17 dezembro, 2012

Sem saúde é que não #2

 


Consegui ultrapassar uma fase que tanto temia.


Desesperei, chorei, imaginei o pior, entrei em pânico mas consegui. Uma etapa difícil, mas superada.


Resta-me recuperar totalmente.


Nunca desejei tanto, como agora, que o tempo passasse depressa.


 


Obrigada a quem me apoiou incondicionalmente e a quem me deixou palavras encorajadoras.


 


 

12 novembro, 2012

Sem saúde é que não

 


Um acontecimento curioso.


Não fumo há dezoito dias e sinto uma calmaria estranha. Se bem que nas últimas semanas a minha saúde anda um tanto ou quanto debilitada e eu preciso mesmo de respirar, para contrariar o diabo que anda atrás de mim.


Em contrapartida, estou apavorada com o facto de ir fazer uma biopsia daqui a uns dias e programar a cirurgia para o mais breve possível. No entanto, aparento uma serenidade invulgar, acompanhada de uma tristeza singular que começa a ser notória e eu não queria.


Que fazer? Acreditar que vai correr tudo bem, apesar do pessimismo e o medo estarem a tomar conta de mim.


E adianta alguma coisa este pavor? Não.


 


Queria adormecer hoje e acordar em dois mil e treze com o problema resolvido.


 


 


 

10 novembro, 2012

5º aniversário do blog

ametistaleonor


 


Há cinco anos criei este blog e, quando fez dois anos, escrevi um texto que agora vos deixo porque o sentimento é o mesmo senão maior.


Não estou aqui para dar os parabéns a mim mesma, mas para agradecer as amizades construídas neste mundo blogosférico. Estar aqui tem sido deveras gratificante.


Foi muito mais do que criar duzentos posts e ter mais de dois mil comentários. Foi o conhecer pessoas novas que, sem a existência de presença física, se envolveram num sentimento grandioso.


No início, tudo era novo e desconhecido. Não havia visitas, não se conhecia ninguém mas ia-se espreitando um ou outro espaço e, com o passar do tempo, foram chegando autores de mundos fantásticos. Entrámos nos cantinhos uns dos outros, devagarinho e sem abusar, fomo-nos conhecendo através das palavras e criando laços de ternura invulgares. Hoje podemos dizer que há aqueles que fazem já parte da nossa vida.


É com muita honra que escrevo no sapo, aquele batráquio que nos deixa entrar e nos dá liberdade para escrever, criar. Por diversas vezes mudei o rosto ao blog, alterei os templates, as cores, os componentes, os títulos e as descrições. Dei um nome a mim própria, alterei o pseudónimo uma ou outra vez e, por último, mudei de endereço.


Neste nosso mundo tenho conhecido blogs indescritíveis, formas de escrita envolventes e outros tipos de arte simplesmente fenomenais. Aqui cruzam-se emoções, misturam-se lágrimas, risos e sorrisos. Partilham-se alegrias, tristezas, abrem-se corações e unem-se almas. Por aqui também existem verdadeiros construtores de sonhos, através dos quais podemos escrever até onde a nossa imaginação nos levar. Aqui publicam-se livros, concretizam-se sonhos.


Um dia este cantinho chamou-se Aqui Sou Feliz. Acreditem que o fui e hoje posso dizer que continuo a sê-lo, apesar dos períodos de ausência.


 


Obrigada por me acompanharem.


 


 

23 outubro, 2012

Esta noite

 


Está serena a madrugada.


O vento não sopra e cheira a terra molhada. O céu não chora agora sobre as pedras da calçada. As gotas de chuva deslizam pelas folhas que vão caindo das árvores. Morrem no chão pelo Outono que chegou. E eu choro pelo calor que já não sinto, pela lua que não vejo.


A cidade está pintada em tons de cinza, mas o meu sótão permanece cor de rosa e as lágrimas secam.


E o meu coração..? Rubro, sempre rubro.


 


 

22 outubro, 2012

A proprósito dos seguidores do blog

 


Alguém consegue explicar-me e me ajuda a perceber a razão de alguém nos adicionar, se não tem nada para partilhar?


Eis um exemplo, neste caso referente a mim, porque o meu blog é o único que esta pessoa segue:


 


sobumceudeblues.blogs.sapo.pt


 


No mínimo estranho. Pelo menos do meu ponto de vista.


