24 setembro, 2011

Amor solitário

"Por todo o atelier pairava o aroma intenso das rosas e quando a branda aragem estival corria por entre as árvores do jardim, entrava pela porta a fragrância carregada do lilás, ou ainda o perfume delicado do espinheiro de floração rósea. Estendido no divã de bolsas de seda persas, a fumar, como era seu costume, cigarro após cigarro, Lord Henry Wotton só conseguia vislumbrar do seu canto as flores adocicadas e cor de mel de um laburno, cujos ramos trémulos pareciam mal poder suportar o peso de beleza tão fulgurante."


 


"O retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde


 


(...)


 


Solitário. Sou um solitário. Por onde andas, querida Lauren? Partiste com o vento numa manhã quente de Outubro, desapareceste por entre as searas que estão para lá do jardim e não voltaste. Nesta casa permanece o teu cheiro, aquele que ficava agarrado à minha pele sempre que me abraçavas.


Esperaste por mim tantos anos depois de todas as minhas promessas, agora sou eu quem espera por ti. Perdoa-me, meu amor, por não ter cumprido tudo o que inventámos para nós.


Eras mais velha que eu, mas emanavas juventude. Acho que me apaixonei pela tua força de viver, pela tua inocente rebeldia e alegria contagiantes. Lembro-me do teu sorriso, quebrava qualquer ausência nossa e a tristeza quase insuportável de não poder estar a teu lado tornava-se menor. E tu, Lauren, eras tão imensamente leal.


Para lá da janela, o aroma quente das searas aproxima-se agora de mansinho com a aragem fresca dos fins de tarde e eu pressinto-te chegar. Vejo uma sombra, pareces-me tu, irradias felicidade e vens ao meu encontro. Sempre gostaste de correr pelas searas, sentias o sublime sabor da liberdade. Mas não, não és tu que vejo. É a minha imaginação. Estou velho e cansado e esta espera incessante de ti perturba-me e sinto-me alucinar. Quero arrancar daqui este silêncio sufocante, rasga-me a pele e fere-me a alma. Fazes-me tanta falta.


Acendo mais um cigarro, quero afastar este aroma a flores que invade o atelier e me destrói por dentro por não estares aqui. Rosas, adoravas rosas e, desde há muitos anos, encomendo um ramo vermelho todos os dias na florista e enfeito este lugar que é tão teu. E volto a pintar. Pinto-te a ti, pinto-me a mim, pinto-nos a nós com as cores de um crepúsculo tão nosso, meu amor.


Estranho, deves pensar. Mas, sabes? Resolvi seguir o teu sonho e comecei a pintar. Um dia, acordei a pensar em ti como todos os dias desde que partiste, saí de casa, fui à lojinha de artes que fica no fundo da rua e comprei guaches e aguarelas, pincéis, telas e cavaletes. No lugar da sala criei um atelier, nas paredes estão os quadros que fui pintando ao longo dos tempos. Um dia, se voltares, mostro-te a tela que me ofereceste, incompleta, onde estão desenhados os nossos corpos. Quase consegui terminá-la e está exposta junto à janela que dá para o jardim, perto das tuas searas. Todos os dias olho para ela, admiro-a durante horas a fio como que a imaginar o momento em que, juntos, pintaremos o cenário que lhe falta. 


Pareço um miúdo enamorado como quando me apaixonei por ti naquela tarde, há quarenta e quatro anos atrás. Lembras-te? Éramos tão jovens e eu, muito mais que tu. Será que um dia estarei cá para ver-te chegar? Se esse dia acontecer, deixo-te esta declaração de todo o meu amor por ti e que nunca chegaste a perceber, ou a acreditar. 


E agora, que me resta? Restam-me flores, aromas, sabores e pinceladas. Cada um(a) dele(a)s é um pedaço de ti e da tua juventude que creio ser eterna porque, dizem, não envelheceste. Olho para o meu auto-retrato, vejo um homem jovem e bonito. Será que também eu não envelheci para te receber, em todo o meu fulgor, no teu regresso? Não. É desvario meu, apenas desvario. E assim ficarei, perdido nesta beleza quase transcendental, completamente só e sem ti, Lauren, minha amada Lauren.


