06 outubro, 2009

Aqui, de onde vos escrevo...


 


Aqui, de onde vos escrevo, sente-se um aroma tradicional do incenso que vou espalhando pela casa.


Tu entras devagar, à tardinha, beijas-me a testa em sinal de apreço e deixas-me divagar.


Os meus dedos dançam por entre as teclas do computador da secretária colocada num recanto da sala ampla onde tu, sentado no sofá chaise-longue de tecido castanho escuro e preto, assistes a um filme romântico.


Inspiro-me ao som da banda sonora, uma música sublime de Jack Nitzsche. Observas as paredes cruas decoradas com telas criadas por mim, umas abstractas outras paisagísticas, que contrastam na perfeição com a arte africana que as completa.


Do outro lado da sala, cortinados laranja percorrem a ampla janela de onde avisto o castelo da minha cidade. No final do filme levantas-te, afastas a cortina e contemplas a paisagem num silêncio absoluto.


Voltas a sentar-te, desta vez no sofá amarelo que está junto à janela, coberto de almofadas pretas e laranja, e poisas os pés na alcatifa que cobre parte do chão em tijoleira. Tem um misto de cores que embeleza o espaço. Castanhos, bordeaux, laranjas.


A meio da sala, pendurado no tecto, um espanta espíritos. Metade sol metade lua, deixa soltar aquele som peculiar de quando se entra numa típica loja chinesa de antiguidades. Levantas-te, consegues tocá-lo com os teus cabelos e o tom das canas de bambu acaba por soar.


Olhas o cavalete a um canto da sala com uma tela de nós meio pintada. Aspiras o cheiro suave a guache e pegas num pincel. Sentes a tinta ressequida e perguntas-me porque não voltei a pintar. Encolho os ombros, permaneço nas minhas divagações e tu aproximas-te de mim. Enrolas os teus braços no meu pescoço, beijas-me o cabelo e deixas-me ficar, absorta, na minha escrita.


Há velas, muitas velas. Acendes uma com aroma a baunilha e eu inalo o cheirinho doce que me acalenta a alma e me faz sussurrar as palavras que escrevo.


Escolho a música que me faz voar e aumento o volume da aparelhagem escondida na parte inferior da secretária onde me sento. O Purple Rain de Prince quebra o silêncio que existe entre nós e eu escrevo, sem parar. Surgem imagens vindas do meu imaginário, nascem  histórias que lanço para vós.


Passeias pela sala e eu continuo aqui, no mesmo lugar. Paras junto ao móvel de cerejeira maciça, frente ao sofá chaise-longue, onde estão arrumados os livros que trouxe de casa da minha mãe. Alguns de poetas e romancistas que admiro, outros que me transmitem algo. Pegas num daqueles onde mora o meu nome, romances escritos por mim com onze anos apenas.


Folheias o álbum de fotografias, arrumado numa das prateleiras, que guarda as minhas melhores recordações e abres um baú de madeira onde arrecado momentos. Ao lado, um poema emoldurado da minha avó dedicado a mim.


Há um candeeiro de pé alto num dos cantos da sala, que ilumina baixinho os retratos expostos numa pequena camilha. Uns meus, outros de quem me é querido, onde estão marcados os nossos sorrisos. Agarras em cada um deles e sorris também.


Passam as horas, pegas no puff preto colocado sobre a alcatifa multicolor e sentas-te a meu lado. Encontras uma folha de papel amarelecida pelo tempo, perdida no porta revistas de ferro forjado pousado no chão entre o cavalete e o sofá amarelo, e lês aquela carta antiga que escrevi para ti.


Agarras-me a mão com uma força excessivamente grande, admiras a sala de uma ponta à outra, murmuras a palavra oriental e desapareces no silêncio da noite deixando no ar um rasto de ti.


Aqui, de onde vos escrevo, a saudade tem cor e presença. Aqui, neste meu cantinho, escrevo por entre luz, aromas, sons, pinceladas, memórias e fantasias.