 


O problema que se põe é que não conseguimos eliminar seguidores sem autorização dos mesmos. E eu não consigo comunicar com a pessoa, porque o seu mail não consta do perfil público.


 


 

14 outubro, 2012

O meu sótão é cor de rosa...

 


... como são todos os meus sonhos.


Arrumei a ametista no fundo do baú guardado num canto da antiga sala de costura. Encerrei um capítulo de memórias vãs na urgência de esquecer.


Fui em busca do meu nome e encontrei-o nas asas que perdi. Estavam presas aos ramos da árvore que conforta o meu velho sótão, outrora cinzento.


Pincelei as paredes de cor de rosa, o tecto, a janela, as portas, os móveis antigos. Inventei o céu da mesma cor em seu redor e voltei a voar.


 


O meu sótão é cor de rosa. Como são as minhas quimeras.


 


 

09 outubro, 2012

Leonard Cohen

 


Fui ao concerto de Leonard Cohen no Pavilhão Atlântico no passado dia 7 de Outubro.


Confesso que estava apreensiva. Já me tinham dito que os concertos deste grande senhor eram fabulosos e de uma classe extrema.


Efectivamente imperou a delicadeza e uma sensibilidade inigualáveis.


Entrei agitada com a curiosidade que se despertou em mim. Saí de alma serena.


 



 


Sublime.


 


 

30 agosto, 2012

Palavras que se prendem

 


Não sei desprender as palavras. Não sei como fazê-las voar.


A minha imaginação perde-se na turbulência dos sentidos e as asas caem.


Quero escrever, escrever sofregamente, ondular as letras e deixá-las poisar nas páginas do meu livro branco, gastas pelo tempo.


Não consigo preencher este vazio. Preciso mergulhar nos rios da memória e emergir com versos cristalinos nas mãos, no corpo e na alma.


Não sei viver sem as histórias que inventei, sem os lugares misteriosos que desenhei, sem as personagens que criei e a quem dei vida.


Preciso de bosques e florestas, de cabanas e castelos, de fadas e feiticeiros. Preciso de árvores e flores campestres, de esconderijos e labirintos, de anjos e pássaros.


Preciso do silêncio que a doçura da fantasia me transporta. Preciso de magia.


A praia está para lá da serra que olho a cada fim de tarde. Não oiço o murmúrio do mar nas madrugadas e a minha inspiração desvanece. Desmaia o brilho das estrelas, a lua não é de prata e o céu já não tem mil cores.


Escapa-se a caneta por entre os meus dedos e deixo de ver a linha do horizonte. Tremo na perda de um sol rubro que se põe.


Preciso de areia nos pés, de água salgada na pele e de ondas nos meus cabelos para libertar as palavras.


Fica uma concha pintada na baía onde cabem todos os segredos e nenhum desperta.


Há uma gaivota que geme e sussurra tempestade. Quero viajar no seu embalo, enroscar-me no seu colo com as letras que trago.


Mas morro no cais, como uma pedra da calçada que se solta com o tumulto do vento norte.


 


As palavras? Morrem comigo, bem presas à minha alma.


 


 

18 julho, 2012

Para sempre na lembrança

 


Lembro-me das avenidas e das vielas. Tinham cor. Lembro-me das casas, das ladeiras e escadarias. Tinham harmonia. Lembro-me do paredão com gentes a passear, alegres e saltitantes. Lembro-me das conversas de esplanada, dos sorrisos e gargalhadas. Lembro-me da areia beijar os passeios, das árvores plantadas à beira estrada pedirem para crescer.


Lembro-me do cheiro a peixe fresco, dos pescadores e das varinas nas manhãs, das crianças brincarem à beira mar. Lembro-me da roupa estendida nos varões, das janelas abertas de par em par e das varandas soalheiras em fins de tarde.


Lembro-me da neblina esconder a igreja do largo e da chuva quente regar os pés descalços. Lembro-me das toalhas esvoaçarem com o vento norte, dos cabelos se emaranharem nos rostos bronzeados.


Lembro-me dos banhos de mar ao por de sol. Da nudez sem vergonhas, da espontaneidade e genuinidade de quem ficava para assistir ao cair da noite. Não havia saudade e ninguém chorava, as lágrimas caíam nos rostos de quem ria sem parar. Lembro-me do brilho no olhar pelas cumplicidades e das confidências que se liam nos gestos mudos. Lembro-me das mãos que se davam, dos abraços que se colhiam, da ausência das palavras e dos rasgos dos sorrisos. Eram orações perpétuas.


