O envelope lacrado permanecia perdido no chão. A seu lado, um corvo acabava de fechar as asas e olhou para mim sem se mover. Os meus olhos castanhos pararam no tempo e as minhas mãos pálidas tremeram ao querer alcançar o envelope, mas o meu corpo esguio permaneceu inerte por entre as batidas fortes de um coração assustado.
Escutei um ligeiro ruído, ergui o olhar e deparei-me com alguém surgido do nada.
Era excessivamente moreno, alto e bem constituído, cabelos longos e lisos da cor dos seus olhos, negros como as asas do corvo que acabara de ver ali, naquele lugar. Era bonito, demasiado até, com uns traços de índio que lhe aumentavam a beleza.
O corvo desapareceu no instante em que o desconhecido declarou, em silêncio, a sua presença. Pegou na carta com as suas mãos ligeiramente enrugadas, de onde sobressaía uma penugem invulgar. Estendeu-me o envelope lacrado e acenou a cabeça como quem diz: Abre.
O meu rosto descorado deixou transparecer incredulidade por um lado, mas por outro uma confiança rara. Por momentos, senti um ar fresco e brando vindo de qualquer lugar estranho e que me transmitiu sedução por tão grande mistério. Os meus cabelos castanhos ondularam por entre a brisa que ia chegando e acalentando o meu coração, de tão apressado que batia. Os meus lábios ligeiramente finos rasgaram-se num sorriso incerto e agarrei na carta a receio.
Puxei o lacre suavemente e, com um misto de medo e curiosidade, retirei a folha de papel escondida no envelope cor de ébano.
Pestanejei antes de começar a ler as palavras contidas na carta mas, antes, perguntei ao desconhecido o seu nome. Corbie, disse-me com uma voz grave e doce ao mesmo tempo que esboçava um sorriso que deixava mostrar os seus dentes brancos e perfeitamente alinhados.
Comecei a ler a carta enquanto sentia, bem perto de mim, o seu ar sereno e um olhar profundo.
'Vem comigo e entra no mundo que inventei só para ti.
Não sabes quem sou, mas eu conheço-te como ninguém. Conheço os teus sonhos, as tuas vivências, as tuas angústias e as tuas esperanças. Sei que guardas segredos, recordações jamais esquecidas e trazes contigo uma força interior que te deixa sorrir e acreditar em dias melhores. Sei de cor a tua alma cigana e o teu espírito tão próprio de uma criança que se recusa a crescer. Sei que queres ser livre e sobrevoar até sempre o mar que te apazigua o coração.
Vem comigo. Quero levar-te a conhecer um mundo imaginário totalmente à parte deste em que vives e, no fundo, tão perto daqui. Lá, conseguirás ser feliz.
Despe-te de preconceitos, mascara-te, veste-te das personagens que um dia sonhaste ser. Encarna os papéis principais ou secundários. Escolhe. Dou-te esse direito. Se pretenderes, sê apenas figurante e admira os cenários, envolve-te neles. Lá, no lugar de que te falo, as pessoas são imortais e transformam-se em pássaros.'
Para a Laura, de um corvo perdido que não traz maus presságios.'
Olhei para o homem que se deparava à minha frente e deixei-me ficar no silêncio que transbordava em nosso redor. Eu, Laura, secretária de uma média empresa e pintora nas horas vagas, era uma mulher sonhadora em demasia. Estaria eu perante um construtor de sonhos?
Ele estava ali, descalço, um corpo semi-nú coberto por uma capa negra e longa com um capuz que lhe caía pelas costas. Sobre o ombro, um corvo que aparecia e desaparecia por entre voos curtos e lentos. Voava com as suas asas de veludo e pousava, de seguida, suavemente. Enquanto o corvo esvoaçava sorrateiramente, o homem misterioso desaparecia por breves instantes e regressava com um olhar enigmático.
Olhei para mim mesma de preto trajada, um vestido que me torneava o corpo até aos pés. Descalça também e com os cabelos compridos em desalinho, estendi-lhe a mão e parti com ele.
Um homem-corvo, um feiticeiro, um anjo quem sabe, que trouxe consigo bons presságios e me fez partir em busca de uma liberdade incógnita que precisava, urgentemente, de alcançar.
