26 agosto, 2024

Do que não gosto

Não gosto de casas ocas. Não gosto de paredes vazias. Não gosto de janelas por abrir, portas sem varanda com vistas por descobrir.

Não gosto do barulho dos vizinhos. Não gosto do vento feroz. Gosto do cântico dos pássaros em fins de tarde de Verão. Gosto da cor das noites, do silêncio das estradas.

Não gosto de rostos sisudos. Não gosto de frases feitas. Gosto de sorrisos cúmplices, de amizades acabadas de fazer. Gosto de palavras soltas, de versos sem rima. 

Não gosto do vazio. Não gosto de folhas brancas. Gosto de livros velhos, de páginas amarelecidas. Gosto de álbuns de fotografias com negativos por revelar. 

Não gosto do aroma dos dias de hoje. Gosto do cheiro da infância, da casa dos avós, dos sótãos e dos quintais, dos gatos que já não estão.

Não gosto de memórias, não gosto de saudade. Não gosto de sonhos que não passam disso mesmo, não gosto de ilusões. 

Não gosto do mundo. Não gosto do que vejo, do que oiço, do que prevejo. Não gosto do que sinto.

Não gosto de não gostar. 

12 julho, 2024

Volto, não volto...?

Voltei... à espera do que não sei.

É urgente voltar. Disse-o tantas vezes e, tantas vezes, o senti. Voltar, voltar, voltar. Ler, reler, rever, reviver. Mas foi tanto o que se perdeu. Amigos que já não voltam, amigos que já nem sei, nem eu já me reconheço. 

Passaram os anos, tantos. Mas nada voltará a ser igual, nada voltará a ser parecido. 

Mas há quem tenha permanecido. Já revisitaste quem ficou, Leonor?, pergunto-me. Não, só às vezes. E as palavras, onde estão? No vazio da memória. 

Que faço eu agora, depois de ter sido tão feliz neste lugar? Como fujo desta solidão? Como encaro o passar dos anos, a velocidade do relógio da cozinha que teima em olhar para mim todas as manhãs e, na sua correria veloz, me diz?:

Estás a envelhecer e não consegues aceitar. Estás a envelhecer e já não acreditas na humanidade. Estás a envelhecer e a saúde a fraquejar, mas manténs aquele espírito de criança. Estás a envelhecer, sim. Deixaste de ser uma miúda há muito tempo. 

E a caneta? Onde a perdeste? Onde ficou a máquina de escrever do teu avô? Na prateleira, à espera dos teus dedos. 

Maldito relógio, que tem voz e me fala. Será delírio?

Longe vão os tempos em que a escrita era a minha companheira, confidente, e a caneta escorria por entre os meus dedos e tudo fluía, as palavras dançavam por entre lágrimas e sorrisos.

Mas era feliz. Feliz na minha tristeza (in)constante. E agora estou aqui, como se o passado tivesse voltado, como se o relógio pudesse inverter os seus ponteiros.

Envelhecer corrói e a saudade mata. 

Que fazer? Fico? Ou parto de vez? Não. Não consigo afastar-me do mundo que me transformou e me ajudou a acreditar em sonhos (im)possíveis. 

Obrigada a quem ficou, a quem nunca desistiu, a quem nunca abandonou a magia da blogosfera.

Até já.