Lembro-me da animação dos jantares, da descontração à hora do café e da camaradagem plena pelas noites dentro. Lembro-me da música purple rain e de extasiar ao ouvi-la por entre a multidão a cantar.


Lembro-me do ruído do mar nas madrugadas, chorava a cantar até ao amanhecer. Eu adormecia no seu pranto sob o céu estrelado, à entrada de uma tenda ali tão perto.


O silêncio. Lembro-me do silêncio. E do movimento. Das danças no areal ao som de rumba flamenca, da maresia a salpicar-me os lábios e da frescura da areia no meu corpo. Lembro-me da lua abraçar as ondas e de tudo ficar azul.


Lembro-me dos brindes à amizade. Eram feitos em qualquer lugar, nas tascas, nas tendas, nas dunas. As dunas. Lembro-me de corrermos ao subi-las e de descê-las às cambalhotas vezes sem conta sem cansaço. Lembro-me da sensação de liberdade quase etérea que a brandura da areia fina nos deixava na pele. Lembro-me das aventuras, lembro-me de me esquecer do resto do mundo.


Lembro-me das fotografias que ficaram e que guardo docemente em álbuns de recordações. São tantos os lugares, tão intensos os momentos. Lembro-me de todos eles.


Lembro-me mas, porém, receio esquecer-me. Receio que as imagens se tornem baças e já não veja beleza nos dias. Que os veja empalidecer, que os sinta esvaziar. Tenho medo. Medo que tudo acabe. Os sorrisos, as gargalhadas, a suavidade dos passos na calçada, as danças na praia, as cores.


E eu me confesso à vida, como escrevi um dia. À vida, que passa apressada numa correria incessante:


'Ainda hoje me declaro a ti como se fosse morrer amanhã, confesso-me nestas folhas de papel que vou amarrotando a cada linha que encho de letras'.


Não quero amarrotar as folhas de papel. Quero ir em busca das letras, arrancar a narrativa de cada instante e viajar nas palavras.


Não consigo separar-me das memórias. Quero cantá-las a dançar na areia da praia onde fui feliz.


 


 

12 junho, 2012

Consegues ouvir-me? Já não espero por ti.

 


Consegues ouvir-me? Estou aqui, à tua espera, como um pássaro que baloiça na ânsia de um canto de voos leves.


Consegues ver-me? Estou aqui, no meio do tempo, à espera que o passar dos anos me faça chegar até ti.


Consegues sentir-me? Estou em todos os lugares, procuro-te onde não estás e danço no esconderijo onde guardámos os nossos sentidos.


Abro a janela do meu recanto de par em par, acendo um cigarro e contemplo a noite num silêncio.


O balançar das folhas nas árvores faz-me acreditar no que de tão imensamente belo as estrelas têm para me contar. É nelas que deixo o sinal da minha espera, segredo-lhes memórias, descrevo histórias, pincelo sonhos.


Acendo uma vela, a minha voz perde-se num eco mudo e eu choro o que não vivi.


Quero esquecer-te. Quero esquecer-te no cair das chuvas.


Aprisionas-me as palavras e eu?, deixo-as cair no abismo dos meses seguintes. Tanto que tenho para dizer-te, meu amor desamparado. São doces, as palavras, mas sufocam na angústia que carrego antes da minha luta pela liberdade. E eu esqueço-as, fogem-me da memória, como perco a lembrança de ti noutras estações.


Sim, quero esquecer-te. No regresso dos ventos e na revolta das marés.


Quero arrancar-te da minha pele, expulsar-te da minha alma com a força dos meus gritos que se soltam. E, ao lembrar-te, avisto um lugar em ruínas sem morada assinalada, sombrio e sem rumo, como os Outonos que vivi com a tua ausência. 


E esqueço-te.


Afasto de mim o teu fantasma e largo-te na estrada. É fria e cheia de nada, como a que percorri nos Invernos em que te amei. Lembras-te?


Pois, mas esqueço-te finalmente. Abandono-me de ti e, na partida, levo comigo a serenidade das Primaveras e o calor dos Verões que trago no corpo.


Estou de alma plena, vazia de ti, neste doce amanhecer de estrelas cadentes.


E já não espero por ti.


 


 

08 maio, 2012

Platónico

 



 


Gosto de ti com uma intensidade estonteante.


