Às vezes, lembro-me de ti. Minto. Não só às vezes, mas muitas vezes, tantas, quase sempre.
Recordo-me, principalmente, daquela noite fria e chuvosa de Novembro em que me levaste a casa da tua mãe. Era tarde, fomos pelo quintal, abriste a porta das traseiras e quando entrei fechei os olhos com força, absorvi o aroma que rastejava pelos móveis e pelas paredes e exclamei num sorriso: cheira à casa da minha mãe.
Encaminhaste-me à sala, acendeste a lareira e foste buscar café e chocolate quente. Sentámo-nos no chão, frente a frente, no meio das almofadas pretas e vermelhas espalhadas sobre um enorme tapete persa e debatemos o mistério da vida e a nossa crença no destino. Por entre velas acesas entrámos no mundo das adivinhas, discutimos existências anteriores e contaste-me as experiências que viveste com o teu baralho de tarô, aquele que acabaste por me oferecer dentro de uma caixinha de cartão reciclado.
Esquecemo-nos dos relógios, falámos horas a fio, mais pareciam confissões de dois adolescentes que mantêm uma cumplicidade extrema e inabalável. Perdemo-nos nas palavras até ao amanhecer e, unidos por gestos de afecto, partilhámos momentos, sentimentos, falámos das nossas perdas e das nossas conquistas, rimos e chorámos juntos enquanto a chuva caía intensa lá fora.
Houve alturas em que parecíamos dois verdadeiros poetas, as palavras saíam-nos em verso e as nossas declarações transformavam-se num autêntico poema. As tuas confissões alojaram-se na minha alma e ergueram-se num eco que, de quando em vez, vai e vem: se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo.
Puseste a tocar uma música suave, defumaste um incenso e convidaste-me para dançar. Rodopiámos um no outro até ao fim da noite numa tranquilidade aconchegante e quase nos perdemos na palavra amar mas venceu a amizade que conseguimos solidificar e, como me disseste, nunca poderíamos ser amantes porque o nosso encontro aconteceu em época incerta. Se tivesse sido um pouco antes ou um tanto depois, teríamos ficado juntos para sempre. Acredito que sim, se acredito.
Encontramo-nos na praia? Acendemos uma fogueira, bebemos café e chocolate quente e voltamos a dançar, pediste-me na despedida, como se o destino nos levasse a outra vida e o nosso adeus fosse um ponto de partida para um novo encontro. Como tu próprio disseste, entre a areia e o mar.
(Texto escrito em Janeiro de 2011, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)
As memórias são uma espécie de "coisa" que nós com simplicidade modelamos na forma como sentimos...
ResponderEliminarMuito bonito o texto, aliás, uma rotina por estas bandas
Bj
Pois é.. nós e as memórias.. e há quem seja mais saudosista, não é? Que fazer..?
ResponderEliminarObrigada, efoi.
Abracinho :)
Ametista, adorei o teu texto, de tal forma que o senti em partes meu... Como é bom encontrar alguém especial com quem partilhar palavras sentidas, como é verdadeiro estes encontros serem sempre em tempos impossíveis e incertos :) um beijinho enorme
ResponderEliminarPodes crer, closet.. os momentos genuínos parecem-nos quase sempre difíceis de acontecer.. e, quando acontecem, ficam para sempre na nossa memória porque são tão especiais..
ResponderEliminarObrigada..
Um grande beijinho :)
Não quero cometer o plágio das palavras da Closet, mas ... faço minhas as dela. Tal e qual, quase o senti meu. O que só me faz ter a certeza de que quem vive das sensações, dos sentimentos, das essências, teve ao longo da sua vida momentos muito felizes e sabe respeitar o seu enorme valor... para sempre!
ResponderEliminarAdorei, mas isso já tu sabias :)
Beijo grande
Desculpa a demora na resposta, Natacha, mas não tenho tido tempo.. enfim :(
ResponderEliminarObrigada pelas tuas palavras.. qual plágio..? Subscreveste, certo ? :)
Um beijo amigo
P.S. Acho que já descobri porque é que os comentários não aparecem no teu blog. Penso que é quando utilizo outro pc que não o meu e que tem problemas de configuração do google (digo eu). É o caso de hoje, portanto só amanhã é que vou espreitar o teu cantinho e deixar lá uma palavrinha..
Muito bonito o teu texto, como sempre aliás...é bom ter alguém para partilhar certas coisas, é muito reconfortante
ResponderEliminarBeijinhos
..porque há pessoas que não se esquecem..
ResponderEliminarObrigada, ondinha :)
Beijinho grande
Linda, esta tua memória tão sentida. Adorei.
ResponderEliminarBjinho
\"se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo\"
ResponderEliminarLindo!
Gostei muito Leonor. Como sempre!
Beijinhos
Obrigada, manuska :)
ResponderEliminarBeijinhos
Obrigada, viajante, por passares e gostares..
ResponderEliminarBeijinho grande
Sim, claro que sim. Não agradeças , eu é que te agradeço e tenho orgulho em ser teu amiguinho
ResponderEliminarBeijinhos
Sinto o mesmo, amigo..
ResponderEliminarObrigada :)