29 janeiro, 2011

Palavras para uma imagem - Há sempre uma vela que se apaga


 


Ainda hoje gosto de mergulhar nos lençóis onde, naquele fim de tarde, os nossos corpos se enlaçaram. Ainda sinto as tuas mãos percorrerem o meu corpo na mais perfeita carícia, sinto que estás aqui a tocar nos meus cabelos. O teu olhar deixa-me assim, disseste. Perdi-me no murmúrio da tua voz, entreguei o meu corpo ao teu, envolvi-me em ti.


A noite veio de mansinho, lá fora a chuva caía sem perdão, escutámos o seu chorar que escorria pela janela do quarto e nos pedia para entrar. E o vento ria sem parar, soltava gargalhadas que vinham de norte e sul, nem as nuvens o conseguiram deter.


Pediste-me para acender uma vela com aroma a sândalo e âmbar. Eu disse-te que o amarelo é a cor dos sorrisos e peguei numa para atear as nossas almas. O fósforo dançava na minha mão trémula enquanto acendia uma das tantas velas que poisei no chão de faia.


Os lençóis de cetim cheiravam a baunilha, os nossos corpos renderam-se à essência doce que pairava dentro das quatro paredes que iam aquecendo devagar a cada sentido nosso que se revelava, por entre a suavidade da luz que nos rodeava.


O cenário era de um romance singular, sobre a cama bailavam pétalas de rosa, soltámos o que de mais místico havia em nós e na nossa entrega pedimos à vida que acabasse ali, onde mora o princípio do fim.


Tenho medo, disseste. Medo que o mundo pare de girar, medo de nunca mais te ver, de não voltar a tocar a tua pele.
Não tenhas, respondi e segurei o teu rosto com ternura nas minhas duas mãos. Um dia a minha mãe escreveu uma história que se chamava ‘juntos na morte’. Que importa a vida, se não podemos dar as mãos lá fora?


Olhámos para o céu através da vidraça, não havia lua e as estrelas tinham-se escondido nas nuvens mas vimos velas, muitas velas. Estavam por todo o lado, espalhadas pela estrada, nos passeios, nas ruas e nas vielas. Eram todas iguais, tingidas da cor que seca o sol.


Nem a chuva, nem o vento conseguiram apagar o seu ardor, a cidade ficou pincelada de amarelo dourado e as pessoas pararam no esplendor do momento. E tu acabaste por partir, em busca do calor dos atalhos.


Caiu serena a madrugada, senti-te do outro lado da cidade. Tocaram três badaladas no relógio da torre da igreja, acendi um cigarro na chama de uma vela esquecida e escrevi para ti. O vento deixou de soprar nas suas gargalhadas, um cão ladrou ao longe e uma cigarra chorou comigo pelo adeus que não me disseste. O meu imaginário vagueou pela varanda com vista sobre a cidade que dormia tranquila pelo fulgor das velas a arder.


Voltei para o vazio dos lençóis, ficaram com o teu cheiro marcado. Elevei-me num sono encantado onde inventei a fantasia que me embalou num cenário de cetim. Estás aqui, disse a mim mesma como que a chamar por ti, e uma concha formou-se no centro de uma cama por fazer. Fomos nós.
A chuva voltou a chorar em agonia, as suas lágrimas apagaram as velas, quase todas, apenas uma permaneceu resplandecente. Seria presságio de ti, de mim ou seria apenas um sinal teu?


Regressei à varanda envolvida num lençol, pétalas de rosa iam caindo por entre as velas espalhadas pelo chão. O aroma a sândalo e âmbar ficou marcado no quarto onde estivemos, penetrado em tudo o que tocámos. A vista sobre a cidade encandeou-me o rosto, o meu corpo oscilou pela perda do que não sei.


Adormeci na essência do que ficou de ti, mas estremeci ao acordar com a alvorada. Saí para a rua num susto e parei junto a uma vela ainda a arder, a única, de todas as que se formaram num manto cintilante que enfeitou os caminhos durante a noite. Ouvi vozes e aproximei-me das gentes que gemiam de aflição. Disseram-me que tinhas morrido.


Corri desnorteada num lamento até onde a chuva e o vento me levaram, não sei a que lugar, parei e gritei:
Há um Outono a morar na minha alma. Reacendam a vela que se extinguiu, para que volte a Primavera.



 


(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

21 comentários:

  1. Olá Gostei muito deste texto, apesar de ter muitos contornos tristes, mas gostei de ler, é de uma sensibilidade muito grande e cheio de sentimentos tão belos.

