Lembro-me, lembro-me, oh se me lembro. Saudosamente.
As glicínias enfeitavam a pérgula e coloriam as pedras da calçada no seu reflexo com o sol, as árvores cheiravam a arco-íris e a avenida transformava-se num jardim de aromas doces.
Eu ia buscar a minha bicicleta encarnada e andava em redor dos canteiros onde as flores desabrochavam a sorrir. Nas bermas do rio os namoros despertavam, eu sentava-me na ponte debruçada sobre as águas e, descalça, sentia o refrescar das manhãs pelo chapinhar dos patos. Depois, rebolava pelo relvado onde as plantas trepadeiras se beijavam.
Voltava para casa numa correria, dançava pelos quintais perfumados pela flor de laranjeira e subia às árvores a cantar. Apanhava laranjas e tangerinas, pulava pelos telhados e brincava com os gatos que passavam a vadiar.
Saltava à corda, jogava à macaca e, nos fins de tarde, ia para o sótão construir castelos de lego. À noitinha, inventava sonhos no cintilar das estrelas e escrevinhava pequenos contos de príncipes e princesas sob o roseiral a florir.
E lembro-me, lembro-me nostalgicamente. Da minha mãe me embalar no seu colo a cada luar, acariciar os meus cabelos e contar-me histórias de encantar para eu adormecer. Era tudo tão suave.
Em tempos de feira de Março, levava-me a andar de carrossel com as minhas irmãs e, juntas, comíamos algodão doce por entre as gentes que passeavam numa alegria contagiante. Lembro-me dos rostos, do brilho nos olhares e do rasgo dos sorrisos.
Lembro-me, oh se me lembro de, num dia primaveril, lhe dizer:
- Mãe, não quero crescer.
(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)
Que bela descrição...gostei muito.
ResponderEliminarNunca queremos crescer, mas há uma criança dentro de nós que nunca cresce.
beijos infantis ;)
Sempre bem... muito bem aliás!!
ResponderEliminarJá há uns tempos que andavas a dever um texto à casa :D
Só não consigo idealizar uma bicicleta "encarnada" ou arranjas uma bicicleta vermelha ou "bremelha" :D :D ou sei lá, pronto muda-lhe a cor para uma coisa gira, tipo ... azul :D
Gosto muito de ler o que escreves
Abraço grande
Comovem-me sempre e especialmente as tuas palavras. Hoje, talvez um pouco mais porque tinha muitas saudades deste aconchego :)
ResponderEliminarSenti cada momento, cada peripécia como sendo também parte das minhas memórias primaveris :)
Beijo enorme, querida Leonor...
Olá, T.
ResponderEliminarQue nunca morra a criança que há em nós..
Obrigada por passares. Fui espreitar o teu blog há algum tempo atrás e gostei bastante mas, na altura, não dava para comentar. Voltarei.
Beijos infantis pra ti também :)
E eu que não gosto de ausências, muito menos prolongadas
ResponderEliminarOlha, pensei numa bicicleta cor de rosa mas como a minha era mesmo encarnada (ou 'bremelha') e branca.. tás a ver, né?
Obrigada..
Abraço enorme :)
Querida Natacha,
ResponderEliminarSei que tenho andado ausente e estou em falta, mas sabes como é.. não vale a pena justificar, não achas?
As tuas palavras são sempre doces.. obrigada :)
Um beijinho grande, grande
Nada de "em falta"! nem justificações são necessárias, nunca :)
ResponderEliminarNo outro dia passei por uma frase excelente em que se lia que "saudade é o preço a pagar por se viverem momentos inesquecíveis" :)
Obrigada por todos eles, minha querida e que te ausentes, porquanto voltes sempre, sim?
Gosto de ti!
beijinhos
Obrigada, querida amiga..
ResponderEliminarE gostei da frase.. bem real.
Também gosto de ti :)
Beijinho grande
Uma pequena maravilha. Saudades!!
ResponderEliminarBjinhos