02 janeiro, 2019

Esta não é uma história de amor

                                                                   in 'O Despertar dos Silêncios'


 


Estou aqui, sentada frente a um écran que outrora não fazia parte da minha vida e onde agora ficam expressas as minhas divagações, para quem as quiser ler.


Lembro-me que escrevia em folhas de papel timbrado ou nas sebentas da escola, umas vezes com lápis outras com esferográfica. Podia ser azul, preta ou encarnada, o importante era que escrevesse e assim nasciam as letras. E eu escrevia, escrevia sem parar, o meu pensamento flutuava em cada lugar que estivesse, tudo eram palavras que irrompiam e iam ficando desenhadas em rascunhos.


Ainda hoje guardo todas as folhas em que deixei escritos devaneios e desabafos, estão hoje amarelecidas como as antiguidades que se guardam num sótão qualquer, empalidecidas como o tempo vai deixando as nossas vidas.


Acendo um cigarro, eu não queria fumar aqui, mas o frio está cortante na minha varanda com vista sobre a cidade e dentro de casa há um aconchego que me prende, mesmo que amarelecidas fiquem as paredes deste recanto onde a música não pára de tocar e o relógio suspenso se repete no seu compasso apressado.


Recordo o tempo em que escrevia até amanhecer, adormecia quando a vida começava lá fora e a agitação das ruas era a minha tranquilidade. Refugiava-me no conforto dos lençóis e ia acordando, ora com a chuva a cair nas pedras da calçada ora com raios de um sol caloroso, enquanto as palavras surgiam subitamente no meu pensamento e me levantava para deixá-las escritas, não fosse eu esquecê-las durante o sono, sentir a minha imaginação em branco ao acordar.


Vivia entre palavras e pinceladas. Palavras que se soltavam ao palpitar da alma e pinceladas que deixava em cada tela, com cores, muitas cores, aquelas com que quis tingir a minha vida. E assim soltava os meus fantasmas, amava por entre as lágrimas que escorriam sobre as letras que fazia despertar, amava a cada palavra que se erguia dos trechos que ia construindo. Amava a cada misto de cores que colocava na tela e a cada nascer de cenários abstractos e paisagens, aquelas que inventava. 'Assim posso chorar porque ninguém vê, ninguém sabe quem sou', pensava eu.


Tudo eram histórias de amor, essa palavra repetida que deixava rastejar pelo papel, sempre marcada no topo de cada folha em branco, chorada em cada virar de página, gravada em cada tela pincelada. Mas o vento foi mudando de rumo a cada instante dos meus dias e, hoje e agora, eu já não quero escrever histórias de amor.


Quero continuar a escrever, a escrever sem parar todas as horas da minha existência, mas histórias onde o amor é palavra proibida e a dor não pode entrar. Quero continuar a sonhar, mas com um sorriso, por entre as gotas de tinta de uma caneta quase extinta, como que num fogo apagado pela coragem de quem arrisca o destino por cada sopro de vida, cada coração que não pode parar de bater, mas sem descrever uma única história de amor.


Quero perder-me no reino da essência das coisas, sentar-me no seio da beleza que cai em redor das cidades e parar no tempo. Deitar-me na areia de uma praia qualquer e implorar à linha do horizonte que o céu e o mar se beijem a cada pôr de sol. Quero adormecer submersa e, através das águas cálidas de um oceano sereno, ver o céu tornar-se azul a cada alvorada. Quero alcançar as estrelas como nas histórias que escrevi, transformar-me em pássaro, ter asas púrpura de veludo, rosto de lobo, alma cigana, coração de aço e subir à nuvem mais branca e doce.


Quero permanecer assim, como sempre fui. Rebelde, sempre rebelde, com sede de liberdade, com urgência de soltar o grito escondido que trago bem preso no ventre, mas sem chamar pelo amor nas minhas preces. Quero continuar com esta vontade de lutar e vencer ou sair vencida, mas lutar sempre e até sempre. Ser eu, sem medo de demonstrar quem fui, quem sou, o que sei e o que não sei, quem gostaria de ser. Simplesmente genuína, a transbordar de um desejo desmedido de dançar sobre as páginas do livro de histórias que escrevi, tocar o céu e beijar a lua, esconder-me no seu colo.


