
(imagem retirada de: google imagens)
As notas de música estavam lá, escritas em pautas brancas, mas não se viam. Tudo lhe parecia oco e, ao mesmo tempo, tão cheio de cenários escurecidos pelo fim dos tempos.
As paredes eram de vidro e as prateleiras de cristal onde centenas de livros dormiam, ordenados no pó do esquecimento. A um canto do salão, um piano negro de cauda onde mãos sem dono tocavam para uma plateia de lugares vazios. Sobre as teclas, véus sem corpo faziam soar a música num murmúrio distante como que numa marcha fúnebre e, de pé, vultos sem contornos aplaudiam.
Os rostos não tinham expressão, eram insípidos, os olhos não viam e as bocas não falavam. Apenas gestos indecifráveis, dedos que tocavam os intervalos e passos que quebravam o silêncio, desfolhando páginas e páginas empalidecidas de livros adormecidos, tantos, sem letras nem palavras.
Os vultos iam saindo da sala sem tecto num alinhamento compassado e riam e sorriam em tom débil, de máscara posta, como que num baile carnavalesco.
Os acordes compostos ecoavam tilintantes e, ao fundo do salão, vislumbrava-se uma silhueta, apenas uma, envolta em folhas de papel em branco que iam caindo em marcha pelo chão, soltas pelas asas de um condor que esvoaçava na imensidão de um céu que não havia.
A silhueta procurou por todos os lados algo com que pudesse escrever mas não encontrou, queria deixar na memória dos que restassem tudo a que acabava de assistir. E quis tanto preencher as páginas vazias e construir uma história ou talvez um livro que, subitamente, ao tocar numa das folhas com avidez, sentiu um ardor que lhe rompia os dedos e viu que era tinta permanente.
E assim formou letras, desenhou palavras e não parou de escrever até se lhe ferirem as mãos. E continuou a esculpir cada imagem, cada gesto, cada detalhe, cada momento vivido naquela passagem desconhecida, mas tão soberbamente amena.
O tempo passou e ela ficou sentada no mesmo lugar, junto ao mesmo piano e à plateia de cadeiras vazias, perto dos livros esquecidos e envolvida em páginas sem enredo, onde palavras vãs se misturavam com imagens por decifrar.
E estava só, os vultos não se viam, os véus não existiam, não havia rostos nem mãos. Mas as pautas de música permaneciam sobre as teclas do piano, continuavam sem notas escritas, e os acordes voltaram a tocar soando de uma forma mágica.
Sentiu-se levitar e transportou-se para a esfera aberta que amparava o tecto rasgado do salão e o adornava, entrou na alma mais perdida que encontrou e vagueou até alcançar um ventre em gestação.
Lembra-se que acordou amarrada a um cordão umbilical que acabou por ser quebrado. Lembra-se que chorou como choram os que nascem e, até ao despertar das lágrimas dos que ainda nada sentem, entrou num mundo desigual. Tentou recordar a outra vida, um passado intransponível que ainda lhe pertencia, mas não conseguiu. As imagens surgiam-lhe turvas e obscuras, tudo era vago e sombrio.
Afinal, quem fora ela para além de nada ou de ninguém? Cinza, restos de outras almas, fragmentos de uma vida que ninguém viu acontecer?
Nunca chegou a saber se esteve lá ou se existiu, naquele lugar sinistro e misterioso, apenas lhe veio à memória uma passagem ténue e enigmática. O que mais lhe transparecia era o levitar, aquele que sentiu, como num cenário de feitiços onde o corpo se sustém no espaço e nunca cai.
E tudo não passou de uma página em branco pincelada de negro aveludado, onde marcou as palavras e as imagens que compôs e se apagaram num tempo que nunca chegou a existir, num lugar sem morada assinalada.
(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)
Penso que "Sublime", será a palavra que melhor define este texto, que li ontem e me deixou sem palavras. Reúne em si mesmo todos os ingredientes para que me faça arrepiar os pelos. Uma escrita brilhante, música e alma...
ResponderEliminarParabéns, Leonor! Cada vez mais fã ;)
Beijinho
Ametista, pelos vistos não sou a única a inspirar-me ao som do piano, só que a minha inspiração não chegou nem perto dos calcanhares da tua!
ResponderEliminarLindo!
Como agradecer, Natacha? Não sei como, sinceramente.. perante tamanho elogio..
ResponderEliminarQuanto à tua escrita, já sabes a minha opinião.. também tu tens amor às letras..
Muito, mas muito obrigada..
Um beijinho :)
Não digas isso, que até me sinto mal..
ResponderEliminarNa Fábrica há sempre inspirações que se assemelham, mas as histórias são sempre bem diferentes..
Muito obrigada por passares e teres gostado.. vou lá ler a tua história..
:)
Olá, SDaVeiga
ResponderEliminarFui ao teu cantinho para ler a tua história e deixar a minha opinião, mas não tenho permissão para comentar.. será da configuração? Por exemplo, consigo comentar a Natacha, que também é da blogspot..
Continuando.. fica aqui a minha ideia..
Gostei muito, mesmo muito, da tua folha em branco..
Tantas vezes se escreve de forma semelhante, com os mesmos sentidos, com inspirações idênticas mas nunca de igual forma. Como disse na resposta anterior, as histórias acabam sempre por ser diferentes.. o importante é sermos nós próprios a escrever.. que fazer se há coincidência nos substantivos, adjectivos ou formas de expressão, etc..?