 


 


(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

14 comentários:

  1. (...) E de dentro dos meus olhos nascem lâmpadas acesas. como se fossem manhãs a acabar em noites (...)
    Um beijo

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  2. Tão bonito...
    Obrigada :)
    Beijinho

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  3. Daqui onde te leio ficam os aromas, as cores, o momento, a luz que entra da janela afastada das cortinas, mas principalmente a calma e saudosa melancolia que colhi nas tuas palavras.
    Adorei.
    Beijos para ti e

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  4. Obrigada...
    Escreves tão bem, querida Flor... não queres juntar-te ao grupo de operários da Fábrica de Histórias?
    Beijinhos lunares... muitos pra ti

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  5. Que recebas nesse teu cantinho acolhedor "aromas" e "pinceladas" de felicidade!!
    Sinto-o!!!
    Fico a aguardar o teu livro com esta prosa maravilhosa com que nos tens presenteado!
    Beijos, mana. Adoro-te!

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  6. Mais um esplêndido texto pra a Fábrica. Estou a trabalhar no meu, também :)
    Quanto ao que disseste, esperemos que seja mesmo assim. Aliás, esta história parte do meu primeiro romance, muito infantil ainda, que escrevi quando tinha 13 anos. Xadrez é uma continuação mais madura, utilizando as personagens que cresceram comigo :)

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  7. Hi, mana... sinto-me assim... babada com palavras tão cheias de cor...
    Bigada...
    Adoro-te a ti também

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  8. Obrigada, Flautinha...
    Quanto ao teu romance, vai crescendo com uma força sem tamanho...
    Mais interessante se torna por sabermos que as personagens que criaste existem na realidade...
    Beijinhos mil

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  9. Querida amiga Ametista,

    As saudades que tinha dos teus lindos textos. Ao entrar no teu cantinho, senti uma alegria imensa por estar perto de ti. É um bem estar tão grande que me deixa com um largo sorriso .

    Obrigada amiga.

    Beijos lunares para ti

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  10. Fico tão feliz por sorrires, querida Gotinha... mereces tudo de bom que a vida possa oferecer-te...
    Obrigada eu por te lembrares sempre de mim...
    Tão bom ter amigos assim, como tu...
    Fica bem, sim?
    Pedacinhos de céu pra ti

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  11. Olá querida do meu coração. Muito obrigada pelas visitas e pela ternura com que me tratas sempre. Vou andando uma pilha de nervos pela imobilização de já há três semanas enfiada em casa sem mais que ver a rua através do vidro da janela do quarto das minha miúdas, mas obrigado pelo carinho e por tudo o o k me dás...As flores as estrelas a tua vinda que é um bálsamo. Obrigada amiga. um fsemana abençoado.

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  12. Olá, querida
    Não queria que te sentisses assim... porque não tentas sair à rua de canadianas...? Ou não podes?
    Não sei que te diga mais, a não ser que desejo que melhores rapidamente e que não desanimes... dias melhores virão, com toda a certeza... a recuperação das fracturas é sempre demorada mas acredito que, não tarda, tudo voltará ao normal... (fácil falar quem está de fora, não é?)
    Envio-te mais flores... muitas, muitas coloridas e com aroma doce...
    Beijinho grande

    P.S. Fim de semana...? A trabalhar... este mês estou a 'desesperar'...!

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  13. Sublime minha querida Ametista...

    Andei pela tua casa, visualizei - a, senti-a... mas o mais comovente foi sentir o teu sentir ... assim como só tu sabes...

    Deixo-te um comprimido mágico dizem que depois de tomado, transforma sonhos em realidade...

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  14. Hi, Quimera querida, consigo sentir o carinho que deixaste por aqui...
    Ficaram pedaços do teu sorriso... consigo escutar a palavra Amiga que ficou marcada entre nós...
    Fica a minha gratidão expressa em forma de flores... e sol, muito sol pra ti...

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