E na impossibilidade de viver-te na imensurável arte de amar, perco-me na imensidão desta utopia que me envolve e desespera.


Mas continuo a amar-te. Fantasiosamente, arrebatadoramente.


 


 


 


imagem retirada de: google imagens

30 abril, 2012

Palavras para uma imagem - A torre de babel


A Torre de Babel (1563), Pieter Bruegel


 

Um dia, quero morrer contigo.


Quando subires aos céus e chegares às estrelas, perto do sol e da lua, quero estar a teu lado para, finalmente, renascer.


Hoje a minha alma jaz no velho castelo assombrado, outrora nosso, o meu corpo vagueia pelas ombreiras das portas. As janelas batem nos parapeitos com o vento que sopra voraz, das prateleiras empoeiradas caem os livros antigos que lemos, são iguais às nossas vidas. Há folhas que se soltam do diário da nossa história, espalham-se pelo chão que range a cada passo que dou, esvoaçam por entre as vidraças quebradas pelas correrias do tempo. São como as horas dos dias que nos pertenceram, perderam-se num momento intemporal.


E eu abandono-me. Abandono-me silenciosamente, fujo do passado em direcção incerta, alcanço o barco onde navegámos sem rumo e que morre agora em terra firme depois da procura de um rio que corre turvo. Não consigo tocar nas suas águas, parecem névoas que evaporam ao passar.


Quis devorar o mundo, a terra e os céus. Quis aniquilar este amor, esta paixão (sei lá) e renascer das cinzas. Deixei de saber quem sou e onde pertenço, perdi-me na turbulência dos sentidos e fugi de ti, de todos e de mim. Somos tão diferentes.


O sonho ruiu, o meu, de mim, de ti, de nós. Desmoronou-se o nosso castelo, como se fosse de areia a desfazer-se na maré vaza. E eu, em que me transformei? Em sombra, apenas em sombra.


Refugiada numa torre em ruínas recuso-me respirar, suspiro como que pela última vez, sinto-me perto do que não cheguei a conquistar. Onde ficaste, alma que se perdeu pelas veredas em redor da torre, em atalhos obscuros sem saída? Até no final se repete o desencontro, o nosso, como dois espíritos desconhecidos que se cruzam nas brumas de um labirinto.


Apagam-se as luzes, desvanecem as cores, tudo se torna escuro e tu ficas fantasma do velho castelo. Eu, parto solitária pelas neblinas no instante em que te esqueço e caminho numa nuvem que desceu à terra.


Toco o céu, beijo uma estrela e abraço um anjo num murmúrio: 


- Por enquanto, estou viva. A torre caiu.


 


 


(História construída a partir de textos escritos anteriormente, agora alterados e adaptados para a Fábrica de Histórias)


23 abril, 2012

Histórias de Abril

Pedi ao rio das memórias que corresse a meus pés e me deixasse ficar junto às bermas, onde acabam as ausências. E tu vieste até mim numa doce manhã de Abril.


Trazias contigo retalhos de um lugar onde as palavras ficaram, embebidas nas lagoas do tempo, esquecidas pela demora das angústias.


Vieste, despido de encontros, transbordavas emoções do que não viveste e confessaste-te no silêncio dos atalhos.


Colheste uma flor do meu jardim e enfeitaste os meus cabelos, sentiste o aroma a Primavera, ajoelhaste diante de mim e disseste:


'Voltei para ter o teu perdão ou morreria no vazio dos desertos, sem letras e sem sentidos e onde tudo acaba em solidão'.


Acordei de um sonho em fins de Abril. Estava sentada na berma de um rio que corria a meus pés. Ao longe, um deserto envolvia um lago azul onde palavras repetidas dançavam nas areias.


 


  


(Texto escrito em 3 de Dezembro de 2011, adaptado para a Fábrica de Histórias)

02 abril, 2012

Palavras para uma imagem - Salão de Baile

  


Moulin de la Galette (1889), Toulouse-Lautrec


 


Os sonhos morreram.


Como se o mundo acabasse no instante, como se o céu caísse sobre os campos e as nuvens flutuassem nos rios. Como se o sol empalidecesse e chorasse, queimando as árvores que crescem e as flores que nascem, secando as águas que correm devagar.


Como se parassem os relógios, terminassem as tardes e as noites surgissem nas manhãs. Como se já não houvesse lua e o chão mergulhasse numa sombra.