 


Teu até sempre.


 


D.



 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

16 comentários:

  1. Já dizia o grande Vinicius que: "todo o grande amor só é bem grande se for triste"...

    Que bom que é ler-te, respirar e suster a respiração no compasso das tuas palavras e chegar ao fim de alma cheia... Obrigada.

    Um beijo enorme...

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  2. Continuo a amar a tua escrita e continuo a amar ler cada palavra transcreves para este teu espaço que é tão teu.
    Belíssimo post.
    Abraço

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  3. Não deveria ser triste, não é querida amiga?
    E eu é que agradeço as palavras que me deixas.. sempre de apreço..

    Um grande beijinho

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  4. És sempre uma querida, ónix..
    Posso dizer o mesmo em relação a ti e ao teu cantinho :)

    Abracinho grande

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  5. Já tinha lido no telemóvel mas não me ajeito a comentar lá.
    Só posso dizer que senti a dor angustiante de cada palavra, especialmente em "Fazes-me tanta falta" ,"Será que um dia estarei cá para ver-te chegar?" " Será que também eu não envelheci para te receber, em todo o meu fulgor, no teu regresso? "...
    Será que ela voltará Ametista? Ou esses finais felizes só acontecem na Disney?
    Muito bonito o texto Ametista!
    Beijinhos grandes

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  6. Ali em cima falta o "que"...eu e o meu perfeccionismo na escrita. Ai,ai

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  7. Eu percebi
    E não és só tu que és perfeccionista :)

    Bjux

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  8. Acho que os finais felizes só acontecem nas histórias de encantar mesmo..
    Obrigada, Closet :)

    Um beijinho grande

    P.S Impossível viajar na net através do telemóvel. Além de só fazer disparates, não me entendo com aquilo e, uma vez, em segundos gastei uma pipa de massa Ai eu!!!

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  9. artesaoocioso04/10/11, 23:02

    Cara amiga,
    Sei que não sou o personagem deste belo texto.
    Mera coincidência, sou velho, solitário e sonho com amores com cinquenta anos.
    Isto permite-me sentir cada palavra.
    O regresso de férias vem com grande inspiração
    Cumprimentos

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  10. artesaoocioso05/10/11, 16:32

    Cara amiga,
    Como o seu personagem também sou velho, solitário e sonho com amores (fantasmas) de há cinquenta anos.
    Sou um plagio tosco do seu personagem, não sei pintar, nem tenho os talentos dele e seus.
    Gostei muito.
    Um abraço

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  11. Caro amigo,
    Pois eu acho que tem muito talento, não gostasse eu de lê-lo.. a si e às suas histórias..
    Obrigada pela sua extrema simpatia :)

    Um grande abraço

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  12. Como eu costumo dizer, amor sem sofrimento não é amor verdadeiro. Amar dói e logo conforta, eu sei que amar leva a sofrimento, mas eu quero amar

    Beijinhos

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  13. artesaoocioso22/10/11, 17:19

    Cara amiga,
    Agradeço o seu amável comentário.
    Peço desculpa de ser lacónico mas a saúde (falta dela) não está a ajudar.
    Um abraço

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  14. Lamento que o seu estado de saúde não seja favorável..
    Desejo-lhe rápidas melhoras, amigo, e agradeço-lhe por ter passado..

    Um abraço

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  15. Mas podia ser uma dor suave, certo? Para quê sofrer? Ninguém se entende, é o que é, e há quem confunda os sentimentos :(

    Beijinhos

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  16. Quem ama sofre, mas também te digo que poucas pessoas sabem o que é amar. Amar é sofrer pela ausência, sofrer pelo mal estar do outro, etc, tudo o resto não faz parte do sofrimento por amor e aí sim, confundem-se sentimentos

    Beijinhos

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