31 janeiro, 2010

Palavras para uma imagem - Notebook, a minha versão


 


Ele e ela dirigiam-se a casa depois de uma agradável ida ao cinema. O filme a que tinham assistido tinha-lhes transmitido um estado de alma intenso. Caminhavam em silêncio e, ao aproximarem-se do semáforo que cruzava a rua principal da cidade com uma outra qualquer, ele deu-lhe a mão e puxou-a para junto de si. Ficaram tão perto um do outro que os seus lábios quase se tocaram. Naquele instante, o sinal estava vermelho e ele convidou-a para dançar.


Sem música?, perguntou ela em tom de timidez. Eu canto para ti, respondeu ele e, num gesto lento, enrolou-a de encontro ao peito conduzindo-a até à estrada. A rua estava deserta, o silêncio era de ouro. Observaram o semáforo passar a verde enquanto davam início a uma dança na estrada. Ele cantarolava qualquer música lenta enquanto os seus corpos se enlaçavam na mais perfeita harmonia. O sinal mudou de cor, passou de verde a laranja, a dança parou, olharam-se de perto e deitaram-se na estrada, lado a lado. As suas mãos cruzaram-se enquanto o vermelho do semáforo despontava, olharam as estrelas, identificaram cada uma delas sobre um chão frio que refrescava os seus corpos quentes, ávidos de aventura. Perderam a noção do perigo, permaneceram deitados sob um céu que deixava mostrar uma lua prateada, autêntica confidente de um momento que não queriam que acabasse.


O sinal passou a verde, sentiram um carro aproximar-se a alta velocidade e levantaram-se rapidamente. Saltitaram até ao passeio, as mãos continuavam dadas enquanto automóveis vindos de longe passavam apressados. Abraçaram o semáforo que ia mudando de cor, soltaram gargalhadas e voltaram a tocar-se numa dança lenta em redor do sinal de trânsito. Os risos deram lugar a sorrisos ternurentos.


Sentiam-se livres para desafiar o destino. O amor entre eles nascia agora, por entre um perigo e uma aventura que se encontravam entre o proibido e o devido. Era urgente permanecerem no intermitente, um intervalo que deixava o tempo parar e guardar nas folhas de um diário uma paixão que começava a ganhar as cores de um qualquer semáforo de rua.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

6 comentários:

  1. Às vezes é preciso arriscar. É preciso que o coração parta em cavalgada para nos fazer sentir que há mais vontade, há mais, muito mais dentro de nós.
    Gostei da tua fantasia.

    (Mas não arrisques onde o condutor não és somente tu e ele . Não seria fácil que outros parassem apenas para ver a vossa felicidade. Andamos todos demasiado distraídos e ocupados.)
    +

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  2. Mana
    Surpreendes-me sempre com a tua escrita que me enfeitiça. Tão lindo e ternurento, este texto. Claro que também tem aquela situação de risco que por vezes é preciso correr para se atingirem momentos de felicidade.
    Mas olha que este risco foi grande como grandes são a tua imaginação e sensibilidade.
    Adorei!!
    Abraço grande

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  3. Minha querida Ametista...

    Senti um renascer das asas perdidas no teu texto...
    Senti a adrenalina, a fúria de viver, o desejo e o desatino daqueles que não se detem por luzes vermelhas...É INCRIVEL como me sinto lá, como são vívidos os aromas, como é possível o despertar dos sentidos a Cada LETRA tua...

    Grandes Asas nunca se perdem...
    Sintra abraça-te com saudade ...

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  4. Querida Flor,
    Arrisco através da imaginação. Mas confesso que são muitas as vezes em que gostaria de desafiar o destino e guardar momentos assim...
    Obrigada por passares... a tua visita faz-me bem...

    Flores para ti... muitas

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  5. Minha querida ónix,
    Sabes que, como disse à Flor, são muitas as vezes em que gostaria de arriscar, de desafiar o destino e conseguir alcançar momentos de felicidade como este...
    Bem, tenho de sair da nuvem, n'é verdade?

    Beijinhos... muitos, manuska

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  6. Minha querida Quimera,
    Voei até à nuvem mais alta... queria arriscar, ó se queria... gostaria mesmo muito... mas tenho de descer da nuvem, porque posso perder as asas...
    Fico-me pela imaginação do desafio ao destino...
    Obrigada, amiga da minha alma

    @doro-ti

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