    Beijinhos

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  2. LINDO! Adorei, para não variar ;)

    Tem partes que as senti como minhas, tão minhas!!

    "Que importa a vida, se não podemos dar as mãos lá fora?"

    Obrigada por estes momentos, um beijinho

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  3. Estou de pé a aplaudir...

    Que bom ver a chama da criatividade acesa, as tuas palavras sempre tiveram este efeito em mim: acalentam-me a alma, fazem-me sonhar e elevam-me para lá da banalidade e vulgaridade que veste os dias de cinzentos, têm refletidas as cores do arco-íris e a beleza do olhar dos crentes...

    Um brinde amiga da minh'alma aos que acreditam ...

    @doro.ti

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  4. A tua escrita fascina e envolve...qualquer dia não encontro mais palavras para comentar.
    Amei, como sempre.
    Adoro-te,manuska

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  5. Olá, ondinha
    É apenas uma história para a Fábrica.. um misto de ficção e realidade..

    Beijinhos

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  6. Obrigada eu, Natacha..
    Também o que escreves proporciona momentos tão bonitos para quem te lê..
    Que importa a vida, se não deixarmos escrito o que nos vai na alma..? O amor às letras.. as palavras são o que de melhor a vida nos oferece.. falo por mim e calculo que sintas o mesmo..

    Um beijinho

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  7. Minha querida Quimera,
    O brinde está feito.. aos que acreditam e aos que sentem assim..
    As tuas histórias fazem-me falta, amiga..
    Obrigada pelo carinho..

    @doro.ti

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  8. Há sempre uma palavra.. e tu consegues sempre encontrá-la..
    Obrigada, minha querida ónix..

    @doro.ti

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  9. Não acho que seja ficção, a ficção acaba a partir do momento que possa ser realidade, e é uma realidade no seio de muitas pessoas inclusivé eu...

    Beijinhos

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  10. olá querida!!!

    á tanto tempo que nao vinha ao teu blog!!

    lancei um desafio no meu blog, espero que participes, para saberes mais passa por lá

    beijos
    mafa

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  11. Olá Leonor.
    Sente-se os teus dedos na escrita.
    Gravam sentimentos, sensações e pulsa um coração ainda aprisionado.
    Há fantasia, desilusão e sempre muita saudade...
    É impossível não gostar da envolvência dos teus textos repletos de paixão.
    Beijinho

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  12. Não sei muito bem elogiar, assim como ser elogiado, mas neste momento é inevitável que não o faça, mesmo que sem jeito e por isso, as minhas desculpas. Os textos que aqui encontrei, são de uma escrita muito própria, do mais belo que já li… E eu sou uma pessoa que lê muito!

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  13. Olá, Mafa
    Passas quando puderes.. não te sintas na obrigação.. o tempo é escasso e também não tenho ido ao teu..
    Agradeço o desafio, se bem que não sei se terei tempo para participar..
    De qualquer das formas, muito obrigada por te lembrares de mim..

    Beijinho

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  14. Querida Flor,
    As tuas palavras são sempre um alento para a minha alma..
    Sei que os meus temas acabam sempre por recair nesses sentimentos.. o amor e a paixão.. que fazer..?
    Obrigada, amiga.

    Um grande beijinho

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  15. Olá, Cláudio
    Porque haverias de pedir desculpa..?
    Eu é que não sei como agradecer tamanho elogio.. fiquei comovida com as tuas palavras..
    Já espreitei o teu cantinho e digo-te, muito sinceramente, que o que li deixou-me perplexa.. escreves imensamente bem.. assim terei eu de pedir desculpa por ainda não ter deixado por lá qualquer comentário.. é a falta de tempo que se torna tão maior a cada dia.. mas, logo que possa, voltarei para saborear a tua escrita..

    Muito obrigada por teres passado e volta sempre que quiseres, volta sempre que puderes..

    P.S. Afinal, agora somos colegas de trabalho na Fábrica.. grande grupo de operários :)

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  16. Palavras talentosas. Palavras que parecem ter braços,que envolvem as emoções de quem as lê.
    Parabéns.

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  17. Obrigada por passares, obrigada por gostares..

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  18. Sim, pode ser uma realidade, mas não deixa de ter alguma ficção pelo meio, no que se refere a certos cenários..

    Beijinho

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  19. Sim, esses cenários não serão mais do que ficção, é verdade, mas muito do que escreveste é a realidade de muitas pessoas.

    Beijinhos e bom fim de semana

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  20. Tens razão.. provavelmente vivo numa realidade diferente..

    Um resto de bom fim de semana :)

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  21. Obrigado, bom resto de semana para ti

    Beijito

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