06 outubro, 2015

Assombração

Casal_gotico_preto e branco.jpg


(imagem retirada de google imagens)


 


É tarde. Eu sei que é tarde, mas não para mim porque as madrugadas tornam-se cedo demais sempre que os silêncios chovem nas palavras, pelas gotas que jorram da pele que rasga, num arrepio, com o gemido dos ventos que ganham rosto.


É tarde e vejo-te no fim da rua mas disseram-me que não eras tu e eu, no meu mundo imaginário, acredito que és um fantasma que responde aos meus apelos e vens, deambulas pelas esquinas da cidade até me chegares, é como um encontro sem hora marcada entre dois corpos que se tentam. Talvez sejam as nossas almas a sentarem-se num café de beira estrada, à espera um do outro, como quem fica até nunca acontecer. Sempre vestidos de branco, mortos no desejo de que o infinito seja morada, onde a quietude existe debaixo dos bonsais gigantescos que amparam o brilho das estrelas que se deitam à beira rio e esperam que dele se faça lago, na ânsia de que haja mais que branco prata. Afinal, o azul não existe só para pintar o céu, as gardénias que florescem nas margens merecem outra cor para além da candura das pétalas, bem que poderiam ser azuis.


Repetem-se as vozes, ecoam até ao romper das entranhas, quem vejo é um espectro que à noite se cobre de preto mas és tu, eu sei que és tu quem percorre todas as vielas na busca de um anjo da paz. Peço-te que seja eu para me levares numa viagem sem bilhete de volta e eu, na minha irreverência, esqueço-me das gentes e das coisas e corro para a paragem de onde não se vêem os regressos. Eu, que sou a palidez em estado puro e sem sentidos, visto-me de negro antes de anoitecer para que consigas alcançar-me, que do ébano das nossa vestes surjam trajes brancos e nós, na nossa verdadeira essência, embarquemos numa jornada de milagres merecidos.
Dizem que as pedras da calçada também choram na queda dos beijos que ficaram por dar e que a terra, quando está molhada, estremece na poeira densa e quente, quem dera que adormeça na despedida dos pássaros que voltaram a voar e a lua desperte nas bermas das avenidas assombradas.
É tarde, eu sei. Mas eu quero a ondulação de um sopro envolto em flores de lótus azul celeste, à superfície do rio que está à nossa espera para dançar.

21 agosto, 2015

A velha máquina de escrever e outras coisas antigas

decorar-retro-maquinas-escrever.jpg(imagem retirada de google imagens)


Estava escuro. Escuro e silencioso. Apenas um ranger de degraus sob a sombra de uns pés descalços na poeira e uma mão, enrugada, agarrada ao corrimão da escadaria que oscilava a cada passo.

Os vidros das janelas estavam partidos, as ervas daninhas rastejavam pelos parapeitos e a porta de entrada não fechava, batia compassadamente ao sabor do vento, umas vezes manso, outras voraz.

Entrou no quarto empobrecido pelos anos, as memórias bailavam sobre os móveis. Livros sem capa, diários com palavras desbotadas, bonecas sem rosto, retratos rasgados. A um canto, um espelho embaciado e estilhaçado reflectia as cicatrizes de um corpo envelhecido com cabelos desgrenhados, dentro de um traje esfarrapado. 

'Quem és tu?', perguntou-se. 'No que te transformaste ao deixares de ser poema? Em que parte do caminho ficaram os teus versos, onde os perdeste?'.

Sobre a escrivaninha insegura no soalho a desabar, a velha máquina de escrever. A seu lado, papéis amarrotados, o telefone preto obsoleto e o cinzeiro de ferro forjado atulhado de restos de cigarros ressequidos. No rolo da máquina, uma folha amarelecida onde conseguia, ainda, ler-se: 'Ensina-me a voar, que eu ensino-te a sonhar. Vamos dançar? Amo-te tanto. M.'

Abandono. Tudo cheirava a abandono. Até as palavras que ficaram tinham o assombroso aroma do silêncio, marcado pela ausência de quem nunca mais voltou da despedida.

Caído no chão, prestes a ruir, o relógio que girou durante décadas estava agora parado pelo desmaio desconcertante da corda que fazia, antigamente, rodopiar os ponteiros.

Os quadros, outrora pincelados a guache, permaneciam nas paredes rachadas, agora empenados e sem cor pelo orvalho das noites que consumia as tonalidades. Quem se interessava por pinturas a guache, se acabavam sempre por desaparecer?

Saudade. Apenas saudade. Era o que restava. Já não sentia dor, acabava de se entregar ao chamamento da decadência que lhe permitia, apenas, alguns gestos demorados e finais. 'Leva-me', dizia repetidamente. 'Não quero voltar'.

