horas das minhas noites, ganha voz a cada segundo dos meus minutos e me segreda num beijo que tento evitar:


- Escreve sempre que o teu coração palpitar e a tua alma ditar, mas em silêncio. Tacteia as palavras no papel e deixa-te ficar aqui, onde a beleza do nada te sustém. Porque a sombra de que falas sou eu e chamam-me cegueira. A cegueira que se alimenta dos teus passos que dançam na procura da música que deixou simplesmente de tocar. É esta a melodia do silêncio, a do teu silêncio.


E o outro eu, o que não fala mas ouve e vê, geme num sufoco que ecoa pela casa e a sombra cega pára, atenta, ao meu lamento que se solta:


- Mas eu quero o silêncio das areias. É brando e cristalino, salpica-me a pele e a alma com a frescura das marés nos fins de tarde.


 


 


(Texto construído para a Fábrica de Histórias à volta do provérbio: Não é o sol que faz a sombra)


 


imagem retirada de: http://fotos.sapo.pt/

09 janeiro, 2011

Palavras para uma imagem - O velho do mar


 


Meu querido velho do mar,



No último fim de tarde sombrio de Setembro, quando morreste, saí de casa como sempre fiz todos os dias da minha vida mas, daquela vez, de corpo inerte. Carregava no rosto a marca dos anos e a angústia de uma espera incessante de ti, tu, que já não podias voltar.


Sentei-me junto ao cais da praia que sempre me ofereceu as melhores recordações da nossa juventude inacabada, que se perdeu nos tempos pelo amadurecer das idades.


O nevoeiro aproximou-se denso e frio como sempre fora e tanto me confortava a cada entrada das noites. A meu lado sentou-se a saudade, minha eterna confidente do passado, que trazia consigo aquela dor nostálgica que me acompanhou ao longo das décadas e se transformou, no momento em que partiste, numa aflição assustadora por nunca mais te poder ver.


Sabes? Era àquele lugar que eu ia sempre à mesma hora e onde me despedi de ti no mais triste entardecer a que se assistiu, disfarçado pela beleza da paisagem, ao lançar às águas frias do teu mar a última carta de amor que me deixaste. Nela ficaram escritas as tuas palavras derradeiras, agarradas à ausência tão própria de um homem dos oceanos, e onde dizias que não podias ser meu porque tu eras do mar e ele pertencia-te a ti, preenchia os teus minutos e mais nada nem ninguém poderia ocupar o seu lugar.


Lembro-me de ouvir falar de ti quando já não estavas, meu velho do mar. Chamavam-te o aventureiro solitário das marés, do tanto que desafiaste tempestades ao comando do navio que foi só teu. Era muito mais do que isso, era o teu lar, o teu recanto, a tua vida. Foi a tua verdadeira morada, tão e apenas tua. A pedra preciosa que amavas sem qualquer condição.


Recordo-me dos pescadores da aldeia contarem as tuas histórias sem se cansarem, ao redor de uma mesa da taberna da areia. Eram histórias plenas de aventura, falavam dos teus regressos de cada viagem, quando atracavas no porto e os abraçavas com uma força extrema pela alegria de voltar. E eu ouvia os contos que eram só teus, sabia-os de cor porque estava sempre lá, escondida entre os rochedos, à espera de ver-te chegar.


Eras um guerreiro, sobrevivias a qualquer intempérie e apesar de seres um homem marcado pelas estações, pelo sol ardente dos verões e o frio cortante dos invernos, eras dono de uma alma nobre, fiel ao teu mar e nada te detinha.


Sei que deixaste escritos pedaços das viagens em que embarcaste, descrições comoventes das tuas paragens por lugares distantes e onde ficaram retratados os teus sorrisos de cada vez que ancoravas num país qualquer. Foste guardando de uma forma memorável a força das amizades que construíste em terra firme e os adeus marcados pelo soltar das amarras.


Contam que eras solitário pela perda de um grande amor e pela lealdade que juraras ao teu navio, companheiro dos teus dias e afago das tuas noites. Seria eu o grande amor que deixaste para trás para te dedicares ao encanto e assombro dos oceanos? Sinto que sim, ou que talvez.


Nunca ninguém soube o teu verdadeiro nome, nunca o revelaste, e naquela noite em que uma águia sobrevoou circundante as dunas para lá da aldeia da praia, o teu navio naufragou na mudança das marés e o teu corpo nunca foi encontrado. Dizem que ficou junto aos mais belos corais, perto de um tesouro sem dono, no fundo do mar.


E eu quis soltar as amarras que me prenderam ao cais que te pertenceu e que ainda hoje é teu. E desejei adormecer sobre o navio onde moraste, lá, nas águas que navegaste por entre as brumas e em que, tantas vezes, mergulhaste na tentativa de respirar o impossível e onde agora descansas.


Os fins de tarde ficaram para sempre, tardes submersas onde jaz o teu corpo, pelas âncoras que agarraste e levaste contigo bem presas à tua alma de aventureiro solitário das marés.


Tua até sempre


 


M.
(a velha do cais)



 


(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)


 


imagem cedida para a Fábrica de Histórias por: Jerónimo Afonso

03 janeiro, 2011

Um dia, quando...

 Um dia, quando o céu chorar e os anjos caírem eu quero estar lá, bem perto do infinito, para apanhar uma estrela e guardá-la junto à chave que encerrou a minha história.

Um dia, quando se calarem todas as vozes do mundo eu quero estar lá, nos lugares que foram meus, para gritar cada palavra que inventei para o meu último capítulo.

Um dia, quando pararem todos os relógios e o tempo ficar suspenso eu quero estar lá, no vazio das épocas, para suavizar o peso dos anos apressados e a contagem dos dias mortos.

Um dia, quando se aproximarem do fim todas as coisas eu quero estar lá, no princípio do mistério de tudo, onde se erguem as derrotas e das ruínas se elevam vitórias.

Um dia, quando a vida se fundir no silêncio e a morte se cruzar com o sonho eu quero estar lá, no meio das sombras que vagueiam, para submergir nas utopias.

Um dia, quando os lobos uivarem para lá das cidades e um corvo vier, de onde moram os poetas já sem vida, com uma carta escondida na asa assinada por mim, significa que morri.

E nesse dia, quando eu morrer, não quero lágrimas nem luto.

Quero que as almas que ficarem do que restou da glória me lancem em mar alto num verso branco, lá, onde segredo nenhum é desvendado e tudo se transforma em poesia.

E ao longe, bem distante, quero escutar o cântico de um bando de gaivotas a sobrevoar as dunas, no mais sublime sinal de liberdade.