30 abril, 2012

Palavras para uma imagem - A torre de babel


A Torre de Babel (1563), Pieter Bruegel


 

Um dia, quero morrer contigo.


Quando subires aos céus e chegares às estrelas, perto do sol e da lua, quero estar a teu lado para, finalmente, renascer.


Hoje a minha alma jaz no velho castelo assombrado, outrora nosso, o meu corpo vagueia pelas ombreiras das portas. As janelas batem nos parapeitos com o vento que sopra voraz, das prateleiras empoeiradas caem os livros antigos que lemos, são iguais às nossas vidas. Há folhas que se soltam do diário da nossa história, espalham-se pelo chão que range a cada passo que dou, esvoaçam por entre as vidraças quebradas pelas correrias do tempo. São como as horas dos dias que nos pertenceram, perderam-se num momento intemporal.


E eu abandono-me. Abandono-me silenciosamente, fujo do passado em direcção incerta, alcanço o barco onde navegámos sem rumo e que morre agora em terra firme depois da procura de um rio que corre turvo. Não consigo tocar nas suas águas, parecem névoas que evaporam ao passar.


Quis devorar o mundo, a terra e os céus. Quis aniquilar este amor, esta paixão (sei lá) e renascer das cinzas. Deixei de saber quem sou e onde pertenço, perdi-me na turbulência dos sentidos e fugi de ti, de todos e de mim. Somos tão diferentes.


O sonho ruiu, o meu, de mim, de ti, de nós. Desmoronou-se o nosso castelo, como se fosse de areia a desfazer-se na maré vaza. E eu, em que me transformei? Em sombra, apenas em sombra.


Refugiada numa torre em ruínas recuso-me respirar, suspiro como que pela última vez, sinto-me perto do que não cheguei a conquistar. Onde ficaste, alma que se perdeu pelas veredas em redor da torre, em atalhos obscuros sem saída? Até no final se repete o desencontro, o nosso, como dois espíritos desconhecidos que se cruzam nas brumas de um labirinto.


Apagam-se as luzes, desvanecem as cores, tudo se torna escuro e tu ficas fantasma do velho castelo. Eu, parto solitária pelas neblinas no instante em que te esqueço e caminho numa nuvem que desceu à terra.


Toco o céu, beijo uma estrela e abraço um anjo num murmúrio: 


- Por enquanto, estou viva. A torre caiu.


 


 


(História construída a partir de textos escritos anteriormente, agora alterados e adaptados para a Fábrica de Histórias)


4 comentários:

  1. Querida Ametista, há certas fugas que são uma verdadeira derrocada interior, parece que tudo rui à volta mas a nosso instinto de sobrevivência obriga-nos a fugir... estás viva sim! E eu adorei o texto!
    Um beijinho grande

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  2. A força sempre presente :)
    Obrigada, querida closet.

    Um grande beijinho

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  3. Amei este post! Fantástico.mesmo.
    Bjus

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  4. É a minha alma a dançar.. é superior a mim..
    Eu e o meu amor às letras.. que fazer..?

    Beijinho

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