21 novembro, 2011

Um serão diferente


 


Às vezes, lembro-me de ti. Minto. Não só às vezes, mas muitas vezes, tantas, quase sempre.


Recordo-me, principalmente, daquela noite fria e chuvosa de Novembro em que me levaste a casa da tua mãe. Era tarde, fomos pelo quintal, abriste a porta das traseiras e quando entrei fechei os olhos com força, absorvi o aroma que rastejava pelos móveis e pelas paredes e exclamei num sorriso: cheira à casa da minha mãe.


Encaminhaste-me à sala, acendeste a lareira e foste buscar café e chocolate quente. Sentámo-nos no chão, frente a frente, no meio das almofadas pretas e vermelhas espalhadas sobre um enorme tapete persa e debatemos o mistério da vida e a nossa crença no destino. Por entre velas acesas entrámos no mundo das adivinhas, discutimos existências anteriores e contaste-me as experiências que viveste com o teu baralho de tarô, aquele que acabaste por me oferecer dentro de uma caixinha de cartão reciclado.


Esquecemo-nos dos relógios, falámos horas a fio, mais pareciam confissões de dois adolescentes que mantêm uma cumplicidade extrema e inabalável. Perdemo-nos nas palavras até ao amanhecer e, unidos por gestos de afecto, partilhámos momentos, sentimentos, falámos das nossas perdas e das nossas conquistas, rimos e chorámos juntos enquanto a chuva caía intensa lá fora.


Houve alturas em que parecíamos dois verdadeiros poetas, as palavras saíam-nos em verso e as nossas declarações transformavam-se num autêntico poema. As tuas confissões alojaram-se na minha alma e ergueram-se num eco que, de quando em vez, vai e vem: se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo.


Puseste a tocar uma música suave, defumaste um incenso e convidaste-me para dançar. Rodopiámos um no outro até ao fim da noite numa tranquilidade aconchegante e quase nos perdemos na palavra amar mas venceu a amizade que conseguimos solidificar e, como me disseste, nunca poderíamos ser amantes porque o nosso encontro aconteceu em época incerta. Se tivesse sido um pouco antes ou um tanto depois, teríamos ficado juntos para sempre. Acredito que sim, se acredito.


Encontramo-nos na praia? Acendemos uma fogueira, bebemos café e chocolate quente e voltamos a dançar, pediste-me na despedida, como se o destino nos levasse a outra vida e o nosso adeus fosse um ponto de partida para um novo encontro. Como tu próprio disseste, entre a areia e o mar.



 


(Texto escrito em Janeiro de 2011, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

14 comentários:

  1. As memórias são uma espécie de "coisa" que nós com simplicidade modelamos na forma como sentimos...

    Muito bonito o texto, aliás, uma rotina por estas bandas

    Bj

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  2. Pois é.. nós e as memórias.. e há quem seja mais saudosista, não é? Que fazer..?
    Obrigada, efoi.

    Abracinho :)

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  3. Ametista, adorei o teu texto, de tal forma que o senti em partes meu... Como é bom encontrar alguém especial com quem partilhar palavras sentidas, como é verdadeiro estes encontros serem sempre em tempos impossíveis e incertos :) um beijinho enorme

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  4. Podes crer, closet.. os momentos genuínos parecem-nos quase sempre difíceis de acontecer.. e, quando acontecem, ficam para sempre na nossa memória porque são tão especiais..
    Obrigada..

    Um grande beijinho :)

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  5. Não quero cometer o plágio das palavras da Closet, mas ... faço minhas as dela. Tal e qual, quase o senti meu. O que só me faz ter a certeza de que quem vive das sensações, dos sentimentos, das essências, teve ao longo da sua vida momentos muito felizes e sabe respeitar o seu enorme valor... para sempre!

    Adorei, mas isso já tu sabias :)

    Beijo grande

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  6. Desculpa a demora na resposta, Natacha, mas não tenho tido tempo.. enfim :(
    Obrigada pelas tuas palavras.. qual plágio..? Subscreveste, certo ? :)

    Um beijo amigo

    P.S. Acho que já descobri porque é que os comentários não aparecem no teu blog. Penso que é quando utilizo outro pc que não o meu e que tem problemas de configuração do google (digo eu). É o caso de hoje, portanto só amanhã é que vou espreitar o teu cantinho e deixar lá uma palavrinha..

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  7. Muito bonito o teu texto, como sempre aliás...é bom ter alguém para partilhar certas coisas, é muito reconfortante

    Beijinhos

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  8. ..porque há pessoas que não se esquecem..
    Obrigada, ondinha :)

    Beijinho grande

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  9. Linda, esta tua memória tão sentida. Adorei.
    Bjinho

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  10. viajanteintemporal11/12/11, 14:55

    \"se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo\"
    Lindo!
    Gostei muito Leonor. Como sempre!
    Beijinhos

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  11. Obrigada, manuska :)

    Beijinhos

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  12. Obrigada, viajante, por passares e gostares..

    Beijinho grande

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  13. Sim, claro que sim. Não agradeças , eu é que te agradeço e tenho orgulho em ser teu amiguinho

    Beijinhos

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  14. Sinto o mesmo, amigo..
    Obrigada :)

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