Para além disso, a tua história nada tem a ver com outra qualquer.. é tua e apenas tua.. e o que é nosso é original e isso ninguém nos pode tirar..
Um beijinho
Não há... quero dizer ao Mundo, que não há, houve, ou haverá Poeta capaz de escrever sobre ti, porque estes que te lêem não sabem que para além da arte das letras, existem tantas outras em ti.
ResponderEliminarQuero dizer ao Mundo que sabe das tuas letras, que existem telas tecidas pela tua imaginação, que quando danças o silêncio faz-se música ... e que os teus olhos têm o alento de um abraço...
E a ti queria dizer-te ou escrever-te, quem me dera saber poesia... o orgulho indubitável que sinto por fazeres parte da minha história, brindo a ti minha amiga, porque nascem mil poetas e nenhum sabe dizer-te ... como eu te sinto...
Será que vivemos mais que uma vida? A eterna pergunta que não tem resposta. Não encontro palavras para este texto maravilhoso escrito com uma inspiração quase desmedida. O tema que foste buscar é simplesmente fantástico e a maneira como o descreves deixa-me a meditar a a imaginar... a foto é assim soberba! Muitos parabéns.
ResponderEliminarBeijinhos
Pois é Ametista...
ResponderEliminarA gente que levite ao som de notas que só tu conheces e dos passos que a menina aqui nos vai deixando e nos faz a rodopiar na tentativa de acompanhar a tua dança de palavras.
Que dizer?
Melhor ficar calada para não sair mais asneira
Adorei.
Minha querida Quimera, amiga da minha alma, tu sabes escrever tão bem poesia como o fazes em prosa.. tudo em ti também é arte.. em movimento, lembras-te?
ResponderEliminarHá versos nos teus sentidos, a tua alma é um poema.. e eu orgulho-me de fazer parte da tua história.. também tu fazes parte da minha..
E mais.. tu és um desses mil poetas e dos únicos que sabem dizer-me, sim, o que sentes..
Acabo de brindar a nós e à nossa amizade eterna..
Obrigada..
@doro.ti
Não há resposta, mas se acreditarmos.. eu acredito que sim, que vivemos muitas outras vidas.. o eterno mistério por desvendar..
ResponderEliminarLembrei-me de um piano e o resto fluiu.. percebes-me..?
A foto é sublime e as restantes que estão naquele endereço são igualmente belas..
Beijinhos mil
Nunca fiques calada, porque nunca te saem asneiras.. antes pelo contrário.. as tuas palavras confortam-me, querida Flor..
ResponderEliminarQue dizer eu se, no teu espaço, levito por entre os momentos maravilhosos que nos proporcionas..
Obrigada..
Um grande beijinho :)
Podem chamar ou classificar este texto como quiserem, para mim, ele é pura poesia, e ao mais alto nível!
ResponderEliminarOlá
ResponderEliminarLindo este texto que escreves, simplesmente espectacular, gostei muito amiga
Beijinhos
Poético...é a palavra certa para este texto:)))
ResponderEliminarNão sei se já te disse mas escreves maravilhosamente bem:)))
Beijinhos
Muito obrigada, Cláudio..
ResponderEliminarEste é um grande elogio, vindo de uma pessoa que escreve maravilhosamente bem..
Que dizer mais..?
Qualquer dia, fico vaidosa :)
Ondinha, sempre à pressa eu.. menos quando escrevo.. ups!
ResponderEliminarObrigada, és um querido..
Beijinho grande :)
Acabaste de dizer e não sei como agradecer..
ResponderEliminarReforçando as palavras que deixei no teu cantinho, a tua história comoveu-me imensamente..
Magnolia, obrigada por passares..
Um beijinho :)
O prazer foi todo meu:))
ResponderEliminarBeijinhos!!!
Então continua sempre sem pressa de escrever porque é uma dádiva aquilo que escreves
ResponderEliminarBeijinhos
Vou ficar vaidosa, ai vou vou.. com tantos elogios por entre palavras doces..
ResponderEliminarNão, não fiques vaidosa, fica antes orgulhosa pelo reconhecimento E podes corar, não há nada mais encantador do que ver as faces a ficarem rosadas
ResponderEliminarFica bem e bom fim de semana
Pois eu cá não gosto nada, mas aqui sabe bem.. ninguém nos vê, por isso posso corar à vontade
ResponderEliminarÉs um querido, ondinha
Sim, às vezes não é muito agradável para quem sente, mas para quem assiste é muito engraçado Agora sou eu a corar
ResponderEliminarBeijinhos
Ametista, desculpa a resposta tardia, mas só agora vi que comentaste...
ResponderEliminarTenho que perguntar à Natacha e ao Cláudio quais são as definições deles, mas deduzo que seja por deixarem comentar anónimos... Acho que vou ter que mudar isso!
Obrigada pelas tuas palavras tão lindas, mas olha que a nossa coincidência de pensamento não se resume a esta história... também no Post Scriptum eu ía escrever algo do género "fim da carta e PS a seguir", mas mudei de ideias porque te li primeiro!
E a cena dos gatos pretos... Será essa a explicação do mesmo comprimento de onda?
Bem, só sei que tenho pena de não receber as tuas respostas no e-mail como acontece no Blogger, mas a ver se te venho visitar mais vezes.
Beijinhos, bom fim-de-semana e boa Alma Gémea! ;-)