16 março, 2011

Voz

 



 


Às vezes, oiço vozes. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.


Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.


Sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão.


Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.


Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.


Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo uma janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.


Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.


 



 


imagem retirada de: http://weheartit.com

19 comentários:


  1. Olá Ametista

    Lindo o teu texto. Adoro ler-te!!

    Espero que estejas bem.

    Beijinhos

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  2. Se há aroma que me despe a alma, é sem dúvida o da terra molhada. Muito obrigado Ametista, por levares quem te lê a voar nos teus sonhos. Pode parecer fácil, mas não é. É necessário ter uma essência genuína e de extrema sensibilidade, algo que não se adquire, mas que se nasce com... Obrigado por seres assim e por partilhares de ti.

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  3. Finalmente li este teu texto com a calma e concentração que necessito. Realmente é impossível ficar-se indiferente ao que escreves e como escreves.
    As palavras sentidas saem-te da alma, manuska.
    Adorei... mais do que pensas.
    Beijinhos grandes

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  4. Olá, Gotinha
    Obrigada por passares.. és uma querida..
    Espero que também TU estejas bem..

    Um grande beijinho com saudade :)

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  5. Pois.. não consigo ser de outra forma.. que fazer..?
    Fico tão feliz com comentários assim.. e como agradecer as tuas palavras..?
    Muito obrigada eu, Cláudio..

    Um grande beijinho :)

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  6. Ai, manuskita, qualquer dia não sei o que dizer perante comentários desta natureza..
    Obrigada, obrigada, obrigada..
    @doro.ti :)

    Beijinhos mil, minha querida ónix

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  7. artesaoocioso13/04/11, 23:54

    Um sonho com danças, aromas e as sombras que nos perseguem e perseguimos.
    Gostei muito.
    Cumprimentos

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  8. Olá Existem muitas coisas que nos definem e uma delas é, sem dúvida, a voz Gostei muito

    Beijinhos

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  9. Não sei que adjectivo aplicar... é texto para ler mais vezes
    ... e outros também :))

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  10. Será que estou perdoada pela demora na resposta e tanto tempo de ausência?
    Obrigada pela presença, bem como pelas palavras de apreço..

    Um abraço

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  11. Ondinha,
    Obrigada pelo carinho..

    Beijinho grande :)

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  12. Muito obrigada..
    A porta estará sempre aberta :)

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  13. Nesse caso, vou tomar a liberdade de seguir :D
    obrigado

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  14. artesaoocioso22/06/11, 00:16

    Cara amiga,
    Felizmente na blogosfera não existem algumas etiquetas.
    De qualquer modo, mesmo que existissem estava igualmente perdoada.
    Abraço

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  15. Caro amigo,
    Só tenho a agradecer..
    Espero que esteja bem de saúde..

    Um abraço

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  16. Eu é que agradeço..
    E, para não variar, regresso mas depois ausento-me.. enfim..
    Tenho de ir espreitar o teu cantinho que, por sinal, gosto bastante e cujo espacinho a minha irmã (ónix) segue atentamente :)

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  17. O teu maior agradecimento é continuares a escrever e nos deliciar com isso

    Beijinhos

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  18. Continuarei.. até me doerem os dedos..

    Abracinho

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  19. Oh e mesmo que doam, tens de suportar a dor,ora essa!

    Beijinhos

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