Ainda hoje gosto de mergulhar nos lençóis onde, naquele fim de tarde, os nossos corpos se enlaçaram. Ainda sinto as tuas mãos percorrerem o meu corpo na mais perfeita carícia, sinto que estás aqui a tocar nos meus cabelos. O teu olhar deixa-me assim, disseste. Perdi-me no murmúrio da tua voz, entreguei o meu corpo ao teu, envolvi-me em ti.
A noite veio de mansinho, lá fora a chuva caía sem perdão, escutámos o seu chorar que escorria pela janela do quarto e nos pedia para entrar. E o vento ria sem parar, soltava gargalhadas que vinham de norte e sul, nem as nuvens o conseguiram deter.
Pediste-me para acender uma vela com aroma a sândalo e âmbar. Eu disse-te que o amarelo é a cor dos sorrisos e peguei numa para atear as nossas almas. O fósforo dançava na minha mão trémula enquanto acendia uma das tantas velas que poisei no chão de faia.
Os lençóis de cetim cheiravam a baunilha, os nossos corpos renderam-se à essência doce que pairava dentro das quatro paredes que iam aquecendo devagar a cada sentido nosso que se revelava, por entre a suavidade da luz que nos rodeava.
O cenário era de um romance singular, sobre a cama bailavam pétalas de rosa, soltámos o que de mais místico havia em nós e na nossa entrega pedimos à vida que acabasse ali, onde mora o princípio do fim.
Tenho medo, disseste. Medo que o mundo pare de girar, medo de nunca mais te ver, de não voltar a tocar a tua pele.
Não tenhas, respondi e segurei o teu rosto com ternura nas minhas duas mãos. Um dia a minha mãe escreveu uma história que se chamava ‘juntos na morte’. Que importa a vida, se não podemos dar as mãos lá fora?
Olhámos para o céu através da vidraça, não havia lua e as estrelas tinham-se escondido nas nuvens mas vimos velas, muitas velas. Estavam por todo o lado, espalhadas pela estrada, nos passeios, nas ruas e nas vielas. Eram todas iguais, tingidas da cor que seca o sol.
Nem a chuva, nem o vento conseguiram apagar o seu ardor, a cidade ficou pincelada de amarelo dourado e as pessoas pararam no esplendor do momento. E tu acabaste por partir, em busca do calor dos atalhos.
Caiu serena a madrugada, senti-te do outro lado da cidade. Tocaram três badaladas no relógio da torre da igreja, acendi um cigarro na chama de uma vela esquecida e escrevi para ti. O vento deixou de soprar nas suas gargalhadas, um cão ladrou ao longe e uma cigarra chorou comigo pelo adeus que não me disseste. O meu imaginário vagueou pela varanda com vista sobre a cidade que dormia tranquila pelo fulgor das velas a arder.
Voltei para o vazio dos lençóis, ficaram com o teu cheiro marcado. Elevei-me num sono encantado onde inventei a fantasia que me embalou num cenário de cetim. Estás aqui, disse a mim mesma como que a chamar por ti, e uma concha formou-se no centro de uma cama por fazer. Fomos nós.
A chuva voltou a chorar em agonia, as suas lágrimas apagaram as velas, quase todas, apenas uma permaneceu resplandecente. Seria presságio de ti, de mim ou seria apenas um sinal teu?
Regressei à varanda envolvida num lençol, pétalas de rosa iam caindo por entre as velas espalhadas pelo chão. O aroma a sândalo e âmbar ficou marcado no quarto onde estivemos, penetrado em tudo o que tocámos. A vista sobre a cidade encandeou-me o rosto, o meu corpo oscilou pela perda do que não sei.
Adormeci na essência do que ficou de ti, mas estremeci ao acordar com a alvorada. Saí para a rua num susto e parei junto a uma vela ainda a arder, a única, de todas as que se formaram num manto cintilante que enfeitou os caminhos durante a noite. Ouvi vozes e aproximei-me das gentes que gemiam de aflição. Disseram-me que tinhas morrido.
Corri desnorteada num lamento até onde a chuva e o vento me levaram, não sei a que lugar, parei e gritei:
Há um Outono a morar na minha alma. Reacendam a vela que se extinguiu, para que volte a Primavera.
(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)
Olá Gostei muito deste texto, apesar de ter muitos contornos tristes, mas gostei de ler, é de uma sensibilidade muito grande e cheio de sentimentos tão belos.
ResponderEliminarBeijinhos
LINDO! Adorei, para não variar ;)
ResponderEliminarTem partes que as senti como minhas, tão minhas!!
