02 abril, 2012

Palavras para uma imagem - Salão de Baile

  


Moulin de la Galette (1889), Toulouse-Lautrec


 


Os sonhos morreram.


Como se o mundo acabasse no instante, como se o céu caísse sobre os campos e as nuvens flutuassem nos rios. Como se o sol empalidecesse e chorasse, queimando as árvores que crescem e as flores que nascem, secando as águas que correm devagar.


Como se parassem os relógios, terminassem as tardes e as noites surgissem nas manhãs. Como se já não houvesse lua e o chão mergulhasse numa sombra.


Como morrem as palavras. Como se as letras fugissem, desordenadas, dos livros em branco pelas histórias esquecidas. Como se os olhos já não lessem e as mãos já não tocassem nas páginas que ficaram.


Como se os bosques encantados perdessem a magia e as florestas se despissem pelo cessar da vida. Como se os lobos deixassem de uivar e os pássaros ficassem sem asas para voar.


O meu sonho morreu.


Como se os anjos despertassem sobre a terra, como se o luto mudasse de cor e os homens se vestissem de branco. Como se o destino fosse interrompido e os fantasmas dominassem o universo.


Resta-me dançar, de alma pequena mas de corpo inteiro. Como se dançasse num salão de baile, onde as gentes se escondem num atropelo para escapar aos dias mortos. Sucumbem, por entre conversas de silêncio inacabadas e passos de dança frenéticos. E bailam, bailam até ao fim das horas, de olhar vago e sem sorrisos porque a vida fugiu com os sonhos apagados.


Com o meu sonho morreu a minha alma, mas também eu dançarei sofregamente até que o meu corpo tombe e adormeça.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

12 comentários:

  1. Tão bonito Ametista...
    Será que os sonhos morrem mesmo? Eu que sempre quis acreditar que eram imortais... pelo menos os sonhos, ainda que só sonhos, que vivam eternamente.
    Um beijinho grande

    ResponderEliminar
  2. Pois, closet.. os sonhos deverão ser imortais, é certo, mas se não se concretizarem apaga-se uma parte de nós.. não achas? Se bem que sonhamos sempre, mesmo com o impossível.. se acabar o sonho, a vida perde o sentido ou parte dele :(

    Um beijinho enorme

    ResponderEliminar
  3. Por vezes acho que o sonho é o que sobra de uma vida medíocre, como um braço de realidade que não se extingue, quanto muito, na sua forma volátil, se transforma, readapta, e volta a propagar em cada poro da imaginação.

    Abraço

    ResponderEliminar
  4. Lindo, como sempre. Triste mas bonito. Não deixemos os sonhos morrer, nunca, minha querida ;)

    Beijo enorme

    ResponderEliminar
  5. artesaoocioso05/04/12, 19:15

    Os sonhos morrem todos os dias para renascerem novos sonhos: é assim que vamos vivendo até ao momento em que tudo para, sonhos incluidos.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  6. Adorei o teu pensamento..
    Já pensaste em criar um blog de escrita?
    Obrigada :)

    Um grande abraço

    ResponderEliminar
  7. Natacha, amiga, prometo que um dia escreverei sobre alegrias (será?)
    Os sonhos morrem na prática.. dentro de nós, estão bem vivos.. ou morreríamos com eles :(

    Um grande beijinho

    ResponderEliminar
  8. Olá, amigo João.
    Que não parem os sonhos, já que tanta coisa vai ficando para trás..
    Espero que se encontre bem de saúde :)

    Um abraço

    ResponderEliminar
  9. Um blog de escrita... meu!!?!
    não me parece, eu sou mais número e frases curtas :D
    noutros tempos já tentei escrever umas coisas, mas resignado me confesso, sem algum sucesso!!!
    De qualquer forma um muito obrigado, é sempre bom quando o que pensamos faz eco nos outros.
    Beijinho

    ResponderEliminar
  10. Nada a agradecer..
    Sabes que também há blogs com fases curtas? Aliás, fazemos de um blog o que quisermos, basta criarmos :)

    Um beijinho

    ResponderEliminar
  11. Lindo demais. Escrito como só tu sabes fazer. Amei!
    Bjinhos

    ResponderEliminar
  12. Bigada, manuska :)

    Bijoux

    ResponderEliminar

(deixa uma palavra para eu arrecadar no sótão)