13 março, 2009

Feiticeiras

Não tinha nome, mas chamavam-lhe Maria.


Durante o dia sentava-se junto à fonte da praça central da aldeia. As pombas poisavam-lhe aos pés ao final da manhã e ela sussurrava como se falasse com elas, enquanto lhes estendia a mão com restos de fruta caídos no chão.


O rosto coberto por um manto branco, apregoava o feitiço e tentava pegar na mão de quem passasse por ela. Ninguém lhe conhecia as feições, apenas a sua voz doce e as mãos enrugadas que sobressaiam do longo vestido que lhe cobria o corpo.


Recolhia-se ao anoitecer. Caminhava bastante até chegar ao seu destino, uma cabana feita de ébano escondida no bosque.


No seu interior, sombras femininas sentadas à volta da mesa falavam em tom de voz vinda do além e uniam as mãos invisíveis. Uma bola de cristal centrava os seus olhares vagos. Cruzavam-se murmúrios no silêncio da noite e os fantasmas batiam à porta.


Por entre a magia, pedaços de vida juntavam-se expostos em cima da mesa redonda. Bisavós, avós, mães, filhas, netas e bisnetas geradas pela vida, destinos cruzados pelo sabor do tempo. Famílias construídas de batalhas de glória pelo suor transbordado de amor e dedicação.


Acima da mesa, mulheres vestidas de negro deambulavam os corpos numa encruzilhada. Às costas, sacos carregados de lições de vida. Trabalhos árduos, abandonos, solidões. Filhos ensinados e acarinhados, antepassados amados sem qualquer condição.


Maria sentou-se no lugar vazio e ergueu os braços, fechou os olhos e deixou soltar um gemido. Sentiu a presença de quem já partira, cúmplice da sua libertação. Um sopro vindo de perto foi de encontro ao seu rosto.


Levantou-se, arrumou o lar e banhou-se na tina. Deitou-se no leito e adormeceu com a lua cheia a iluminar-lhe o rosto fatigado. 


No dia seguinte Maria despertou, entregou-se às lides da casa e vagueou em direcção à aldeia. Sentou-se junto à fonte sob o sol que aquecia a praça. As pessoas passavam como em outro dia qualquer.


Uma mão tocou-lhe no ombro e Maria sentiu-se levar para outro lugar.


Uma pomba veio ao final da manhã e poisou na fonte. No chão, o manto branco marcava a ausência de uma feiticeira sem nome.


 


 


(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

8 comentários:

  1. E senti um arrepio ao ler este texto... consegui imaginar os lugares, a cabana e o seu interior, a feiticeira... quem faz isto é porque escreve bem, muito mesmo. Beijo

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  2. Minha querida Ónix,
    Deixas-me sempre aquelas palavras carinhosas com muito elogio à mistura...
    Obrigada, mana...
    Adoro-te

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  3. Esta já...esta também...mais esta também...hummm...esta também...
    Bem...tenho que procurar um novo dicionário das palavras elogiosas porque este blog já me fez gastar as que tinha guardadas. Mas como se consegue escrever tão bem? Assim fico sem palavras, e depois os outros comentário ficam em branco...e eu que gosto de ter sempre umas palavrinhas guardadas e logo agora as deixei acabar...o que vou fazer?
    Olha...afinal tinha deixado cair uma ultima palavra aqui na secretária...sim...esta serve em pleno, FANTÁSTICO.
    Beijinhos.

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  4. Eu é que já não sei como agradecer as coisas tão bonitas que me dizes...
    Essa tua forma peculiar de transmitir tamanho apreço...
    E porque a palavra é sempre a mesma...
    MUITO OBRIGADA por tudo o que deixas ficar escrito aqui, por estares sempre presente, pelo carinho, por tudo, enfim...
    És um querido...
    Beijinho grande e sempre azul

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  5. Sinto-me enfeitiçada...
    é a poção perfeita, palavras mágicas salpicadas com muita imaginação.

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  6. E as nossas almas voam através dos tempos...
    São lindas as tuas palavras...
    MUITO obrigada

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  7. Gostei muito deste teu texto, é certo que o tema me entusiasma e lamento não ter visto o desafio a tempo...
    Mas as tuas palavras escritas têm voz, neste texto em particular sussurros trazidos pelo vento, acalentados pela magia e o encanto que despertam os sentidos, sinto-me mesmo a viajar, está muito bom!

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  8. Que mais poderei dizer senão obrigada...?
    Transmitir tudo o que me vai na alma faz-me viver melhor, já que no dia a dia o coração tem que ficar fechado...
    Aqui grito o que fez de mim prisioneira da vida...
    E porque os amigos existem... poucos mas imensamente grandes...

    Sabes que a Fábrica de Histórias é um passo para mostrarmos o valor que possamos ter... é o podermos partilhar o que a nossa imaginação permitir... é conhecermos talentos escondidos... é a descoberta do que conseguimos transmitir...
    Não páres nunca de escrever...
    Beijinhos floridos

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