28 novembro, 2011

Palavras para uma imagem - Lá fora


(Il Telescópio de René Magritte)


 


Às vezes, oiço vozes para lá da janela do meu quarto. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.


Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio lá fora por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.


Regresso, sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega junto à vidraça, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão, perto do parapeito.


Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua para lá da janela, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.


Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.


Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo a janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.


Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.


 


 


(Texto escrito em Março de 2011, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias


 


 

11 comentários:

  1. É tão bom planar nas tuas palavras, têm uma envolvência única. Toda a gente a determinada altura se pergunta quem é... a mim acontece-me muitas vezes não me reconhecer... mas passa ;)

    Beijo enorme

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  2. Querida Ametista, confesso que li várias vezes este texto, não porque o achei confuso, mas porque danças mesmo com as palavras e perco-me a pensar no seu sentido, onde nos queres levar.
    Estas vozes de que falas, serão as que temos no nosso interior, as que nos atordoam, inflingem, abanam, de tal forma nos agitam que chegamos a pensar que pertencem a outro corpo diferente, um paralelo ao nosso que nunca chegamos a alcançar?
    Ametista... era só uma janela!... porque nos fazes pensar??!! Um beijinho grande

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  3. Obrigada, querida Natacha.. por vezes deparamo-nos com algumas dúvidas, sim..
    Espero que estejas bem :)

    Beijinho grande

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  4. Eu não queria complicar, juro que não queria.. de facto, era apenas uma janela e vê bem as voltas que eu dei.. hihihi
    Quando às vozes, cada um pode interpretá-las à sua maneira.
    Querida Closet, obrigada por leres e releres :)

    Um grande, grande beijinho

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  5. Um dia encontrarás o que procuras, ou terás o que desejas. Um dia o teu acordar será a realidade dos teus sonhos e não dos pesadelos.
    Um coração sossegado, não tem pesadelos.
    Foi isto que senti no teu texto, um coração desassossegado. Talvez esteja longe do significado, mas foi assim que o senti.
    Beijinho.

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  6. Sabes? Estas vozes, as de que falo, são interpretadas à maneira de cada um. O importante é que não haja esse desassossego de que falas..
    Meu querido amigo, obrigada por passares :)

    Um beijo grande e azul

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  7. Olá amiga, gostei muito do que escreveste, quando escrevemos parece que nem damos por isso e quando vemos o desenho final ele é magnífico...mas nem chego aos teus calcanhares, claro

    Beijinhos

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  8. Cada um escreve com os seus sentidos.. cada qual com o seu valor, desde que com alma..
    Tenho de ir ao teu cantinho espreitar :)

    Abracinho

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  9. Subscrevo o José. Um dia, quem sabe. Amei as palavras.
    Bjinhos

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  10. Será..?
    Bigada, manuskinha :)

    Abracinho

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  11. Sim, é verdade, e eu adoro escrever, parece que é um desabafo interior...Sim, vai lá, és e serás sempre bem vinda lá

    Beijinhos

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