17 maio, 2009

Encontro desencontrado

A campainha tocou naquele fim de tarde de Julho. Laura abriu a porta e Duarte entrou. Olharam-se durante breves instantes e acabaram num abraço de saudade, longo e apertado.


 


- Que linda.. - disse Duarte numa expressão ternurenta.


- Obrigada - respondeu Laura.


- A casa... mas tu também... - retorquiu Duarte com aquele sorriso matreiro que lhe era peculiar.


Laura acompanhou-o até à sala e sentou-se. Parecia manifestar uma certa timidez mas, ao encostar-se comodamente no sofá, começou a declarar a razão da sua visita.


- Estar aqui é um sonho tornado realidade.


- É verdade o que me dizes ou brincas, como sempre o fizeste?


- Preciso dizer-te a verdade. Fazes ideia de quanto tempo esperei por este momento?


- Não calculo e não consigo sequer imaginar. Este momento parece-me surreal. Mas fala, então.


- Sabes que há muitos anos, era eu miúdo, achei-te linda quando te vi pela primeira vez. E o meu coração bateu.


- Apesar de me parecer impossível, é quase inacreditável que só mo digas agora.


- Naquela tarde estava sol. Recordo-me como se fosse hoje. Estava sentado numa mesa da esplanada da praça... aquela que costumavas frequentar...


- Lembro-me que ia sempre a essa esplanada nos fins de tarde...


- Tu chegaste, alegre e descontraída como sempre, acompanhada de uns amigos que eu também conhecia. Aproximaste-te e sentaste-te.


- É natural. Sempre fui assim, bem disposta. E disse boa tarde com certeza. Digo sempre.


- Disseste. Mas não olhaste para mim. Nunca olhaste.


- É provável. Eras mais novo.


- Sim, era novo e idiota como os miúdos daquela idade. Tu, mais velha e madura, como poderias olhar para mim?


- Tens razão. Não olhei para ti. Não naquela altura. Mas uns anos mais tarde, não me foste indiferente.


- Já lá vão alguns anos, sim. Mas sempre que me aproximava, tu fugias.


- Verdade seja dita. Eu fugia mesmo. Porque quando te encontrei ao fim de tanto tempo e te vi a sorrir para mim, o meu coração bateu mais forte.


- E que razão era essa que te fazia fugir de mim?


- A minha razão. Afastar-me de ti seria a melhor atitude para contrariar o sentimento que começava a germinar dentro de mim...


- Sabes, já passaram muitos anos depois daquela tarde. E outros tantos depois do nosso reencontro. Agora, sou aquilo que vês e já não tenho tempo...


- E eu sou aquilo que sempre fui, apesar das mágoas que foram surgindo ao longo do meu percurso.


- E o destino mudou o rumo à minha vida.


- Não alterou apenas o rumo da tua vida. O destino desviou os nossos caminhos. Existe alguma força superior que não quer que nos juntemos. Lamento por ti, lamento por mim. Lamento por nós.


- Eu também. Muito mesmo.


- És feliz, por acaso? - perguntou Laura sem pensar.


- Tento ser.


- Desculpa dizer-te, mas se tentas ser é porque não o és. Não na sua verdadeira essência.


- Tenho alturas em que sou.


- Tens momentos, o que é demasiado importante. Posso, então, confessar-te uma coisa?


- Sim, podes e deves.


- Foste o meu príncipe encantado. Terias sido até sempre. Foste o homem que quis para ficar a meu lado. Mas transformaste-te num sapo - soltei um riso suave.


- Se pudesse, mudava-me hoje mesmo para aqui, mesmo sendo um sapo - sorriste.


- Nunca. Não quero partilhar o meu espaço com ninguém. As relações saudáveis já não existem. O namoro é mais duradouro, aquele em que cada um vive na sua própria casa.


- Mas estar aqui contigo faz-me esquecer o mundo lá fora. Se bem que agora é tarde.


- Posso perguntar-te porque é que não lutaste por mim, já que o que sentias era assim tão imenso?


- Porque sabia que iria ser em vão.


- Nada é em vão. Há que tentar conquistar quem para nós é deveras importante.


- Não conseguiria. Como já disse, nem para mim olhavas. Eu para ti não existia.


- Disseste há pouco que agora é tarde. Mas nunca é. Não para tentar recuperar o que se perdeu. Não para se ser feliz. Mas, neste caso, até és capaz de ter razão. Provavelmente, é mesmo muito tarde.


