Silêncio. Quero silêncio, diz a minha mente ensurdecida pelo sopro arrogante do vento que entra, num tumulto, pelas frestas da minha casa quase vazia e sem cor.
Mas o meu silêncio é astuto e intocável, envolve a minha solidão como uma bruma, veste-me de cinza e purifica de uma forma enganadora o meu corpo enegrecido pelas multidões.
E eu quero viver depressa, mas o meu silêncio assusta-me. É oco como o sossego que me acolhe, melancólico como a inércia dos meus gestos, funesto como os meus fantasmas mais recônditos, vago como a minha apatia pelos amanheceres no asfalto.
Eu quero silêncio, sim, mas tenho medo. Medo da sombra deste silêncio sedutor que atraiçoa as horas das minhas noites, ganha voz a cada segundo dos meus minutos e me segreda num beijo que tento evitar:
- Escreve sempre que o teu coração palpitar e a tua alma ditar, mas em silêncio. Tacteia as palavras no papel e deixa-te ficar aqui, onde a beleza do nada te sustém. Porque a sombra de que falas sou eu e chamam-me cegueira. A cegueira que se alimenta dos teus passos que dançam na procura da música que deixou simplesmente de tocar. É esta a melodia do silêncio, a do teu silêncio.
E o outro eu, o que não fala mas ouve e vê, geme num sufoco que ecoa pela casa e a sombra cega pára, atenta, ao meu lamento que se solta:
- Mas eu quero o silêncio das areias. É brando e cristalino, salpica-me a pele e a alma com a frescura das marés nos fins de tarde.
(Texto construído para a Fábrica de Histórias à volta do provérbio: Não é o sol que faz a sombra)
imagem retirada de: http://fotos.sapo.pt/
... ultimamente comecei a apreciar mais o silêncio ... mas confesso que isso me assusta ... tenho receio que este silencio agradavel um dia se transforme neste tipo de silêncio assustador que descreves ...
ResponderEliminarBjs
Olá, Green
ResponderEliminarO pior é se nos habituamos a ele.. ao lado bom do silêncio.. desde que não se transforme em solidão, não é?
O tempo também não tem ajudado nada.. talvez por isso andemos a apreciar mais o dito silêncio.. porque o ruído ensurdecedor do dia a dia cansa tanto..
Obrigada por passares :)
Um beijinho
Por vezes, o silêncio torna-se ensurdecedor...
ResponderEliminarGostei muito!
Um beijinho
Muito bom! Juro!
ResponderEliminarBjitos! *
ResponderEliminarOlá querida Ametista!
Durante anos achei o silêncio bem confortável. Ainda acho que necessitamos de momentos de silêncio.
Neste momento não sinto tanta necessidade desse silêncio, mas gosto desses momentos.
Beijinhos grandes
Olá, Natacha
ResponderEliminarVerdade.. porque o silêncio também tem voz..
Obrigada..
Um beijinho
Hi, obrigada mesmo..
ResponderEliminarTenho de passar no teu cantinho com calma.. maldito tempo :(
Jinho :)
Querida Gotinha,
ResponderEliminarÉ bom ficarmos em silêncio.. mas não nos devemos acostumar, porque podemos ficar dependentes dele e isso não é nada bom.. corremos o risco de passarmos a ser autênticos 'bichos do mato' (no bom sentido, claro).
Beijinhos mil com saudade :)
Olá
ResponderEliminarDe facto não é o sol que faz a sombra, a sombra é originada por um eclipse, o qual faz tapar parte do sol Que o sol brilhe para ti com todo o seu esplendor e que a única sombra que exista seja a tua na areia
Beijinhos
Olá, amiguinho
ResponderEliminarTantas vezes surge a sombra.. e não é o sol o causador, com toda a certeza..
Espero que estejas bem..
Obrigada :)
Um beijinho
Claro que não o sol apenas nos dá o calor e a luz necessária à nossa existência Espero que também estejas bem.
ResponderEliminarBeijo
Mais uma vez acho que não não tenho capacidade para comentar o que acabo de ler.
ResponderEliminarQue mais poderei dizer??? Fica sempre aquele aperto no coração e um nó difícil de desfazer.
Escreves como ninguém. Que tal um 2º livro???
Bjinhos
Já disseste tudo, minha querida ónix.. o que vale é que, por aqui, não me vêem corar..
ResponderEliminarUm 2.º livro? Eu gostava muito, ah se gostava.. :)
Obrigada, manuska
@doro.ti
Vou estando, amiguinho
ResponderEliminarObrigada
Tu escreves maravilhosamente.
ResponderEliminarMuito obrigada.
ResponderEliminarPena que não se identifique