"Que importa a vida, se não podemos dar as mãos lá fora?"
Obrigada por estes momentos, um beijinho
Estou de pé a aplaudir...
ResponderEliminarQue bom ver a chama da criatividade acesa, as tuas palavras sempre tiveram este efeito em mim: acalentam-me a alma, fazem-me sonhar e elevam-me para lá da banalidade e vulgaridade que veste os dias de cinzentos, têm refletidas as cores do arco-íris e a beleza do olhar dos crentes...
Um brinde amiga da minh'alma aos que acreditam ...
@doro.ti
A tua escrita fascina e envolve...qualquer dia não encontro mais palavras para comentar.
ResponderEliminarAmei, como sempre.
Adoro-te,manuska
Olá, ondinha
ResponderEliminarÉ apenas uma história para a Fábrica.. um misto de ficção e realidade..
Beijinhos
Obrigada eu, Natacha..
ResponderEliminarTambém o que escreves proporciona momentos tão bonitos para quem te lê..
Que importa a vida, se não deixarmos escrito o que nos vai na alma..? O amor às letras.. as palavras são o que de melhor a vida nos oferece.. falo por mim e calculo que sintas o mesmo..
Um beijinho
Minha querida Quimera,
ResponderEliminarO brinde está feito.. aos que acreditam e aos que sentem assim..
As tuas histórias fazem-me falta, amiga..
Obrigada pelo carinho..
@doro.ti
Há sempre uma palavra.. e tu consegues sempre encontrá-la..
ResponderEliminarObrigada, minha querida ónix..
@doro.ti
Não acho que seja ficção, a ficção acaba a partir do momento que possa ser realidade, e é uma realidade no seio de muitas pessoas inclusivé eu...
ResponderEliminarBeijinhos
olá querida!!!
ResponderEliminará tanto tempo que nao vinha ao teu blog!!
lancei um desafio no meu blog, espero que participes, para saberes mais passa por lá
beijos
mafa
Olá Leonor.
ResponderEliminarSente-se os teus dedos na escrita.
Gravam sentimentos, sensações e pulsa um coração ainda aprisionado.
Há fantasia, desilusão e sempre muita saudade...
É impossível não gostar da envolvência dos teus textos repletos de paixão.
Beijinho
Não sei muito bem elogiar, assim como ser elogiado, mas neste momento é inevitável que não o faça, mesmo que sem jeito e por isso, as minhas desculpas. Os textos que aqui encontrei, são de uma escrita muito própria, do mais belo que já li… E eu sou uma pessoa que lê muito!
ResponderEliminarOlá, Mafa
ResponderEliminarPassas quando puderes.. não te sintas na obrigação.. o tempo é escasso e também não tenho ido ao teu..
Agradeço o desafio, se bem que não sei se terei tempo para participar..
De qualquer das formas, muito obrigada por te lembrares de mim..
Beijinho
Querida Flor,
ResponderEliminarAs tuas palavras são sempre um alento para a minha alma..
Sei que os meus temas acabam sempre por recair nesses sentimentos.. o amor e a paixão.. que fazer..?
Obrigada, amiga.
Um grande beijinho
Olá, Cláudio
ResponderEliminarPorque haverias de pedir desculpa..?
Eu é que não sei como agradecer tamanho elogio.. fiquei comovida com as tuas palavras..
Já espreitei o teu cantinho e digo-te, muito sinceramente, que o que li deixou-me perplexa.. escreves imensamente bem.. assim terei eu de pedir desculpa por ainda não ter deixado por lá qualquer comentário.. é a falta de tempo que se torna tão maior a cada dia.. mas, logo que possa, voltarei para saborear a tua escrita..
Muito obrigada por teres passado e volta sempre que quiseres, volta sempre que puderes..
P.S. Afinal, agora somos colegas de trabalho na Fábrica.. grande grupo de operários :)
Palavras talentosas. Palavras que parecem ter braços,que envolvem as emoções de quem as lê.
ResponderEliminarParabéns.
Obrigada por passares, obrigada por gostares..
ResponderEliminarSim, pode ser uma realidade, mas não deixa de ter alguma ficção pelo meio, no que se refere a certos cenários..
ResponderEliminarBeijinho
Sim, esses cenários não serão mais do que ficção, é verdade, mas muito do que escreveste é a realidade de muitas pessoas.
ResponderEliminarBeijinhos e bom fim de semana
Tens razão.. provavelmente vivo numa realidade diferente..
ResponderEliminarUm resto de bom fim de semana :)
Obrigado, bom resto de semana para ti
ResponderEliminarBeijito