Tudo em mim é imensurável. O meu amor às letras, a minha rebeldia para deixar falar mais alto a minha alma, a minha força para gritar no silêncio das palavras até me doerem os dedos. É imensamente grande a minha vontade de abraçar todos os livros de poesia, aqueles que dormem na biblioteca do jardim da avenida onde, há muito tempo atrás, arrumei nas prateleiras para descansarem do desfolhar sôfrego em dias de correria. A minha sede de devorá-los com as mãos e com os olhos é tão maior, é uma ânsia que me arrepia a pele do tanto que quero ler e conhecer, do tanto que quero saber sobre os poetas que esquecem o mundo por amor às palavras e deixam no papel, cantadas em verso, as mais belas histórias nunca antes lidas.


E é imensurável, oh se é, a minha capacidade para sonhar acordada e acreditar, para depois desacreditar. É assim que sou. Mas já não quero histórias de amor.


Volto à varanda com vista sobre a cidade, quebrou-se o frio das madrugadas, observo as luzes que se acendem no ocaso e admiro a beleza que brota do esplendor que emanam depois do crepúsculo. Avisto silhuetas ao longe que passeiam, carros que circulam devagar num silêncio apagado pelo canto de uma cigarra que surge como numa noite quente.


Eu quero escrever cada momento, quero escrever sem parar. Conseguir descrever na perfeição o suspiro de um coração liberto e o brilho de um olhar que agradece o privilégio do despertar a cada manhã. Quero descrever em pormenor o momento em que o sol entra na minha vida para me abraçar, qual alma vazia que se preenche ao esquecer a palavra amar.


Fui deixando escritos, ao longo dos tempos, sentimentos de alma, esboços de uma vida, aqueles que se choram e deixam saudade. Histórias, memórias, momentos, sonhos que foram ficando guardados, uns num baú de memórias envoltos num laço de cordel, outros nas páginas do meu Danças em Silêncio, espero que para sempre.


Mas já não quero escrever mais histórias de (des)amor.


 


Cúmplices. Eu e as palavras.

21 comentários:

  1. É com curiosidade, Ametista, que espero as suas histórias. Escritas com a razão, escritas com paixão, escritas com sentimento, escritas com amor, mesmo quando não escreve sobre o amor. Numa escrita envolvente, emotiva,densa e que sinto autêntica, consegue surpreender na simplicidade e no despretensiosismo. Numa escrita que vem de dentro, com naturalidade, sem receio de partilhar um pouco de si com quem a lê. Numa escrita que não merece ficar aprisionada em qualquer baú!
    MG

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  2. Penso que não haja palavras para descrever este teu sentir, este teu amor por tanta coisa boa que a vida te vai proporcionando devagarinho.
    Não tenho capacidade para comentar mais.
    Amei.
    Beijinhos, manuska

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  3. Vês o que quero dizer... é tão "eu" este teu texto! Só não me reconheço no cigarro (sorrisos)

    Ler-te é viciante, dá vontade de que não acabe nunca, é um crescendo de intensidade... olha, fico sem palavras, eu que gosto tanto delas!

    Um beijinho muito grande e bom fim de semana!

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  4. Não tens só o dom da escrita... também tens o dom de comover quem te lê.
    Beijinho grande

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  5. Muito obrigada pelo comentário.. torna-se difícil agradecer convenientemente as palavras que me dirigiu..
    Fiquei comovida (digo-o com sinceridade) e apenas posso dizer-lhe que o que escrevo vem-me da alma.. provavelmente, por vezes, exagero mas é assim que sou..
    Uma vez mais, muito obrigada..

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  6. Puxa, manuska, já disseste tudo.. não é verdade..?
    Obrigada..