(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)
Soltam-se palavras, mistura-se fantasia e vai correndo o mistério...
ResponderEliminarE no fim que queres que diga?
Eu sei lá menina!... isto não é uma fábrica é uma super fábrica com produção a todo o vapor.
Bom Domingo.
Misterioso e belíssimo o texto... Amei, querida manuska. Consegues envolver-me nas tuas belas histórias. Dá vontade de ler do princípio ao fim e continuar a ler... sempre. Não deixes de escrever, nunca.
ResponderEliminarAbraço do tamanho da tua inspiração.
FANTÁSTICO!!!!
ResponderEliminarAmiga, está fenomenal, até tropeço nas palavras...
Está tão lindo minha querida amiga ....tão envolvente, supreendente ... misterioso...
Adorei ...
Beijinhos mil
Adoro-te, tu sabes né'verdade
Esta imagem é muito mais bonita... diria fantástica.
ResponderEliminarBeijinhos
Obrigada, minha querida!
ResponderEliminarAinda bem que gostaste, dediquei-lhe muito tempo. :)
Não tive tempo para participar nos «Protagonistas» mas vou ver se esta semana tenho! :D
És uma querida, Flor...
ResponderEliminarNão queres entrar para o grupo de operários da Fábrica?
Ia ser melhor ainda...
Beijinho grande
Hi, minha querida ónix, com palavras assim como não hei-de sentir-me a não ser babada?
ResponderEliminarE não... não vou deixar de escrever, porque aqui sou feliz...
Continuação de melhoras, sim?
Adoro-te
Minha querida Quimera,
ResponderEliminarNão me canso de agradecer-te por fazeres parte da minha vida...
Adoro-te a ti também, n'é verdade?
Beijinhos lunares... tantos
Então, pois tive de mudá-la... a outra deu erro.
ResponderEliminarEsta é bonita mesmo...
Bjux
Pois tu escreves tão bem, querida Flautinha...
ResponderEliminarCompreendo a tua falta de tempo... eu sinto o mesmo...
Fico à espera da tua história para esta semana... vamos lá ver se não sou eu que vou falhar!
Beijinho
Vamos lá ver como corre a semana.
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ResponderEliminarQuerida amiga,
Que lindo o teu texto, e uma história com final feliz!!!! As saudades que tinha de te ler....Muitas, muitas.
A minha vida anda um pouco atribulada, mas sinto-me bem. Já comprei a casa, e estou a tratar da mudança, mas não posso tirar férias agora....Então o tempo passa a correr...
Espero que estejas bem, amiga.
Beijos lunares
Querida Gotinha,
ResponderEliminarEstou muito feliz por ti... espero que, depois desta fase de mudanças, desfrutes ao máximo da tua nova casinha...
O tempo..? A quem o dizes... difícil gerir. Nestes últimos dias tenho andado meio adoentadita, fruto destas alterações de temperatura estranhas e que nos põem assim...
Obrigada por teres passado... estava com saudades tuas... muitas.
Beijinhos mil, amiga
olá amiga! venho deixar um beijinho bom docinho e muitos abraços de amizade. Uma óptima semana cheia de tudo o k queiras querida. Fica bem.
ResponderEliminarAmiga, passei para te desejar uma boa semana.
ResponderEliminarMesmo ausente, existem as saudades dos blogs e sabe bem ter notícias dos amigos.
Espero que estejas bem...
Beijinhos.
Olá, querida Sind
ResponderEliminarSabes que só há pouco reparei que publicaste um livro pela Autores? Muitos parabéns, amiga... Deixei-te lá uma palavrinha...
Tudo de bom para ti, com muitos sonhos e pedaços de lua...
Beijinhos mil
Meu querido amigo,
ResponderEliminarNada melhor do que irmos dando notícias uns aos outros... assim, ficamos mais serenos...
A vida vai correndo... vou tentar ser mais assídua por aqui e como estou de folga resolvi mudar o rosto ao blog, mas acho que ainda não é desta...
Obrigada por teres passado por aqui...
Beijinho grande com saudade... e azul