13 setembro, 2014

Fantasma

Disseste que a vida nos fatigava a pele e matava as ilusões arrastadas pelos corpos entranhados no tumulto das mentes, encruzilhadas, e eu não percebi o significado dos sonhos que me detiveram para sempre. Perdi-me entre a vida e o destino, segui por uma estrada tenebrosa sem sinais e deixei tudo de mim pelo caminho. Esqueci-me que as quimeras já morreram e que o princípio é o fim de todas as coisas. Tornei-me na sombra dos meus passos que se embrulharam na demora, pelo chão que se me escapou na fúria de voltar a ser feliz.


Tarde demais. Havia imagens distorcidas nos espelhos que circundavam os lugares por onde vagueei, cheirava a morte das almas nas veredas. Tranquei-me em castelos assombrados, o pó e a cinza rodopiavam nos recantos, as escadarias iam tombando atrás de mim. Fiquei presa às torres ainda de pé, deixei-me embeber por um desmaio sufocante mas, ao longe, um rio de águas mansas inundou as brumas, chegou até mim devagarinho, ganhou um rosto indecifrável e disse-me bem baixinho, a ondular, que na penumbra das noites há magia. Foi um mistério que me permitiu transformar, ganhei asas púrpura de veludo e voei como um pássaro ferido até às cabanas abandonadas das florestas, aquelas das minhas histórias de encantar.


Afinal, não morri nas madrugadas. Ainda estou viva para os meus sonhos de criança. E tu, tu que me perseguiste nas palavras não eras mais do que o fantasma da minha inércia, abençoada pelos relógios que pararam.

19 comentários:

  1. pimentaeouro13/09/14, 23:44

    Para voltar a ler e meditar. Gostei.

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    1. Obrigada, amigo João.
      Espero que se encontre um pouco mais animado..

      Grande abraço

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    2. pimentaeouro24/10/14, 23:13

      Há muito tempo que não tinha uma noticia boa, esta semana tive uma, a recidiva bioquimica do cancro da prostata está controlada e o urologista reduziu-me a medicação. Até Junho de 2.016, data da próxima consulta, só farei um injecção trimestral.
      Tirei 50 kgs. de cima.
      Desejo que os seus problemas tenham melhorado.
      Um abraço.

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    3. Fico muito feliz por si, amigo João. Espero que as boas notícias continuem..
      Eu vou indo.. melhorzinha, mas graças a muita medicação. Vá dando notícias.
      Grande abraço

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    4. pimentaeouro18/11/14, 00:13

      Também compro saúde na farmácia.
      E assim a esperança de vida aumenta.

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  2. pimentaeouro15/09/14, 12:06

    "Ainda estou viva para os meus sonhos de criança. "
    Ainda há esperança e a vida e o acaso, o grande timoneiro dos nossos barcos, surpreendem-nos quando menos esperamos.
    Um abraço grande.

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    1. Verdade, caro João.
      Os meus sonhos nunca morrem.. porque, no dia em que isso acontecer, deixarei de viver.
      Esperança? Só mesmo para sonhar..

      Obrigada e aquele abraço

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    2. pimentaeouro24/10/14, 23:15

      A esperança ultrapassa os sonhos, existe dentro de nós.

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    3. Há sempre uma réstia de esperança, não é?

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    4. pimentaeouro18/11/14, 00:11

      Só os condenados não podem ter esperança, embora às vezes tenham.
      A vida está sempre a mudar e pode tocar-nos sem esperarmos.
      Um abraço.

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  3. Estás viva sim Leonor, muito viva e ainda bem para todos nós que amamos ler-te :)
    Beijinho

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    1. Estou viva, sim, mas ainda tenho tantos sonhos por concretizar.. os mais simples da vida, sabes?
      Também adoro ler-te, minha querida :)

      Obrigada e aquele beijinho especial na alma

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  4. Um soberbo e belo texto de prosa poética. Do melhor que tenho lido. E que a inércia não vença a criança que há em nós.

    Grande abraço

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    1. Muito obrigada..
      Tem sempre palavras bonitas para me deixar :)
      Alma de criança, sempre. E, sim, que a inércia não vença..

      Grande abraço para si

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  5. Apeteceu-me abrir as portas ao teu sotão, entrei, não me arrependi.
    Continuas a desenhar sentimentos através das palavras.

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    1. Queria Dida, que bom teres entrado...
      Obrigada

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  6. Um texto soberbo... já não me chegam as palavras para descrever a forma como escreves. Sou tua fã, sem qualquer sombra de dúvida.
    Beijinhos

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  7. Minha querida poetisa, como é mágico voltar aqui, como é bom ler-te.

    Saudades

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    1. Olha, amiga, voltei.. estou na praia, sabes.. Basta isso.
      Saudades da Maria das Quimeras..

      Beijinhos mil

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