Como morrem as palavras. Como se as letras fugissem, desordenadas, dos livros em branco pelas histórias esquecidas. Como se os olhos já não lessem e as mãos já não tocassem nas páginas que ficaram.


Como se os bosques encantados perdessem a magia e as florestas se despissem pelo cessar da vida. Como se os lobos deixassem de uivar e os pássaros ficassem sem asas para voar.


O meu sonho morreu.


Como se os anjos despertassem sobre a terra, como se o luto mudasse de cor e os homens se vestissem de branco. Como se o destino fosse interrompido e os fantasmas dominassem o universo.


Resta-me dançar, de alma pequena mas de corpo inteiro. Como se dançasse num salão de baile, onde as gentes se escondem num atropelo para escapar aos dias mortos. Sucumbem, por entre conversas de silêncio inacabadas e passos de dança frenéticos. E bailam, bailam até ao fim das horas, de olhar vago e sem sorrisos porque a vida fugiu com os sonhos apagados.


Com o meu sonho morreu a minha alma, mas também eu dançarei sofregamente até que o meu corpo tombe e adormeça.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

26 março, 2012

Memórias de Primavera

Lembro-me, lembro-me, oh se me lembro. Saudosamente.


As glicínias enfeitavam a pérgula e coloriam as pedras da calçada no seu reflexo com o sol, as árvores cheiravam a arco-íris e a avenida transformava-se num jardim de aromas doces.


Eu ia buscar a minha bicicleta encarnada e andava em redor dos canteiros onde as flores desabrochavam a sorrir. Nas bermas do rio os namoros despertavam, eu sentava-me na ponte debruçada sobre as águas e, descalça, sentia o refrescar das manhãs pelo chapinhar dos patos. Depois, rebolava pelo relvado onde as plantas trepadeiras se beijavam.


Voltava para casa numa correria, dançava pelos quintais perfumados pela flor de laranjeira e subia às árvores a cantar. Apanhava laranjas e tangerinas, pulava pelos telhados e brincava com os gatos que passavam a vadiar.


Saltava à corda, jogava à macaca e, nos fins de tarde, ia para o sótão construir castelos de lego. À noitinha, inventava sonhos no cintilar das estrelas e escrevinhava pequenos contos de príncipes e princesas sob o roseiral a florir.


E lembro-me, lembro-me nostalgicamente. Da minha mãe me embalar no seu colo a cada luar, acariciar os meus cabelos e contar-me histórias de encantar para eu adormecer. Era tudo tão suave.


Em tempos de feira de Março, levava-me a andar de carrossel com as minhas irmãs e, juntas, comíamos algodão doce por entre as gentes que passeavam numa alegria contagiante. Lembro-me dos rostos, do brilho nos olhares e do rasgo dos sorrisos.


Lembro-me, oh se me lembro de, num dia primaveril, lhe dizer:


- Mãe, não quero crescer.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

20 fevereiro, 2012

Fazes-me falta (uma história piegas)

Amo-te acima de todas as coisas, mas sinto-me amarrada a um abandono extremo que me rompe as entranhas.


A minha alma está despedaçada, quebrou-se ao perder-te à chegada, tu que surgiste no meu caminho sem o destino avisar, tu que me fizeste acreditar que vale a pena esperar pela entrega no seu todo e vivê-la soberbamente porque, disseste-me tu, temos todo o tempo do mundo. Lembras-te?


Tu, sim tu, que estás aí do outro lado da ponte que nos separa, tu que me ensinaste a crer que existe uma estrada colorida que nos espera, tu que te repetes no adjectivo bonita e te declaras por entre as letras daquele verbo que conjugas na perfeição, me toca na sua profundez e me acelera o coração. Aquela palavra, adoro-te, talvez a mais banalizada mas a mais bela de todas as palavras e que eleva todos os sentidos.


E agora estou aqui, perdida na minha embriaguez de viver-te por completo, de tocar a tua pele, de ter-te a meu lado e ficar assim, suspensa num mundo que não é o meu e aqui permaneço, viva para ti, no lugar que é teu mas sem rumo à vista, eu que tanto te choro. E questiono-me, pergunto aos mestres da sorte e do infortúnio, donos dos mistérios da vida, a razão deste lamento que me sufoca e, ao mesmo tempo, me obriga a respirar a todo o custo porque és tu quem quero, és tu quem me preenche ou, já nem sei, se não serás a razão deste vazio que tomou posse de mim, da angústia que bateu à minha porta e entrou de rompante sem pedir licença.