    Beijinhos mil :)

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  7. Puxa, Natacha, obrigada.. posso dizer o mesmo em relação a ti e às tuas palavras.. envolvem-nos em demasia..
    E também eu fico sem saber o que dizer.. apenas posso agradecer-te do fundo da minha alma..

    Um grande beijinho :)

    P.S. Fim de semana a trabalhar, eu!!! :(

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  8. Meu amigo, que saudades..
    Espero que esteja tudo bem contigo..
    Obrigada por passares.. és um querido :)

    Um grande beijinho e azul, claro

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  9. Ametista, só posso dizer que espero que te continues a perder nas teclas, nos uns e zeros que codificam as tuas palavras, pois o meu monitor precisa de mostrar belas palavras como as tuas!
    Boa semana!

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  10. artesaoocioso13/03/11, 22:14

    Ficamos presos ao texto da primeira à última palavra.
    Desnudar a alma até às fibras mais intímas não é para todos.
    Sei que vai continuar a escrever - não é possível calar essa força interior - e também sei que voltará a escrever sobre o Amor.
    A vida nunca cessa de mudar.
    Cumprimentos

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  11. Continuarei.. até que me doam os dedos.. :)
    Ainda não li a tua história.. depois passo no teu cantinho..
    Obrigada..

    Boa semana para ti também.

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  12. Voltarei, com toda a certeza.. acho que nem sei escrever sem deixar marcadas essas quatro letras que enchem as histórias.. ora de sorrisos, ora de lágrimas.. encontros e/ou desencontros que nos são destinados.. só o Amor..
    Sem ele, que seria feito de nós..? Porque, afinal, não é só o Amor a outrem que preenche os nossos dias mas, e cada vez mais, o Amor à essência das coisas..
    Obrigada..

    Cumprimentos

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  13. É por textos assim que depois sentimos a tua falta quando não escreves. Eu também gosto de misturar cores nas telas, embora tenha andado preguiçoso nesse sentido. Mas tenho feito outras coisas que também gosto… Espero que esteja tudo bem contigo, um abraço.

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  14. Também ando um pouco ausente das pinturas, mas também elas fazem parte da minha vida.. pelos vistos, temos mais do que uma coisa em comum.. :)
    E, sim, o importante é irmos fazendo o que mais gostamos (haja tempo!!!)..
    Faço o que posso para estar bem.. espero que tu estejas bem..
    Ainda não li a tua história.. depois passo por lá, tá?
    Obrigada por deixares a tua 'marca' por aqui..

    Um abraço

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  15. artesaoocioso16/03/11, 23:06

    Regressei ao locar do crime para voltar a ler esse belo texto .
    É uma história de vida ou quase. Assim, escrevendo vai também vivendo.
    Cumprimentos

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  16. E eu quero continuar a ler-te e a emocionar-me com as tuas palavras.

    Tudo de bom para ti, amiga.

    Beijinhos

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  17. Também tu mereces tudo de bom que a vida tem para oferecer..
    Obrigada por me leres, querida amiga..
    Sê feliz, tá?
    Beijinhos lunares.. muitos

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  18. Meu Deus.. assim fico desajeitada.. é muito bom, demais até, ter pessoas que me lêem com alma e me deixam palavras de apreço..
    Muito obrigada..

    P.S. Estou em falta para consigo.. não tenho comentado o seu blog, mas tenho lido.. eu sei que por aqui não existem obrigações mas, como escreve muito bem, merece que o leiam com assiduidade e com toda a atenção que merece..

    Cumprimentos vindos da alma

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  19. Gostei tanto, tanto, mas tanto do que escreveste que estou sem palavras...então desde criança que gostavas de escrever, muito bem que isso nunca acabe para nos brindares com estas palavras saltitantes e belas

    Beijinhos

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  20. Credo! Grande tropeção! Como é que não vi, ondinha? Desculpa, sim?, mas só agora reparei que não respondi às tuas palavras sempre tão generosas :)

    Beijinho grande

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  21. Não faz mal, não tens de pedir desculpas

    Um grande beijinho para ti e para a mana

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