18 fevereiro, 2011

Post-Scriptum

...


 


Mais ninguém conseguirá preencher o lugar que te pertence. Adoro-te a ti.
Tua até sempre.


 


Laura


 


P.S. Fechei, há algumas horas, o envelope onde ficou guardada esta carta que escrevi em Dezembro de há dois anos. Quis pô-la na caixa de correio mas evitei, talvez porque te reencontrei ontem e senti que não são apenas aquelas as palavras que queria deixar-te. Algo me deteve porque há mais, muito mais, e é tanto o que quero dizer-te que a caneta treme na minha mão, por entre os dedos que nunca ousaram tocar-te diante das multidões.


Queria escrever-te mais uma carta, uma outra que não esta, mas prefiro acrescentar em post-scriptum o que o meu coração dita e como dança a minha alma mas, desta vez, sem falar de corações destroçados, de sentimentos desencontrados. Queria escrever-te uma carta, sim, mas diferente, construída de palavras doces e coloridas, sem mágoas nem lágrimas.


Não quero contos sobre confissões do que senti por ti, dos gritos silenciosos de um amor que durou demasiado tempo, tanto que não sei quanto. Não quero histórias que ficaram entre o partir e o ficar, sem princípio, meio e fim.


Sabes? Gostaria de falar-te de outras coisas. De sonhos, de desejos, de fantasias que foram preenchendo as horas dos meus dias.


Gostaria de falar-te da beleza que ficou por descobrir, dos passeios que ficaram por concretizar, do tanto que tivemos por inventar, das coisas mais simples da vida que deixámos por partilhar.


Queria dizer-te, até, que poderíamos ter alcançado o inatingível. Sabes que através dos sonhos tudo se torna possível? O nosso imaginário consegue chegar até onde a nossa alma nos levar. E tudo se torna tão bonito.


Posso contar-te que, juntos, já caminhámos à beira mar numa praia deserta, contemplámos o por de sol num fim de tarde de verão sentados na areia. Mergulhámos, lado a lado, numa onda branca e conseguimos tocar os mais belos corais no fundo do mar. Depois de admirarmos um mundo de mil cores onde conseguimos absorver o irrespirável, nadámos encostados um ao outro até à superfície dos oceanos. Para lá das águas cristalinas, sentimos o sol de um dia acabado de nascer que encheu de luz o nosso o rosto.


Lembras-te da nossa dança na praia? Aquela que ficou por inventar? Conseguimos ondular os nossos corpos e enlaçámo-nos numa agitação lenta dos sentidos. Em redor de nós, a melodia do mar cruzou-se com o cântico das gaivotas e, antes de partirmos, desenhámos o nosso nome na areia. Sabes? Ainda sinto o sabor a sal que ficou na nossa pele.


Juntos, percorremos estradas limpas e frescas, caminhámos de mãos dadas devagar por entre montes e vales, subimos colinas, saltámos nas pradarias. No final, descansámos abraçados debaixo de uma árvore no bosque secreto que guardou os nossos beijos. Consegues sentir o aroma das flores campestres? Tenho uma guardada nas páginas do livro que escrevi para ti.


Gostaria de falar-te do quanto acreditei que tudo poderia ser possível. Da esperança de ver-te chegar com uma rosa vermelha na mão e um brilho no olhar. Dos teus braços abertos para me levarem até ao mais alto dos rochedos e, de lá, admirar contigo a mais sublime das paisagens. Das semanas a viver-te por completo, dos meses de partilha, dos anos a teu lado com sorrisos.


Queria pegar nas palavras que te escrevi e declamar-tas num poema eterno. Queria recitar-te, num cenário de neve a cair numa noite de Dezembro, o que a minha alma viveu por nós.


Gostaria finalmente de confessar-te neste meu post-scriptum que, ao reencontrar-te, senti confiança. Era isso que queria dizer-te, mas perdi-me na fantasia das palavras e deixei-me levar pelo sonho.


Fica a última parte, a essencial e que pretendo fazer chegar até ti num manifesto impetuoso, pela injustiça angustiante do que nos foi destinado. É a declaração da coragem que sinto emergir do mais fundo do meu ser e me rasga as entranhas. Coragem para gastar a minha voz num grito e exclamar, de coração aberto, que renasceu a minha capacidade de lutar. Lutar, mas desta vez, por mim. Porque agora, mais do que nunca, quero recuperar a minha liberdade. A de ser feliz.


 


Concedes-me esse direito?


 


Laura


 


 


(Texto escrito em 9 de Dezembro de 2009, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

28 comentários:

  1. Uma bela despedida!
    Muito bonito Ametista, e bem sentido!

    Bom fim-de-semana!

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  2. É impossível ficar indiferente às tuas palavras e à tua maneira de escrever...e sim, devemos lutar sempre por nós mas fica a pergunta: será que lutámos o suficiente por alguém que nos poderia ser feliz??
    Beijinhos para ti

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  3. Leonor...

    Não queria voltar a repetir-me, mas na verdade fica difícil quando te leio e me revejo, ainda que num momento anterior da minha vida.
    Penso que a nossa maior vitória é ultrapassar as nossas dores, enfrentando, de peito aberto. Essa é a minha opção sempre, não fujo, não me escondo, e assim estarei sempre de bem comigo própria, ainda que sofrendo...

