Trago na palma da mão um bilhete de regresso ao meu passado.
Entro no comboio vindo do outro lado da vida, fecho os olhos e viajo através dos tempos. Percorro a alegria da minha infância, a rebeldia da minha adolescência, a turbulência da minha (i)maturidade.
Vou ao encontro de um baú de memórias guardadas, escondido junto à árvore que assinala o meu percurso, na estrada que me foi estendida para caminhar. Em volta, um prado coberto de esperança onde plantei abraços e ternuras. Converso com a árvore que se mantém de pé. Tem nomes marcados que ficaram para sempre.
Desenterro os meus segredos e faço deles uma festa. Chamo pelos meus fantasmas e envolvo-me com eles num baile mágico. Acendemos uma fogueira, damos as mãos e juntos cultivamos raízes de afecto.
Revivo os sorrisos de quem me deu à luz, de quem se uniu a mim em laços de sangue, de quem cresceu comigo lado a lado. Sentados no campo, abrimos o álbum de recordações num gesto de saudade.
Reencontro os rostos das crianças com quem brinquei. Repetimos tudo numa roda viva ao sabor de risos e gargalhadas.
Revejo quem me fez sorrir, quem ouviu a minha voz, quem me deixou chorar e ajudou a secar as minhas lágrimas. Deitamo-nos por entre as flores campestres e libertamos beijos de carinho.
Volto a encontrar os amores que vivi, os amigos que conquistei e os que perdi. Sorrio para eles e eles para mim.
Tropeço em quem um dia me agarrou na mão, leu o meu destino e me deixou escapar. Fico parada a admirar esse alguém, enquanto me lê as linhas marcadas na palma da mão que lhe estendo.
Relembro o que me amedrontou e o que me fez vencer o medo. Vou ao encontro dos momentos em que fui eu e dos que me fizeram ser quem sou.
O prado gira vestido de branco e eu rodopio com ele ao som da música que toca sem parar. Poiso nos lábios a rosa que alguém me deixou, seca pelo tempo, guardada no baloiço onde ensaiei aquela dança. Ouço os aplausos ao bailado que foi meu também.
E a árvore mantém-se de pé. Solto murmúrios e deixo-lhe um beijo.
Entro no comboio vindo do lado de cá da vida, espreito pela vidraça que separa o hoje do ontem e espero pela chegada ao meu destino. Enquanto embalo nesta jornada de regresso ao presente, declaro ao meu passado que fui feliz nesta viagem. Porque foi a minha viagem. Um bilhete de ida e volta que guardo na minha mão.
(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)
Continua a ser quem és... fechei os olhos e embarquei contigo nesta viagem... sinto-me feliz e orgulhosa de ser tua irmã.Guarda com todo o carinho esse baú de memórias, revê sempre quem te fez sorrir, tropeça muitas vezes em quem te deu a mão e relembra os momentos de ti. Por último, reserva eternamente esse bilhete que dizes trazer na palma da mão. Escreves bem, gaita!! Beijo
ResponderEliminarContinuarei a ser quem sou, sempre e até sempre...
ResponderEliminarA vida é que vai mudando o nosso dia a dia... e contra isso, nada a fazer...
Todos os dias lembro e guardo... relembro e volto a guardar...
O bilhete? Anda sempre comigo...
As tuas palavras ternurentas emocionam-me...
Obrigada, minha querida...
Adoro-te
O passado é parte da nossa vida. São estas viagens que nos fazem mais resistentes.
ResponderEliminarMais inesquecível que a viagem, é a maneira como a descreves.
Bj
E mais resistentes ficaremos a cada dia que passa, porque a nossa força é maior do que possamos imaginar...
ResponderEliminarE o que me escreves é igualmente inesquecível e ajuda-me a fortalecer mais ainda...
Desejo que o teu fim de semana comece em grande.
Beijinho enorme e... obrigada
Gostei mesmo mesmo mesmo
ResponderEliminarBeijinhos
E eu agradeço-te muito, mas muito mesmo...
ResponderEliminarBeijinhos
Será por isso que tenho tanto medo a perder a memória? A não poder viajar nem mesmo assim? A ficar soziñha por não poder tropeçar em quem me deu a mão?
ResponderEliminarPelo medo de um dia corrermos o risco de nos esquecermos, guardemos as memórias bem no fundo de nós para nos podermos lembrar sempre que tenhamos vontade de sorrir pelo que passou e já não tem volta...
ResponderEliminarEnquanto a vida nos permitir, somos livres para viajar através do baú das nossas recordações...
A solidão pode instalar-se, mas devemos lutar para que não se apodere de nós e nos impeça de voar... no meio da nossa solidão, há sempre alguém... os amigos podem ser poucos, mas se a amizade existir na sua verdadeira essência os poucos tornam-se grandes, enormes... e são o bastante...
Obrigada por passares por aqui.
Fica bem.