(imagem retirada de google imagens)
Estava escuro. Escuro e silencioso. Apenas um ranger de degraus sob a sombra de uns pés descalços na poeira e uma mão, enrugada, agarrada ao corrimão da escadaria que oscilava a cada passo.
Os vidros das janelas estavam partidos, as ervas daninhas rastejavam pelos parapeitos e a porta de entrada não fechava, batia compassadamente ao sabor do vento, umas vezes manso, outras voraz.
Entrou no quarto empobrecido pelos anos, as memórias bailavam sobre os móveis. Livros sem capa, diários com palavras desbotadas, bonecas sem rosto, retratos rasgados. A um canto, um espelho embaciado e estilhaçado reflectia as cicatrizes de um corpo envelhecido com cabelos desgrenhados, dentro de um traje esfarrapado.
'Quem és tu?', perguntou-se. 'No que te transformaste ao deixares de ser poema? Em que parte do caminho ficaram os teus versos, onde os perdeste?'.
Sobre a escrivaninha insegura no soalho a desabar, a velha máquina de escrever. A seu lado, papéis amarrotados, o telefone preto obsoleto e o cinzeiro de ferro forjado atulhado de restos de cigarros ressequidos. No rolo da máquina, uma folha amarelecida onde conseguia, ainda, ler-se: 'Ensina-me a voar, que eu ensino-te a sonhar. Vamos dançar? Amo-te tanto. M.'
Abandono. Tudo cheirava a abandono. Até as palavras que ficaram tinham o assombroso aroma do silêncio, marcado pela ausência de quem nunca mais voltou da despedida.
Caído no chão, prestes a ruir, o relógio que girou durante décadas estava agora parado pelo desmaio desconcertante da corda que fazia, antigamente, rodopiar os ponteiros.
Os quadros, outrora pincelados a guache, permaneciam nas paredes rachadas, agora empenados e sem cor pelo orvalho das noites que consumia as tonalidades. Quem se interessava por pinturas a guache, se acabavam sempre por desaparecer?
Saudade. Apenas saudade. Era o que restava. Já não sentia dor, acabava de se entregar ao chamamento da decadência que lhe permitia, apenas, alguns gestos demorados e finais. 'Leva-me', dizia repetidamente. 'Não quero voltar'.
Foi numa solidão assustadora que se deixou ficar, sentada na cadeira a tombar sobre a escrivaninha, frente à velha máquina de escrever, abraçada às memórias gastas pelo tempo.
A alma sentou-se na janela e, ao ver que o céu não tinha lua, distanciou-se serena e poética.
E um frio trespassou-me a alma quando acabei de te ler. Simplesmente maravilhoso!
ResponderEliminarBeijinhos
Obrigada, mana.
EliminarBeijjnhos