    Beijo grande

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  4. Queria dizer "fazer" e não "ser". Upsssss

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  5. Passei,timidamente, por aqui e fiquei encantado.
    É magnifica.

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  6. «Sabes que através dos sonhos tudo se torna possível?»
    Essa é a magia e a liberdade plena de quem tem a capacidade de poder sonhar. Quem sonha é livre, quem escreve também.
    Mais um texto de uma profundeza esbelta. Parabéns.

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  7. artesaoocioso23/02/11, 19:24

    Recuperar a liberdade... ser feliz.
    Depois de um amor pode vir outro, sem ser prisão.
    Gostei muito do texto .
    Cumprimentos.


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  8. Muito obrigada.. e aproveito para dizer que gostei muito da tua história e de toda a ternura que depositaste nas palavras.. Parabéns!

    P.S. Desculpa só responder agora mas, infelizmente, o tempo tem sido pouco, muito pouco..

    Um beijinho

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  9. Será, manuska? Por vezes sim, por vezes não..
    Obrigada, és uma querida..

    Abracinho grande :)

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  10. Olá, Natacha.. esta semana atrasei-me (malvado tempo) nas respostas e nos agradecimentos bem como nos comentários às histórias tão maravilhosas que o(a)s operário(a)s deixaram.. todas elas, sem excepção.
    Sem dúvida que é uma grande vitória superarmos aquelas fases angustiantes que nos deixam mágoa, aquela que quase não conseguimos descrever.. e estou contigo.. enfrentar, assumir e declarar (por vezes torna-se difícil).. o sofrimento está lá à mesma.. que fazer..?

    Obrigada e um beijinho grande :)

    P.S. Já li a tua história, mas vou ter de reler para comentar convenientemente..

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  11. Quem por aqui passa é sempre bem vindo..
    Muito obrigada e volte sempre que quiser, sempre que lhe apetecer :)

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  12. Somos livres, sim, de alma.. já que quase não temos liberdade, o sonho faz com que ela permaneça e nos ajude a voar através dos sentidos, das palavras e para lá do nosso imaginário.. isso, ninguém nos pode tirar..
    Obrigada, Cláudio :)

    Um beijinho

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  13. Olá Ametistazinha Espero que esteja tudo muito bem contigo Gostei muito deste texto que nos deixas e vou dizer o mesmo que disse à tua Mana...tenho saudades das cartas escritas à mão, do ir a correr pôr a carta no marco do correio e a espera ansiosa pela resposta...

    Beijinhos

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  14. É um prazer tê-lo por aqui..
    Muito obrigada por passar, muito obrigada pelas palavras..

    Cumprimentos

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  15. Ondinha, amigo, não sei para que lado me virar.. o tempo é traiçoeiro.. enfim..
    Saudades das cartas escritas em papel.. tantas..
    Espero que estejas bem..
    Obrigada..

    Um beijinho grande para ti e outro à mana :)

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  16. Quando tiveres um tempinho, hás-de tentar comentar outra vez, OK?
    Se não der, escreve aqui para eu ver.
    :-)

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  17. Olá Eu sei, o tempo é muito curto, mas não faz mal, importante é estares bem Sim eu também tenho muitas saudades delas
    Os teus beijinhos serão dados

    Beijinhos também para ti

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  18. Sempre textos vindos da alma. E sempre um prazer vir-te ler:)))

    Um beijinho e bom fds:)
    Cláudia

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  19. Olá querida e doce Ametista

    Adorei o teu texto, é lindo!! Tens razão quando dizes que devemos lutar por nós mesmas para sermos felizes.

    Espero que estejas bem, amiga.
    Beijinhos

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  20. Puxa, magnolia, obrigada..
    O fim de semana já passou (foi a trabalhar) e atrasei-me nas respostas..
    Esta semana não participaste.. :(

    Boa semana para ti :)

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  21. Amiga gotinha,
    Se não formos nós a fazê-lo ninguém o fará por nós, com toda a certeza..
    Também espero que estejas bem..
    Obrigada :)

    Um grande beijinho

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  22. Eu sabia que tinha de dar!
    :)

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  23. Siiiiiiiiiiiiiiiiiim! ;-)

    Obrigada por não teres desistido.

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  24. Tempo eu preciso sempre de tempo para comentar os teus textos, tempo ... e "água" esta por acaso é do Dão...
    Não consigo ler-te de uma forma leviana, preciso de tempo... ambiente ... tenho uma estúpida necessidade de acolher as tuas letras em minha casa de uma forma perfeita...e é sempre pouco... sempre muito pouco...

    Nuvens Branquinhas e Quimeras

    @doro.ti

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  25. Só tinha de ser persistente para conseguir comentar-te, não é verdade?

    Beijinho :)

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  26. Minha querida Quimera,
    Compreendo-te na perfeição.. o tempo corre veloz (como se não tivesse sido sempre assim!)..
    E, tal como tu, também gosto de ler devagarinho, entrar nos textos e colocar-me nos cenários..
    Saudades de ler-te.. onde estão as tuas histórias para a Fábrica..?
    Amiga de minha'alma, um grande beijinho do Ribatejo :)

    @doro.ti

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