Foi numa solidão assustadora que se deixou ficar, sentada na cadeira a tombar sobre a escrivaninha, frente à velha máquina de escrever, abraçada às memórias gastas pelo tempo.

A alma sentou-se na janela e, ao ver que o céu não tinha lua, distanciou-se serena e poética.

10 julho, 2015

Parar o tempo

Se eu pudesse parar o tempo pararia num dia primaveril soalheiro, onde os sorrisos de família entravam pelo alpendre com o chilrear dos pássaros nas manhãs e o cheiro a flor de laranjeira.


Se eu pudesse voltar atrás, bem lá longe nos anos, voltaria num fim de tarde de Verão para buscar as alegrias de criança na roupa suja acabada de brincar.


Se eu pudesse, ai se eu pudesse voltaria aos dias de teatro nos quintais, às partidas no sótão cor de rosa e às escondidas no olival para lá dos canteiros.

Muse - Dead Inside


 

22 junho, 2015

Instante

Quero ficar contigo, apenas de vez em quando. Isso basta-me. Porque o de vez em quando pode ser para sempre e o sempre, para mim, é muito pouco. Porque encurta-se a vida, nos anos expostos nos relógios que se apressam na demora de viver.


Pois eu já cumpri essa parte, já vivi, e o que sobra é tão pequeno. Dizem-me as horas que é preciso acabar num instante, para depois seguir viagem na solidão que nos transporta ao mistério do lugar.


E tu, tu és o meu instante.


 


P.S. Faltas-me. Faltas-me nesse sorriso que te cala e no silêncio que te move. 


 

16 junho, 2015

Praia 2015

Agora que cheguei à minha praia e sinto, mais do que nunca, a imensidão da tua ausência posso perceber o quão ridícula se pode tornar uma paixão, quando vivida por uma das partes num êxtase total.


Já não é hora, não para mim.


Aqui penso melhor, a minha capacidade de discernimento é maior, a racionalidade acentua a meus pés e eu consigo reflectir com mais clareza, é tudo tão mais suave, mesmo que me pese na alma. De que vale um bater de coração por um outro que se dispersa em outras paragens?


Quem sou eu para mudar o curso da vida de alguém?


O fim de tarde é ameno, o sol bate-me no rosto docemente, o vento envolve-me na sua plenitude mas continuo a sentir o cheiro do vazio e o meu coração, de tão pequeno que ficou, bate descompassadamente e eu fumo cigarro atrás de cigarro, perco-me nas palavras e tento inalar o iodo que não me chega.


Que é isso do amor, que não existe, e que surge de uma paixão, aquele sentimento desmedido, qual nuvem passageira que se desfaz perto dos céus. 


Espero-te de qualquer maneira. Espero-te na ânsia de te viver agora, porque não sei se existe o amanhã e eu, eu que morro a cada despedida, não posso alimentar-me do futuro, daquele cada vez mais incerto, mais incógnito.


Sinto a paz por aqui, está tudo tão sereno.


Queria que chegasses de surpresa, de mansinho. Pudesse eu lançar-me nos teus braços, como uma criança indefesa que sente protecção num abraço.


Mas tu não estás.


E como poderias estar, se eu não te faço aproximar? Não sei, não consigo, sou verdadeira demais para tentar manipular-te, os jogos de sedução não são para mim, o que se sente diz-se e guarda-se. Guarda-se com os momentos, os gestos genuínos, o silêncio no olhar. Há beleza maior do que duas pessoas olharem-se sem palavras? E os sorrisos na imensidão dos corpos que se calam? Conseguem ser esquecidos? Não, não para mim.  


São demasiados cigarros, alguns martinis, mas o gemido do mar não é alucinação, existe. Se o ruído desvanecer, o cantar das ondas dar-se-á nas madrugadas. Há alento maior? Talvez o uivo dos lobos no ínfimo das montanhas ou o grito dos corvos que passam, inesperados, em qualquer lugar do mundo onde haja azul celeste. 


Podes esquecer-te (como te compreendo) mas como não poderei lembrar-te, a ti, que entraste com avisos que tentei ignorar e que se perpetuaram (maldita expressão, nada é eterno)?


Lembro-te desde Setembro, acredita. Lembro-te, como se fosse hoje, desse brilho no olhar naquela noite plena de Verão, durante a melhor festa a que se pode assistir, ou que se consegue viver.


Já ninguém fica para olhar as estrelas, já ninguém fica para ouvir o cantar do mar.


Mas eu fico, estou aqui, a escutar o ondular das marés nas madrugadas a chorar.


 


Quando estou contigo sou feliz. Mas baralhas-me os sentidos, tu. E neste tumulto que me agarra a ti, esperarei até que me prendas ou me largues. Definitivamente.