Às vezes, oiço vozes. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.
Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.
Sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão.
Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.
Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.
Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo uma janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.
Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.
imagem retirada de: http://weheartit.com
ResponderEliminarOlá Ametista
Lindo o teu texto. Adoro ler-te!!
Espero que estejas bem.
Beijinhos
Se há aroma que me despe a alma, é sem dúvida o da terra molhada. Muito obrigado Ametista, por levares quem te lê a voar nos teus sonhos. Pode parecer fácil, mas não é. É necessário ter uma essência genuína e de extrema sensibilidade, algo que não se adquire, mas que se nasce com... Obrigado por seres assim e por partilhares de ti.
ResponderEliminarFinalmente li este teu texto com a calma e concentração que necessito. Realmente é impossível ficar-se indiferente ao que escreves e como escreves.
ResponderEliminarAs palavras sentidas saem-te da alma, manuska.
Adorei... mais do que pensas.
Beijinhos grandes
Olá, Gotinha
ResponderEliminarObrigada por passares.. és uma querida..
Espero que também TU estejas bem..
Um grande beijinho com saudade :)
Pois.. não consigo ser de outra forma.. que fazer..?
ResponderEliminarFico tão feliz com comentários assim.. e como agradecer as tuas palavras..?
Muito obrigada eu, Cláudio..
Um grande beijinho :)
Ai, manuskita, qualquer dia não sei o que dizer perante comentários desta natureza..
ResponderEliminarObrigada, obrigada, obrigada..
@doro.ti :)
Beijinhos mil, minha querida ónix
Um sonho com danças, aromas e as sombras que nos perseguem e perseguimos.
ResponderEliminarGostei muito.
Cumprimentos
Olá Existem muitas coisas que nos definem e uma delas é, sem dúvida, a voz Gostei muito
ResponderEliminarBeijinhos
Não sei que adjectivo aplicar... é texto para ler mais vezes
ResponderEliminar... e outros também :))
Será que estou perdoada pela demora na resposta e tanto tempo de ausência?
ResponderEliminarObrigada pela presença, bem como pelas palavras de apreço..
Um abraço
Ondinha,
ResponderEliminarObrigada pelo carinho..
Beijinho grande :)
Muito obrigada..
ResponderEliminarA porta estará sempre aberta :)
Nesse caso, vou tomar a liberdade de seguir :D
ResponderEliminarobrigado
Cara amiga,
ResponderEliminarFelizmente na blogosfera não existem algumas etiquetas.
De qualquer modo, mesmo que existissem estava igualmente perdoada.
Abraço
Caro amigo,
ResponderEliminarSó tenho a agradecer..
Espero que esteja bem de saúde..
Um abraço
Eu é que agradeço..
ResponderEliminarE, para não variar, regresso mas depois ausento-me.. enfim..
Tenho de ir espreitar o teu cantinho que, por sinal, gosto bastante e cujo espacinho a minha irmã (ónix) segue atentamente :)
O teu maior agradecimento é continuares a escrever e nos deliciar com isso
ResponderEliminarBeijinhos
Continuarei.. até me doerem os dedos..
ResponderEliminarAbracinho
Oh e mesmo que doam, tens de suportar a dor,ora essa!
ResponderEliminarBeijinhos