- Sim, o nosso encontro chegou a más horas e nada entre nós vai ser possível.


- Sensato da tua parte. Além disso, a nossa diferença de idades é grande e depois eu ficava velhinha. Já tu... - Laura brincou com uma tristeza no sorrir.


- Poderias até ter setenta anos, que eu iria sentir por ti a mesma coisa... - disse Duarte com uma lágrima no olhar.


- Sempre gostaste de brincar - disse Laura com um nó na garganta.


- Não chores agora, por favor - pediu Duarte, com um sorriso triste.


- Não...


- Eu tinha de dizer-te tudo isto, fosse em que altura fosse e em que dia fosse. E foi hoje.


- Mas porquê tantos desencontros? Temos estado tão perto um do outro e ao mesmo tempo tão longe. Porque é que a vida é tão cruel?


- Não sei.


- Podíamos ter ficado juntos. Podíamos ter sido felizes...


- Podíamos, dizes bem. Porque eu não tenho nada para te dar...


- ... - Laura não conseguiu proferir uma palavra.


- Tenho de ir trabalhar. A minha hora de jantar já terminou. - disse Duarte ao olhar para o relógio.


- Mas não jantaste...


- Tinha de falar contigo. E poderia não ter tempo noutro dia qualquer.


- Já vais, então..


- Sim...


 


Laura acompanhou-o até à porta e o seu abraço repetiu-se, desta vez menos longo e mais suave. Ao vê-lo sair teve a certeza de que, depois de tantos desencontros entre ele e ela, um encontro como aquele não voltaria a repetir-se.


 


 


(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

12 comentários:

  1. Melancólico, como aliás o são, todos os desencontros. Mas maravilhosamente bem escrito, como sempre.
    E como deves deduzir, gostei... gostei mesmo deste diálogo que dá que pensar.
    Beijinhos

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  2. Quando há duas pessoas que se desencontram em toda uma vida e mais tarde se encontram ou reencontram, tudo não passa de um total desencontro...
    Estranho... é o mistério de duas vidas que se cruzam e tudo parece surreal... porque não passa disso mesmo...
    Muitos sorrisos para ti, minha querida Ónix

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  3. Onde? Onde começa a ficção e começa a realidade de cada história?
    Talvez, onde pára a escrita do autor e começa a imaginação do leitor?! Será?
    Beijoka

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  4. Olá minha querida querida amiga! Nunca é tarde, mas por vezes a a altura das coisas passa. Magnífico este teu texto. Obrigada por tanto carinho k me dás e eu ñ sei como agradecer-te. Apenas com um cantinho mto especial no meu coração k é teu e de mais ninguém juro! Um milhão de beijos.

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  5. A ficção pode tornar-se uma realidade ou a realidade parecer-nos uma ficção...
    O autor escreve o que vai no seu imaginário ou expressa em palavras uma realidade, mas surreal...
    Será...?
    Beijokinhas para ti

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  6. Querida Sindarin,
    Eu é que agradeço o teu carinho expresso em palavras tão bonitas...
    Sabes... estou sem tempo... queria 'devorar' os cantinhos dos meus amigos, mas o relógio não deixa...
    Vou tentar que seja ainda hoje...
    Espero que estejas bem, minha amiga...
    Beijinhos mil

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  7. Hum...texto fictício...talvez seja.
    Ou talvez não...
    Seja o que for, é bem escrito...muito sentido.
    Beijinhos.

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  8. Será ou não será...? Pode ser ou não ser...
    Secret...
    Obrigada, meu querido amigo, por estares sempre presente e nunca te esqueceres de mim...
    Beijinhos mil... azuis...

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  9. Olá minha querida amiga. Tb gosto mto de Creed. É espectracular. Obrigada pela tua amizade e pela tua presença sempre ao meu lado. Mtos bjs

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  10. Olá, querida Sindarin.
    Músicas fantásticas, vozes maravilhosas, vídeos espectaculares...
    Obrigada eu pela tua amizade e pelo carinho que deixas por aqui...
    Um beijinho grande, grande...

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  11. Olá querida amiga.
    Adorei este texto. Fiquei emocionada, e deixei cair uma lágrima.
    Há desencontros que levam a outros encontros ainda mais bonitos.

    Desejo-te bom fim de semana.

    Beijinhos.

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  12. Obrigada, querida Gota...
    São encontros que não se esquecem...
    Espero que estejas bem e que o fim de semana te faça sorrir...
    Beijinho grande

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