O cinzeiro transborda de pontas dos cigarros que já fumei, as garrafas de vinho estão vazias, quem dera que fosse por um brinde entre nós mas que não aconteceu. Afogo-me na tentativa de afastar de mim este engano mas não consigo esquecer que existes, não consigo apagar o teu nome. E dói-me, dói-me sentir-te por perto e não poder abraçar-te, é uma dor quase insuportável, é como morrer devagar com o remédio mesmo a meu lado mas não conseguir alcançá-lo e não há mais nada que possa minorar este mal, não há nada a fazer. Nada.


Arrancaram as asas da minha libertação, sinto-me prisioneira de um amor morto à nascença, vagueio sem rumo e consigo avistar um túnel mas não tem luz, é escuro como breu, não alcanço mais nada para além de uma lacuna e não há saída. É como estar perdida num labirinto, despida de amor próprio, completamente nua e conseguir ouvir a tua voz ecoar sobre o meu corpo frágil e a rasgar-me ainda mais a alma ferida.


Fazes-me falta. E eu quero gritar e não posso, preciso de gritar e não consigo.


 


  


(Texto escrito em 5 de Dezembro de 2010, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

16 janeiro, 2012

Serás tu ou estarás lá?

 


Disseram-me que estás aqui.


Foi uma borboleta que me pediu para te procurar e para, depois de te encontrar, reinventar-te.


Estarás tu nas páginas dos meus livros de cabeceira, que folheio todas as noites antes de sonhar? Serás tu a alma do anjo que me adormece serenamente a cada madrugada? Estarás tu em cada canto desta casa, em cada quadro, em cada imagem, em cada luz? Estarás tu em cada nota de música que ponho a tocar ou serás a tinta a óleo dos pincéis que me fazem pintar todas as telas?


Serás tu cada folha, cada ramo de árvore que foco com doçura sempre que vou ao jardim fotografar? Estarás tu numa pétala de rosa ou serás uma outra flor, das mais belas que contemplo a cada fim de tarde e colho para enfeitar os meus cabelos?


Estarás tu no brilho das estrelas, todas as que olho a cada anoitecer ou serás o sol que nasce resplandecente a cada alvorada? Estarás tu nas gotas da chuva que cai em dias cinzentos ou serás uma das cores do arco-íris?


Serás tu o uivo de um lobo que chora na escuridão pela ânsia de correr nas florestas ou serás o canto de uma andorinha que chama por manhãs primaveris?


Se assim for, se estiveres em todos os lugares e fores todas as coisas que estão vivas e eu puder escolher, meu amor, quero procurar-te no mais alto das montanhas, encontrar-te nas asas de um pássaro e contigo reinventar as nossas almas.


 


 

04 janeiro, 2012

Esquecer, renascer

 


Um dia, quero morrer contigo.


Quando subires aos céus e chegares às estrelas, perto do sol e da lua, quero estar a teu lado para, finalmente, renascer.


Hoje a minha alma jaz na velha casa em ruínas, outrora nossa, o meu corpo vagueia pelas ombreiras das portas. As janelas batem nos parapeitos com o vento que sopra voraz, das prateleiras empoeiradas caem os livros antigos que lemos, são iguais às nossas vidas. Há folhas que se soltam do diário da nossa história, espalham-se pelo chão que range a cada passo que dou. É como as horas dos dias que nos pertenceram, perderam-se num momento intemporal.


E eu abandono-me. Abandono-me silenciosamente, fujo do passado em direcção incerta, alcanço o barco onde navegámos sem rumo e que morre agora em terra firme depois da procura de um rio que corre turvo. Não consigo tocar nas suas águas, parecem bolas de neve que se desfazem ao passar.


Recuso-me respirar, suspiro como que pela última vez, sinto-me perto do que não cheguei a conquistar. Onde ficaste, alma que se perdeu por atalhos obscuros, em estradas sem saída? Até no final se repete o desencontro, o nosso, como duas sombras que se cruzam, desconhecidas.


Apagam-se as luzes, desvanecem as cores, tudo se torna escuro e tu ficas fantasma da velha casa. Eu, parto solitária no instante em que te esqueço e caminho numa nuvem que desceu à terra.


 


Por enquanto, estou viva.